
Várias das novelas lançadas pela Tordotcom vêm a ser nomeadas para diversos géneros da ficção especulativa, pelo que estou sempre atenta aos próximos livros. Neste caso, a premissa era curiosa, prometendo-nos uma viagem a um planeta Marte que começa a receber as primeiras colónias de humanos. Existia, no entanto, um elemento que me toldava as expectativas, referindo influencers numa expedição. Preconceito, eu sei. Felizmente, a abordagem é mais realista, até perigosa e humana o que resultou num livro mais introspectivo, algo que tem um ambiente semelhante a um Station Eleven.
Conforme referi, em The Rainseekers, a humanidade iniciou a colonização de Marte, a par com um processo de terraformação, com o objectivo de criar condições futuras para um planeta totalmente habitável. Por enquanto tal ainda não é possivel e os seres humanos vivem numa espécie de rodomas que albergam as cidades marcianas. É neste contexto que um grupo de pessoas se junta numa expedição para serem os primeiros seres humanos a experimentar chuva em Marte.
A viagem inicia-se da forma esperada, com três transportes que carregam todos os seres humanos e respectivos acessórios. Mas quando um deles avaria, e depois da morte de um ser humano que tentou arranjar o motor, a expedição quebra-se. Enquanto alguns decidem voltar para trás, outros enfrentam o risco num território inóspito para poderem viver algo único.
The Rainseekers há-de revelar-se mais introspectivo do que o esperado. A tal influencer deixou essa vida de lado e realiza a reportagem fotográfica, registando também as vidas de cada um dos exploradores. Tratam-se de existências diversas, por vezes traumáticas ou problemáticas, sendo que várias das pessoas procuram, nesta viagem, uma experiência que seja significativa na sua vida.
De relato em relato, vamos percebendo que a maioria das pessoas nesta expedição vê, na sua existência em Marte, uma forma de recomeço ou de redenção. Alguns tiveram passados obscuros, marcados pela infâmia, outros seguiram caminhos que agora rejeitam. Marte funciona como uma possibilidade de criar novas identidades, libertando-se dos antigos conhecidos e expectativas e seguindo por novos rumos.
Em pano de fundo, percebemos que se trata de uma expedição perigosa. Sem os fatos protectores, os seres humanos ficam expostos aos elementos, num planeta sem atmosfera, onde qualquer descuido é letal. Para prosseguir é essencial que os elementos do grupo ajam em comunidade, cooperando para atingir o objectivo comum e sobreviver.
Ainda que a história decorra num contexto de transformação planetária, foca-se na transformação das pessoas, apresentando o espírito de exploração humana associado à busca de um sentido maior para a vida. Esta busca, que mostra como os humanos procuram algo mais do que a simples sobrevivência (colocando-a até, em segundo plano) é o ponto principal da história. Trata-se de uma premissa interessante, que lhe confere alguma introspecção, mas que resulta, por vezes, numa importância secundária da narrativa, onde as vidas que se mostram têm mais intenção em mostrar uma mensagem do que desenvolver empatia e sentido individual.