A colecção Novelas Gráfica lançada em Portugal pela Levoir tem trazido alguns volumes de Chabouté, como Acender uma Fogueira e Táxi Amarelo. Ambos adaptações de romances, o primeiro de Jack London, o segundo de Benoit Cohen. Este volume, história própria do autor, é, tal como Taxi uma história que explora o descobrir da cidade numa outra perspectiva.

A história inicia-se mostrando um homem, Alexandre, que segue a mesma rotina nas últimas décadas, sem tirar férias. Finalmente, este ano, irá partir numa expedição até ao Alasca. Equipado, descobre no embarque que a companhia de viagens pela qual contratou estará em processo de falência, sendo que as passagens não são válidas. Para acompanhar a notícia, parte o pé.

Não querendo retornar a casa, hospeda-se num hotel em frente a casa, quebrando desta forma a rotina e usando o tempo de férias para explorar o que o rodeia, mas de uma perspectiva diferente – mais calma e mais introspectiva. Uma vertente que o ajudará a ver o sem-abrigo que vive na praceta, e outros detalhes que sempre lhe escaparam ao longo dos largos anos em que ali habita.

Em primeira instância, a narrativa explora a quebra da rotina. Alexandre vive mecanicamente, assumindo que desconhece o que rodeia a sua casa em plena luz do dia. O desgaste continuado impede-o de usufruir o espaço e desgasta-o. A sucessão de infortúnios parece impedir a quebra com este ciclo, mas revela-se antes como uma oportunidade para redescobrir o que o rodeia, e, claro, a si próprio.

A expectativa para as férias era partir para o exterior desconhecido, explorando o Alasca, região isolada, e bastante diferente. A concretização leva-o antes a, depois de vencer a frustração, contemplar o espaço que usa todos os dias, contemplando as rotinas das outras pessoas que frequentam o bairro, e fazendo da praceta o local de exploração. Alexandre desacelera.

Partir, ficando é um livro relativamente pequeno, mas introspectivo, que transforma o banal quotidiano em viagem de descoberta. É uma história com poucas palavras, contada mais por observação (tal como a personagem observa) do que por explicação, destacando-se os desenhos a preto e branco, onde encontramos uma grande parte da expressividade e entendimento. É uma obra aconselhável, sobretudo para quem não exige que a banda desenhada seja uma sucessão de episódios de acção.