
Publicado originalmente em 1997 e com duas edições anglosaxónicas não tão recentes (2022 e 2019), este livro ganhou bastante notoriedade nos últimos meses, aparecendo como melhor leitura numa série de blogues e, pelos vistos, no booktok. Curiosamente, o livro foi lançado em Portugal pela Livros da Brasil e passou-me completamente despercebido. A premissa parece prometer um género de distopia pós-apocalíptica, um suposto cruzamento de The Road com Ursula le Guin.
A história centra-se numa jovem rapariga que não tem memórias anteriores ao cativeiro. Numa cela comum, partilhada com tantas outras, sem luz natural, o grupo de mulheres habitua-se a um quotidiano artificial, sem contacto físico, sem novidades, e com o mínimo de emoções. A expressão de reacções exaltadas leva a uma reacção agressiva dos guardas, pelo que as reclusas evitam o contacto.
Os dias repetem-se. Todas as semanas é distribuída comida para cozinharem. Ocasionalmente são distribuídos tecidos para fazerem vestidos, ainda que não possuam as ferramentas adequadas para tal. Até ao dia em que um alarme soa, os guardas fogem, mas por fruto do acaso, como tal aconteceu quando iam distribuir uma nova ronda de víveres, as chaves ficam oportunamente colocadas para que se possam libertar.



Lá fora, encontram um mundo inóspito, sem outros animais, mas com água, passando a subsistir com os mantimentos guardados nos armazéns anexos à prisão. Depois de explorarem as redondezas percebem que dos seus guardas não há sinal, encontrando-se sozinhas e enfrentando uma realidade que parece vazia de sentido – pelo menos quando comparada com a vida normal antes do cativeiro, de que apenas a personagem principal (mais nova) não tem memória.
Ainda que não seja confirmado, a condição deste grupo de mulheres parece ter tido origem numa guerra com algum tipo de invasores (provavelmente alienígenas). O grupo percebe que não se encontra na Terra, mas perdeu memória do que terá ocorrido para estarem em clausura. Não parece tratar-se de um castigo propriamente, mas ainda que recebam bens para se manterem, o regime é desumano – tanto pelas condições artificiais que criam um ciclo pouco natural, como pelas ameaças sempre que existe alguma expressão de sentimento ou interacção mais próxima entre as mulheres.
A personagem principal destaca-se por ser mais jovem do que as restantes e não se recordar de momentos anteriores à clausura. Percebemos que se mantém à parte das restantes, participando o mínimo nas suas actividades e alimentando um rancor peculiar. Numa segunda fase da história, percebemos, também, que este rancor tem mais do que uma origem. Por um lado não podendo receber contacto físico e sendo demasiado pequena quando foi adicionada, manteve-se psicologicamente inalcançável, por outro, apesar de desenvolver alguns caracteres secundários, nunca menstrua e não apresenta qualquer desejo sexual, o que, após se soltarem, a vai manter fora dos relacionamentos amorosos e das suas tempestuosidades.



Para as restantes mulheres a existência prossegue sem sentido. Em cativeiro recordam de nublada as anteriores famílias e persistem no ciclo imposto. Em liberdade, percebem que estão sozinhas, estabelecem relacionamentos, mas não atingem um sentido de pertença e de existência que as satisfaça totalmente. Já a personagem principal, sem passado, não compara com algo que não tem, e não sente a mesma falta de sentido na sua existência, pelo que, depois da fuga, desenvolve vontade de saber e conhecer mais.
I Who Have Never Known Men é uma história que vai colocar mais questões do que responder. A personagem não tem ligação com uma civilização humana, pelo que fará algumas descobertas sem grande percepção do seu possível enquadramento. O resultado é uma história mais introspectiva e desoladora, e que aconselho a quem não se importe com um final aberto.