
O Fórum Fantástico decorreu nos dias 09 a 11 de Outubro, com uma mensagem geral bastante clara – próximo ano é ano de Eurocon em Lisboa. Neste seguimento e sabendo que Adrian Tchaikovsky é um dos principais convidados, não é de estranhar que na sessão de Leitura do ano seja o autor mais recomendado. Até porque os seus livros abordam diferentes géneros e sub-géneros, possibilitando que uma grande diversidade de leitores o possa apreciar. Entretanto, alguns dos meus companheiros de painel já publicaram os detalhes das suas listas (Artur Coelho e João Campos).
A sessão iniciou-se com uma recomendação conjunta, a do mais recente livro de João Ventura, O Cidadão sem sombra. Trata-se de uma colectânea diversa com várias histórias de formatos e dimensões diferentes, que são, sobretudo, jogos inteligentes com conceitos e palavras, construindo situações absurdas que vão sendo desconstruídas durante os contos. O conjunto é excelente e recomendável, sobretudo para quem aprecia o tipo de humor do autor.




A minha primeira recomendação é A Bússola e o Labirinto, de Sebastião Alves. Trata-se de uma distopia que nos apresenta uma sociedade com uma ditadura das cores, onde os daltónicos, aqui denominados cromopatas, são demonizados, constituindo a figura do bicho papão, um homem teoricamente pouco civilizado. Quando um académico resolve estudar o tema, contra todos os conselhos, acaba por acordar terrores antigos que são aproveitados pela comunicação social para criar uma situação de pânico e por fazer subir o sucesso dos partidos populistas.
Coisas Ruins, de João Zamith, vencedor do prémio Ataegina (e entretanto, no mesmo dia, anunciado como vencedor do prémio Adamastor de literatura fantástica portuguesa), é um livro de horror e afasta-se daquilo que costuma ser o meu género de leitor. Ainda assim, destaca-se pela apresentação de um ambiente rural português, onde as famílias endinheiradas ainda são as mais influentes nos meios pequenos, e pelo desenvolvimento de personagens. A história está carregada de tensão e antecipação, elementos construídos de forma competente ao longo da história.
A minha terceira recomendação de autoria portuguesa é Libertem os velhos. É, também, uma distopia, que nos apresenta um futuro provável, onde as decisões são maioritariamente tomadas pela inteligência artificial, e a maioria das pessoas tem ocupações fictícias. Neste futuro, a possibilidade de cancelamento total é real, e alguém pode ser alvo por ter um nome coincidente ao de alguém que efectivamente agiu de forma errada. É o caso da personagem principal que, apesar da carreira promissora, se vê desempregado, sem amigos e sem namorada. É neste poço que retorna à casa da mãe, e descobre pistas de que os mais idosos estarão a ser congelados.



Service model, de Adrian Tchaikosvky será a próxima recomendação conjunta. Foi o primeiro livro que li do autor e efectivamente é uma projecção fascinante de um futuro controlado por máquinas cujos algoritmos se tornam incoerentes quando combinados. É uma sátira genial, quer à humanidade quer à automação extrema, uma crítica bem humorada mas acertada, principalmente com as ideias recentes de substituir tudo por inteligência artificial, à qual falta esperteza existencial, e sem supervisão humana. Apesar do bom humor existe alguma melancolia, baseada na visão enlouquecedora de uma realidade onde falta sentido prático nas decisões tomadas pela artificialidade.
Para os que seguem o blogue não é de surpreender que os livros de Katherine Addison se encontrem nestas recomendações. Conforme expliquei, à muito tempo que não apanhava uma série que me desse vontade de ler todos os livros de seguida. E neste caso, li os cinco livros e todos os contos que consegui apanhar. Ainda que os livros decorram no mesmo Universo ficcional, The Goblin Emperor e The Orb of Cairado podem ser lidos independentemente da trilogia The Witness of Dead.
No primeiro volume, The Goblin Emperor, seguimos o filho meio Goblin do Imperador Elfo. Quando a família imperial morre toda no seguimento de um acidente, resta este jovem que, nunca tendo tido contacto próximo com a corte, terá de aprender protocolos e diplomacia, numa sociedade onde as interacções se constroem com subtilezas e indirectas. É, portanto, um livro relativamente pausado, centrado numa personagem que percebe que, se antes, tinha uma existência isolada, aqui não será melhor.
A trilogia The Witness of dead centra-se numa Testemunha da Morte. Trata-se de um sacerdote capaz de ouvir os mortos, sobretudo os mais recentes, sendo portanto chamado frequentemente a resolver assassinatos, heranças ou pedidos tão simples como “onde a minha deixou a receita dos bolos”. A premissa faz com que a narrativa seja mais movimentada (ainda que as interacções sejam algo políticas) , com a personagem principal a perseguir ghouls, resolver mistérios ou enfrentar fantasmas.



A próxima sugestão traz-nos, novamente, Adrian Tchaikovsky, com Green City Wars. Aqui o autor imagina uma cidade futurista, onde os humanos foram trazidos à auto-consciência através de manipulação genética. No entanto, para poderem manter este estado, têm de consumir regularmente uma substância. Mas esta elevação das espécies animais não foi altruísta. Todo o trabalho é delegado nos animais, que precisam da substância para se manterem. Cada espécie mantém algumas características dos animais originais, criando uma espécie de sub-mundo onde não faltam máfias, corporações e associções de trabalhadores.
Autobiografia de um polvo de Vinciane Despret é um conjunto de pequenos textos que se centram numa ideia base – e se os animais tivessem linguagens e escrita, cada uma específica da sua própria natureza? Entre tratados pseudo-académicos encontramos, também, uma autobiografia de um polvo.
Como já referi várias vezes, The Steerswoman é uma série que começa por se apresentar como fantasia e se desenvolve como ficção científica. A sociedade parece estar numa realidade de complexidade medieval, existindo dois grupos de pessoas que detêm conhecimento e o usam de forma diferente. As Steerswoman é um grupo formado essencialmente por mulheres que tem por principal missão recolher, registar e distribuir conhecimento. Têem de responder a qualquer questão que lhes seja colocada – a não ser que a pessoa se recuse a responder a questão de uma Steerswoman. O outro grupo que detém conhecimento é o dos magos que os usa para fins obscuros, ainda que, rapidamente comecemos a desconfiar que na realidade detém acesso a avanços tecnológicos, sendo daí que serão originários os seus conhecimentos.



Recentemente foi publicado, em português, o pequeno livro de Michel Nieva, denominado Ficção Científica Capitalista. Aqui o autor desenvolve a ideia de que a ficção científica é essencialmente capitalista, seja porque fornece ideias que são usadas pelas grandes empresas, seja porque, por vezes, os autores trabalham em parceria com estas empresas capitalistas. Ainda que não concorde com alguns dos pontos levantados, não deixa de ser uma leitura interessante e desafiadora.
Outro livro que foi lançado em português foi I Who Have Never Known Men, de Jacqueline Harpman. Esta história explora uma premissa de ficção científica mas pelos olhos de uma personagem que, sendo uma jovem mulher, não se recorda da sociedade humana, vivendo em cativeiro com várias outras mulheres. Até ao dia em que, durante a distribuição da comida, o alarme soa e os guardas fogem, deixando-lhes os meios para se escaparem. Lá fora encontram um mundo inóspito, desenvolvendo-se uma dualidade entre a perspectiva da jovem e das restantes mulheres, mais velhas e que recordam uma existência diferente.
Automatic Noodle é uma das leituras mais aconchegantes que tive oportunidade de ler, ainda que fuja da fórmula tradicional das fantasias aconchegantes da moda. A história centra-se num grupo de robots que tenta gerir o próprio negócio, ainda que não possuam a direcção de um humano, factor que seria essencial para serem aceites. A história explora preconceito, memórias de guerra e famílias sem laços de sangue.



Já The Vanished Birds é uma das melhores leituras dos últimos meses, e decerto aparecerá no meu top anual. A narrativa permite saltitar entre personagens, algumas apenas por curtos capítulos, mas ainda assim conseguindo construir perspectivas muito pessoais que conferem um entendimento maior da história e dos relacionamentos que se vão desenvolvendo. A história começa por apresentar um planeta de contornos medievais, mas que é visitado regularmente por naves especiais para trocas comerciais. Fora deste planeta existem outros habitados por seres humanos e com sistemas bastante diferentes. No centro da história encontramos um rapaz com capacidades inovadoras que, não sendo exactamente um protagonista, estará no centro. Apesar dos avanços tecnológicos e das perspectivas imperiais, consegue ser uma narrativa bastante humana.
A próxima sugestão é Making History de K. J. Parker. Trata-se de uma farsa, dentro de uma farsa, onde se sucedem as reviravoltas, as trapaças e os enganos – começando com a própria premissa. Uma série de académicos é chamada à presença do Imperador para lhes ser concedida uma missão: criar uma cidade antiga falsa, que teoricamente teria sido extinta há muitos séculos por um reino vizinho, para que sirva como justificação para uma invasão. Inventam-se linguagens e arquitecturas, passados e eventos de um suposto povo antepassado.
The Golem and the Jinni, de Helene Wecker, é uma das minhas recentes leituras antes do evento, sendo, também, uma sugestão da IA quando lhe passei a minha lista to be read. A história destaca-se por apresentar duas personagens principais, duas criaturas que vivem entre os humanos na cidade de Nova Iorque e que tentam passar despercebidas. Ambas as criaturas apresentam personalidades coerentes com as suas naturezas. A Golem é forte, constante e sólida, enquanto o Jinni é volátil e tempestuoso. Ambos estão presos à sua condição, e tentam adaptar-se ao mesmo.



Em Cadáver requintado, de Agustina Bezterrica, no seguimento de uma doença, os animais tornaram-se impróprios para consumo e sobrevivência. Enquanto os animais domésticos são substituídos por versões robotizadas, a carne passa a provir de humanos. A história mostra como toda uma sociedade adopta vocabulário e hábitos que justifiquem este consumo e que permitam ver outros seres humanos como animais e não como semelhantes.
As minhas sugestões finais são dois livros de banda desenhada, nomeados para os prémios da Amadora BD. O primeiro, A Fera, um livro que usa a figura do marsipulami para criar uma história fofa, apropriada para todas as idades, mas interessante também para adultos. O Grande Poder de Chninkel é uma nova edição, a preto e branco, que apresenta uma epopeia fantástica fabulosa, que consegue mostrar momentos decadentes da personagem, mas também como alguém pode se tornar o escolhido de forma duvidosa, e com resultados mirabolantes.
Outras leituras do ano (dos anos anteriores não há registo)