A Polvo tem introduzido em Portugal vários autores brasileiros que se têm tornado referências para bons livros. Rapidamente recordo Marcelo Quintanilha ou André Diniz. Com este livro, Luckas Johanathan poderá juntar-se a esta lista, estando curiosa para ler os restantes do autor.
Como Pedra leva-nos ao Sertão, uma região de pobreza extrema, onde as condições atmosféricas levam à aridez dos terrenos e, consequentemente, à fome. A história centra-se numa família que, para além da escassez, deve lidar com a deficiência da única filha, uma situação que se vai tornando cada vez mais desesperante e desgastante, sobretudo quando os apoios do governo para os medicamentos vão sendo cortados.



Nestas condições, a família (sobretudo a figura paterna) revela-se desconfiada perante as sugestões de ajuda dos desconhecidos, ainda que, mais tarde, vá abrir a porta a suposta ajuda sob disfarce de promessa religiosa. A religião é usada mais como escudo para outras intenções, nefastas, aproveitadoras das situações miseráveis, do que como suporte e ajuda. A crença dá lugar ao fanatismo, à exigência de um sacrifício para libertação. Opõe-se a perspectiva dos progenitores, mas sobrepõe-se a perspectiva de uma mãe que se sacrifica para cuidar da filha deficiente, mantendo-a contra todas as probabilidades, mesmo em situações extremas.
A narrativa começa deprimente, e vai tornar-se cada vez mais claustrofóbica, enquanto desenha um quadro demasiado realista de um poço sem fundo, um afunilar de possibilidades pela redução de suporte. A miséria acumula-se e torna-se extrema, sem dar espaço para fuga, somando camadas de novos sufocos e desgraças. O resultado é uma boa leitura, mas pesada, onde os momentos mais pausados e mais familiares ajudam a criar a empatia, e, consequentemente, a causar mais impacto no leitor.
