Eis mais um livro de autoria polaca publicada pela editora A Seita. Este volume foi lançado no Maia BD com a presença dos autores e obteve o grande prémio do Festival Internacional de Banda desenhada e Jogos em 2022.

A história decorre numa pequena vila polaca dos anos 20, opondo evolução e tradição, com a propagação de uma componente mística, à qual se elevam as reacções tradicionais – sobretudo contra as mulheres e a sua possível independência sexual. Neste caso, a personagem principal é Pelagia, uma mulher moderna, tanto em modo de vestir quanto em hábitos, o que provoca sentimentos controversos na população local – simultaneamente atraída e fascinada, mas também demasiado colados às aparências para terem a coragem de mudar. É mais fácil, claro, condenar.

A figura feminina apresenta-se como sedutora e perigosa. Envolvendo-se com um jovem local, este relacionamento depressa é mal visto, tal como as sessões de conversas entre mulheres, onde se falam de medicamentos e, consequentemente, de contraceptivos – tema que sempre foi falado entre mulheres, mesmo nos meios tradicionais, mas que aqui será mais um ponto de controversa em relação a Pelagia.

Claro que a conotação mais simples e directa é a da bruxa – figura mística que assombra grande parte dos meios rurais, vista simultaneamente como tenebrosa (até, aliada do diabo) mas fonte de mezinhas inevitáveis, seja como curandeira, seja como fonte de feitiços que visam materializar os desejos mais profundos. Mas na prática, uma conotação que é atribuída a qualquer mulher que não se encaixe no papel submisso ou que tenha a língua demasiado afiada.

As reacções dividem-se. O lado masculino contrasta o desejo por uma mulher mais moderna, ao mesmo tempo que condena publicamente a admiração, receoso da possível influência sobre outras mulheres que, sem outros horizontes, ou ideias, se mantêm submissas. O lado feminino oscila entre a excitação da novidade e das ideias, mas deixa-se esmorecer pela opinião pública e pela repressão demasiado familiar. A mulher pode cuidar dos seus temas femininos – mas sem aspirar muito, e, claro, em segredo.

Em termos visuais, as páginas apresentam um desenho delicado, a três cores – preto, branco e suaves tons de rosa. Este aspecto combina bem com a história, que, apesar o tema, também se apresenta agradável, apesar do tema abordado. Aliás, até diria, demasiado agradável. Existe um clima de tensão que se instala na comunidade em relação a Pelagia, mas o texto opta por uma abordagem mais superficial, até simpática.

Heksa A Bruxa retorna a um tema reconhecível de outras histórias, colocando-a num meio ligeiramente diferente onde se reconhece a forma universal de como se mantém a mulher no seu lugar. Ainda assim, destaca-se pela introdução de elementos polacos que contribuem com a novidade na leitura, quer pela utilização de termos locais, quer por alguns detalhes culturais que se vão encontrando.