Se Acordar Antes de Morrer – João Barreiros (parte I)

Poucos são autores de Ficção Científica em Portugal, mas entre os poucos que existem, João Barreiros é decididamente o melhor entre eles. O primeiro livro que tive oportunidade de ler foi A Verdadeira Invasão dos Marcianos,  publicado pela Editorial Presença, uma história que explora A Guerra dos Mundos de Wells, numa sátira aos clichés. Por sua vez, pela Caminho ainda conseguimos encontrar alguns exemplares de O Caçador de Brinquedos e Terrarium (autoria partilhada com Luís Filipe Silva).

Mais recentemente, tive a oportunidade de ler Disney no céu entre os Dumbos (publicado em edição numerada e assinada pela Livros de Areia) e A Bondade dos Estranhos pela Chimpanzé Intelectual, assim como os contos publicados na colectânea Brinca Comigo e no segundo volume de Imaginarios.

Na maioria as histórias de João Barreiros possuem uma pitada de ironia e sarcasmo, algumas (q.b.) reviravoltas mirabolantes e situações surreais. Ainda que não tenha apreciado todos de igual forma são acima da média em qualidade.

Foi, assim, com grande interesse, que soube que iria ser publicada, pela Gailivro, uma colectânea que reúne imensas histórias do autor, num único volume: Se Acordar Antes de Morrer.

A primeira história que encontramos é Disney no céu entre os Dumbos, carregada de ironia e humor negro, já a conhecia do volume da Livros de Areia, e já teve direito a um post apropriado, pelo que não me irei debruçar sobre ela.

Segue-se Efemérides que segue uma geração de rapazes que nasceram na Lua e apenas conhecem as paisagens lunares. Isso não impede Russell de se refugiar em sonhos terrestres, onde vê as ruas de grandes cidades e livrarias carregadas de graphic novels. Os sonhos não o impedem de acordar às 6h da manhã num dormitório de rapazes, caracterizado pelos típicos odores corporais, e de enfrentar a realidade que o rodeia: uma base lunar onde a escassez de água influencia todo o dia-a-dia.

Fantascom é a terceira história, que nos apresenta o sonho e o terror de qualquer escritor: a de ser um best seller com milhões de seguidores e a de descobrir que as vendas dos seus livros não atingiram os valores publicitados. Gervásio Quiroga é o nome da personagem principal, o autor de uma extensa série fantástica portuguesa (cujas descrições relembram o Senhor dos Anéis de Tolkien). Conhecido e idolatrado, Gervásio alimenta a arrogância de não ler outros autores (não vá influenciar a sua obra), vivendo recluso num apartamento  luxuoso, e mantendo, à distância, os seguidores da saga. Para além de Gervásio, conhecemos Aristides, o representante da editora, que se sente atraído por Gervásio, Nissa Valmundo, uma gótica de aparência frágil, a poetisa do momento que em todos os momentos da história parece desfalecer; e finalmente, um grupo de esquecidos autores portugueses que descobrem a verdade por detrás das vendas do último livro de Gervásio, e possuem um plano anárquico para liquidar as inteligências artificiais de Rowling, Paulo Coelho, Dan Brown, Asimov, Robert Jordan, Feist e McCaffrey, que se encontram condenadas a escrever para sempre.

Nesta demente aventura de personagens contrastantes numa distopia portuguesa, realça-se um episódio em torno do sistema de ensino, um episódio que se assemelha um pouco à nossa realidade: alunos que não aprendem e não querem aprender, que não sabem ler, mas que, possuem implantes ligados directamente ao cérebro, disponibilizando toda a informação possível. Mecanismo esse que é, na verdade, inútil, dado que, para obter a informação é necessário saber procurá-la. Por outro lado, para além da sua própria energia, os alunos contam com uma quota que os professores devem ceder obrigatoriamente.

Se o mundo é negro em Fantascom, em Liscon é também caótico. Os vírus proliferam e a mata cada vez mais selvagem estende-se pelo país: Álvaro decide fazer a viagem de Porto a Lisboa para apresentar a sua obra, mas não sem antes adquirir um grupo de clones de ataque, crianças de dentes serrilhados e unhas retractéis, autênticas armas de guerra.  Pelo caminho, encontra a Vara dos Leitões Selvagens, a Seita dos Baladeiros Coimbrães e os Gnurls (extraterrestres aracnídeos). Mas se o caminho está carregado de provações, Lisboa proporcionará também os seus encontros fantásticos.

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