Sempre Vivemos no Castelo – Shirley Jackson

A versão inglesa do livro de Shirley Jackson, We Have Always Lived in the Castle há muito que me tinha chamado à atenção. De resumo pouco vulgar, a capa auspiciava uma história estranha e negra. Publicado em 1962, pensa-se que os ataques fóbicos de uma das personagens terão como base os da própria autora. No entanto, ela terá admitido que as duas personagens principais foram baseadas nas filhas.

A história inicia-se com a ida de Merricat à aldeia, com o intuito de abastecer a despensa de casa. De uma das famílias mais importantes da localidade, Blackwood, é ostracizada pelos aldeões de tal forma que a viagem semanal é uma tormenta apenas ultrapassada com recurso a jogos mentais e alienações:  escolhe o dia da semana em que se julga mais forte, ganha pontos consoante o trajecto e os obstáculos que contorna, ignora os comentários e imagina a tortura dos que, de soslaio, comentam a sua presença.

Com os sapatos da mãe, logo nos perguntamos porque é que uma jovem de 18 anos, de família abastada, se vê obrigada a deslocar, sozinha à aldeia e a transportar, ela própria as compras sozinha. Tal estará relacionado com a reacção dos aldeões que ostentam um misto entre inveja contida e fermentada pelos anos, e repulsa pela tragédia que se terá abatido sobre os Blackwood. Da numerosa família apenas restam três membros: Merricat, a irmã, Constance, e o tio.

Se Merricat se esconde num mundo imaginário, a irmã, Constance, não tolera a ideia de sair de casa e frequentar locais públicos, uma fobia que constantemente planeia ultrapassar, e o tio, impossibilitado de se movimentar, vive quase sempre no passado, obcecado em escrever um livro com os detalhes do fatídico dia que terá causado a sua imobilização e a morte de quase toda a família. Esta monotonia é quebrada pela chegada de um primo que, sob a pretensa de ajudar a família, pretende apropriar-se da fortuna dos Blackwood.

Apesar dos 18 anos, Merricat comporta-se como uma criança de cinco, refugiando-se num mundo imaginário sempre que alguma dificuldade se apresenta, plantando talismãs no quintal, ou mantendo intocáveis, de forma obsessiva, os pertences dos anteriores membros da família. Se Merricat é incapaz de encarar a realidade, Constance, apesar da fobia, revela-se estranhamente complacente e conformada com o ter de cuidar da irmã e do tio acamado.

Sempre vivemos no castelo é uma história trágica, mas de tom bem distinto do que seria de esperar: os acontecimentos são relatados pelos olhos de Merricat, entre a inocência de uma criança e a malvadez inconsequente de um louco, que ora se refugia na lua, ora descarrega a sua raiva nos objectos que apanha. Torna-se desta forma um relato excelente da crueldade humana que cruza diferentes insanidades com as consequências do medo fortalecido: Merricat tem medo da mudança, Constance não suporta as multidões, e os aldeões temem o que não compreendem.

5 pensamentos sobre “Sempre Vivemos no Castelo – Shirley Jackson

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