Uma das características que tornaram os livros de George R. R. Martin tão conhecidos terão sido as personagens. Ao contrário de outros livros do género, os vilões que podemos encontrar em Song of Ice and Fire são humanos, ou seja, apesar de ladrões, mentirosos ou assassinos, podem apresentar um lado crítico e inteligente tornando-se uma das componentes mais divertidas da história, ou, ainda, são personagens com as quais simpatizamos ao conhecer as circunstâncias que os tornaram no que são.

Best Served Cold, de Joe Abercrombie, foi o livro que resolvi ler primeiro deste autor, por não se apresentar incluído numa trilogia ou série infindável. As várias críticas que tinha lido e ouvido sobre os livros do autor indicavam a riqueza em violência e em personagens moralmente condenáveis. O livro não só correspondeu a esta expectativa, como apresentou surpresas noutras áreas.

Em Best Served Cold um casal de irmãos,  Monzcarro  e Benna comanda um poderoso exército de mercenários contratados por Duque Orso. Tendo vencido inúmeras batalhas, Monzcarro é a comandante implacável enquanto o irmão e amante é mais conhecido pelos subterfúgios e politiquices. A sua popularidade junto das povoações torna-os perigosos para o poder do Duque que, entre os seus descendentes não vê nenhum herdeiro tão forte. Decide-se, assim, a matá-los, despejando os corpos montanha abaixo entre outros detritos, mas sem saber que Monzcarro ainda respira.

Salva por um estranho mas componente médico, Monzcarro foge, decidida a reunir um grupo de combatentes a fim de se vingar de todos aqueles que participaram no plano do Duque: sete pessoas dispersas por todas as camadas sociais e profissões, desde um mercenário a um banqueiro, passando por um dos filhos do Duque e pelo próprio Duque. Entre aqueles que contrata encontra-se Shivers, um homem que tinha decidido abandonar as terras do Norte e torna-se um homem melhor nas terras do Sul. Mas ao contrário do que esperava, nestas não arranja emprego e vê-se obrigado a aceitar a oferta de Monzcarro.

O grupo que Monza reúne é deveras estranho: um assassino profissional incapaz de se relacionar com os restantes mas fascinado por números, um alquimista envenenador e a sua ajudante (um par estranho, ele apaixonado, ela interessada em substituir o papel do mestre), um ex-mercenário e uma mulher que apresenta capacidades mágicas.  Existem, ainda, outros ajudantes temporários, nenhum moralmente mais correcto do que o anterior. Estranhamente é Monza uma das que se revela mais recta, apesar de ser fria, implacável, sarcástica e vingativa.

Apesar das mais de quinhentas páginas é uma leitura rápida e viciante, que toca levemente num assunto polémico historicamente conhecido: quem mata um homem é assassino, quem mata milhares é um herói, quem rouba  pouco é ladrão, quem rouba milhares é novamente um herói.  Esperem muita violência, sexo, ironia, sarcasmo e obsessões maníacas, cada personagem tem características diferentes que tornam este grupo de vingadores bastante peculiar.

Não esperem um fantástico elaborado como Peake ou Borges, antes uma história movimentada mas bem contada, que consegue tornar-se divertida entre banhos de sangue e traições.