Eis outra crítica que comecei a escrever há algum tempo e não a terminei nem cheguei a lançar. Isto porque recebi o livro para poder fazer um blurb antes de o livro ter sido lançado e não fazia sentido publicar antes do lançamento.

Nuno Ferreira é um autor já conhecido no meio da ficção especulativa, sendo um dos autores que costuma estar presente em quase todas as antologias de autores nacionais. O seu primeiro livro, Espada que Sangra é o início de uma saga fantástica e faz parte do Zallaverso, tal como este, Embaixada, ainda que decorra num planeta diferente.

A história

A história segue várias personagens que se vão enredando num segredo antigo – um segredo que pode mudar o equilíbrio de poderes deste mundo! Aqui, neste mundo, existe uma raça de criaturas poderosas e impiedosas, com capacidade sobre-humanas e um espírito maldoso. O segredo estará associado a estas criaturas, mas para tal, é necessário desvender um diário incompleto e pouco directo.

A crítica

Li este livro em Janeiro de 2021, com uma cópia fornecida pela editora para escrever um blurb, mas tendo sido oficialmente publicado em Outubro do mesmo ano, pretendia publicar uma crítica mais próximada da data de publicação. Bem, o tempo passou e realmente termino em Outubro, mas de 2022. Eis o blurb:

“Embaixada é uma história implacável, onde os episódios de acção se sucedem com uma velocidade estonteante e as personagens são constantemente atiradas para uma nova e dramática situação. Os elementos fantásticos existem, mas estão bem doseados e proporcionam factores adicionais de tensão! Eis, pois, uma boa leitura para os fãs de fantasia que pretendem uma história dura, realista, violenta e movimentada. “

As tais criaturas, dados os seus poderes, não valorizam a vida humana, nem possuem empatia para com a dor que provocam. Temidas pelos humanos, provocam desta forma episódios de acção violentos, o que proporciona uma mudança relativamente à maioria das fantasias escritas em Portugal, fofinhas ou com vilões relativos. Aqui os vilões são-no por falta de empatia para com os humanos.

As personagens são, no entanto, demasiadas. Para resolver o mistério a acção passa de personagem em personagem, usando referências a situações, famílias, objectos e terras sem o devido contexto. Se por um lado, estamos sempre a dizer para se usar o “show, don’t tell”, existia aqui a necessidade de dar algumas pistas adicionais ao leitor. Isto faz com que seja um livro difícil de entrar – no início até fui tentar perceber se realmente não havia alguma história anterior da mesma saga. Mas é possível continuar a leitura e foi o que fiz.

Ultrapassando esta dificuldade, o que se constata é que as personagens vão sendo atiradas, sucessivamente, para novos episódios carregados de tensão, onde a sua vida é posta em risco várias vezes. Aliás, é esta sucessão de momentos de acção que permite que a leitura progrida a um bom ritmo e lentamente se construa um puzzle mental pelo leitor, enquanto encaixa nomes, famílias e acontecimentos.

Em termos de ficção especulativa, a acção decorre num local diferente da Terra, e existem criaturas relativamente humanóides que parecem invencíveis ou imortais. Adicionalmente, a civilização encontra-se num estado de tecnologia inferior ao nosso . Diria que são estes os factores que determinam as grandes diferenças ao nosso mundo – e Nuno Ferreira usa-os nos pontos chave para desenvolver a sua narrativa.

Depois de ler, Embaixada recorda-me um Joe Abercrombie num cenário mais complexo. Isto porque, tal como nalguns livros de Abercrombie, as personagens raramente são fofinhas, a acção é implacável, e quase não se pára para recuperar. Em relação ao cenário mais complexo, bem, este é o que torna o livro difícil de entrar e de compreender.

Bem, que mudanças poderiam ser feitas à narrativa? Bem, há duas possibilidades, ou reduzir o número de personagens (e consequentemente, retirar parte dos episódios e simplificar o puzzle) ou alongar a narrativa para dois volumes, dando espaço para que algumas referências sejam explicadas ou melhor percepcionadas.

Conclusão

Embaixada é um livro peculiar no cenário de publicação nacional – um livro que pega num estilo que fez algum sucesso na fantasia (sucessão de episódios violentos, com personagens que não têm salvação possível), integrando-o numa construção de mundo pesada. O resultado é uma boa leitura se ultrapassarmos a falta de introdução e alguns saltitanços confusos, mas que poderia tornar-se muito boa se tivesse optado por simplificar o puzzle narrativo.