Seventy-two letters – Ted Chiang

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Quem não se recorda das aulas de biologia onde, estudando-se a ciência da Idade Média, nos era apresentada a visão fantástica que os cientistas da época tinham do que nos rodeava? Geração espontânea e homunculus, o aparecimento de seres vivos era um mistério fantasioso carregado de imaginação onde ratos se geravam do lixo, e os espermatozóides carregavam minúsculas versões dos seres humanos a que haveriam de dar origem.

Este conto parte dos mesmos pressupostos da época para nos apresentar uma realidade onde estes conhecimentos antigos são adequados e aproveitados para o desenvolvimento científico e tecnológico. Aqui caminha-se, também, para uma revolução industrial, mas através de golens animados que conseguirão executar determinadas tarefas mecânicas de acordo com o nome que os anima.

mandrake ritual2

Através da criação de Golens que funcionarão como máquinas, Robert pretende libertar os artesãos para se dedicarem a tarefas mais criativas, deixando as repetitivas para estes seres mais simples, e assim melhorarem o seu estilo de vida. Mas não é essa a interpretação que é feita das suas descobertas que são antes vistas como forma de retirar trabalho aos mais pobres e de os lançar na miséria. Após desentender-se com um empresário importante, acaba por aceitar participar num projecto obscuro de perpetuação da espécie humana que não terá o desenvolvimento esperado.

Original e interessante, Ted Chiang volta a surpreender por aproveitar temas conhecidos para desenvolver realidades diferentes e consistentes. Deconstruindo a realidade medieval, os pressupostos científicos da época são explorados coerentemente com detalhes lógicos que os fazem parecer menos ridículos, conferindo uma rara dimensão à história. De carácter introspectivo, explora não só as nuances científicas, mas também sociais e ideológicas de grande paralelismo com a realidade.

 

homunculus Hartsoecker

Curiosamente, fiquei a pensar no final que livros sobre as crenças científicas medievais existem poucos. Assim de repente lembro-me do livro de Gustav Meyrink que li há alguns anos, do The Golem and The Djinni (que ainda está por ler na estante e por isso desconheço se corresponde à expectativa). Histórias que explorem a teoria dos homunculus (ou outras ideias medievais semelhantes) não me recordo de nenhuma (talvez O Labirinto do Fauno com a raíz de mandrágora).

 

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