Three moments of an explosion – China Miéville

three moments of an explosion

Basta-me ouvir o nome de China Miéville para que as minhas expectativas se tornem elevadíssimas, ou não fosse o autor de um dos meus livros favoritos, Perdido Street Station. Conhecido pelas premissas e desenvolvimentos estranhos, o autor segue essa mesma linha na criação das várias histórias que compõem esta colectânea, Three moments of an explosion: stories.

Mas se este conjunto não desilude na estranheza e originalidade das ideias, fica bastante aquém nalgumas histórias a nível de desenvolvimento. Partindo de boas premissas alguns contos não conseguem transformar-se em algo mais do que a ideia que lhes deu origem.

Um destes contos é Polynia, uma história cuja ideia central é excepcional e que gostaria de ver mais desenvolvida. Na realidade, talvez seja esse o problema – achar que estas realidades poderiam originar histórias mais longas e complexas. Em Polynia massas congeladas aparecem no céu de Londres, gigantes icebergs ocupam parte do céu, sem qualquer contacto com o solo. Passadas as suspeitas de ilusão óptica ou estratégia bélica, as estranhas massas congeladas irão marcar o quotidiano dos habitantes, bem como o seu futuro.

three_moments_of_an_explosion_by_china_mieville

Capa da edição especial limitada da Subterranean Press

The Condition of the new death é um excelente conto – uma história que explora a premissa estranha de forma convicente e completa. Neste conto os mortos apresentam-se sempre com os pés voltados para quem os visualiza. Nem que esteja a ser visualizado por dez pessoas em ângulos diferentes. Esta constante percepção dos mortos acrescenta alguns graus de dificuldade aos rituais funerários – os cadáveres deixam de ser inertes sem que ganhem vida.

Em Watching God barcos vazios atracam constantemente numa localidade. Nunca se visualizam os seus tripulantes, nem nunca ocorre qualquer troca entre o navio e a terra. Os navios simplesmente chegam e partem. Enormes, são uma presença constante não falada dos habitantes, que se recusam a falar deles aos mais novos. Um dia os barcos deixam de aparecer.

the rope is the world

Capa do conto The Rope Is the World

The Rope is the World é outro dos bons contos em que gostaria de ver a ideia explorada numa história mais longa. Nesta realidade as cordas são elevadores espaciais, localizados em pontos estratégicos na terra. Nem todos estes elevadores serão controlados por governos – alguns estarão a cargo de entidades duvidosas responsáveis por comércio paralelo.

Em Dreaded Outcome os psicólogos fazem de tudo para eliminar os elementos que causam instabilidade nos seus pacientes. Eliminar é a palavra chave. Uma história irónica de desenvolvimento algo previsível, mas que, mesmo assim apreciei, pela ideia e pela exploração da personagem – novamente um conto que poderia originar uma série de histórias.

After the festival é das histórias mais surpreendentes que li nos últimos tempos. A ideia é bastante simples mas a forma como a história evolui é bastante surreal. Para não dizer estranha. Na realidade aqui apresentada ocorre anualmente um festival onde alguns escolhidos colocam a sua cabeça dentro da de um animal recentemente morto. Existem, no entanto, alguns, que após o festival não se querem desligar das cabeças em decomposição.

covehithe

Capa de Covehithe

No meio de inusitadas realidades, eis um excelente conto apocalíptico que é muito mais do que o rótulo que acabei de lhe atribuir – Keep. Nesta história a humanidade está em extinção devido a uma estranha doença que não afecta apenas o humano, mas também a realidade que o circunda. Após se moverem cada vez mais devagar, abre-se um enorme buraco no solo que engole o afectado e tudo o que o rodear.

Não falei de todos os contos. Nem da maioria. As histórias que aqui referi foram as que mais me envolveram ou cujas noções mais me entusiasmaram. Algo que se destaca nas obras de China Miéville são as ideias, os conceitos contagiantes que se apresentam de forma inteligente e estranha que são quase sufocadores pela proporção que tomam na nossa mente quando os percepcionamos.

São estes os fortes elementos que costumam caracterizar as obras de China Miéville e que, sob a forma de um conceito por conto se tornam mais controláveis mas acabam por deixar o sentimento de que foi pouco explorado. Detalhando. Nalgumas obras de China Miéville os elementos fantásticos são tantos e tão diversos (não é por acaso que The Perdido Street Station é enquadrado em diversos géneros distintos) que podem gerar algum caos e irregularidade.

Sob a forma de conto as ideias são exploradas isoladamente mas, por vezes, em textos que me parecem demasiado curtos. Vejamos, alguns contos transformados em novelas / noveletas provavelmente não seriam excepcionais, mas satisfazeriam a minha curiosidade e a vontade de ler algo mais sobre a mesma realidade.

Three moments of an explosion é, no entanto, o sítio ideal para explorar alguns conceitos sem necessidade de grandes histórias, construindo concepções surreais e fascinantes. Não que tenha gostado de todos os contos. Alguns apresentam-se num formato demasiado experimental para gostar do conteúdo – provável preguiça da minha parte. Ainda assim, consegue ser um excelente conjunto.

3 pensamentos sobre “Three moments of an explosion – China Miéville

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