
Tendo cá o livro Made Things para ler, achei por bem começar com a pequena história Precious little things que decorre no mesmo Universo e temporalmente antes dos acontecimentos do livro. Confesso que ainda que tenha apreciado o livro, gostei mais da forma como decorre a pequena história, contida, mas apresentada quase como uma pequena lenda de um povo de homúnculos.
Precious little things apresenta-se um mundo de pequenos seres de forma humana, construídos pelos mais diversos materiais. Tendo sido animados por um mágico, parecem depois ter adquirido a capacidade de animar os seus descendentes – história que é transmitida ao longo de gerações. Este conto centra-se numa destas criaturas que constrói a sua filha e que pretende conceder-lhe a possibilidade de ser algo mais naquela comunidade do que um mero trabalhador de madeira. Para tal, irá ascender às prateleiras onde se encontram os poderosos e pedir ouro para terminar a construção, sendo-lhe exigido que deixe a filha para ser educada por eles anos mais tarde. Tal acontecerá e a filha tornar-se-à numa figura de referência para a história daquele povo minúsculo.
O conto não apresenta grandes explicações, mas apresenta episódios que acabam por explicar a premissa do Mundo fantástico – uma preparação para Made Things que tem um tom menos mitológico e apresenta uma narrativa com mais movimento e interacção. Em Made Things conhecemos Coppelia, uma jovem que cresceu em bairros complicados, sendo referenciada pelas autoridades como alguém que potencialmente pode estar envolvido em pequenos roubos e esquemas.
A história começa por nos mostrar o seu pequeno espectáculo de marionetas, sendo que Coppelia tenta passar uma imagem de inocência ao agente que a investiga. Já em segurança percebemos que existe, efectivamente um esquema, onde Coppelia é aliada dos pequenos homúnculos que chegaram recentemente à cidade, e que procuram expandir-se criando novos seres e recolhendo objectos mágicos que lhes permitam animar a próxima geração. O que parecia uma cooperação produtiva para ambos os lados transforma-se quando as actividades e os novos amigos de Coppelia captam o interesse de um barão do crime que pretende usá-los para um golpe contra um dos mais poderosos magos da cidade.
Made Things é uma história relativamente pequena (pouco mais de 200 páginas) que se centra pouco na caracterização e desenvolvimento de personagens. O seu principal foco é a acção, que resulta sobretudo do golpe e das consequências associadas. A entrada na história é rápida e bem conseguida, com pouca (ou mínima) informação sobre a cidade e sobre os homúnculos, havendo muito que se depreende pelas interacções e apresentação de alguns pensamentos das personagens.
O ponto fundamental deste mundo fantástico onde a magia existe são, sem dúvida, os homúnculos. A sua geração é mais explorada no conto, mostrando como viviam antes de se expandirem para o mundo dos humanos. Já no livro, a narrativa é menos centrada nas criaturas e na sua forma de viver, e mais na interacção com os seres humanos e no seu papel no desenrolar da história, mostrando que existem seres humanos que os vão receber com agrado e outros que vão tentar instrumentalizá-los.
Já em relação ao mundo humano, a narrativa explora a forma como alguns centralizam a magia e, consequentemente, a riqueza, usando o seu poder para fazer dos restantes escravos. Coppelia vive nos bairros mais pobres e percebe-se que este facto determina a forma como é vista pelas autoridades bem como as oportunidades a que tem acesso, elemento que o autor vai destacando ao longo da história.
Made things é uma história relativamente directa e compacta, com uma entrada rápida, em que as explicações são mais subentendidas do que expostas. No meu caso, gostei de ter lido o conto primeiro, que possui mais contexto sobre as criaturas e a forma como se organizam. O tom é, de forma geral, bem disposto, sem ser completamente cómico, apesar de apresentar algumas situações mais perigosas. Em suma, é uma leitura agradável, Made Things é uma boa leitura, ainda que tenha gostado menos que Service Model do mesmo autor.