Golems – Alain Delbe

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A figura do Golem é das mais antigas no fantástico, associando-se comummente aos judeus. Apesar da palavra surgir no Talmude em associação com Adão (descrevendo-o como um boneco animado de barro), as histórias em torno desta figura terão ganho especial destaque na época Medieval, sendo várias as histórias de rabinos com golems como servos, indicador de prestígio e sabedoria. O ritual difere entre histórias mas em quase todas a escrita da palavra “verdade” na testa é essencial para que a forma humana ganhe vida. Apagar a primeira letra da palavra transforma-a na palavra “morte” e o golem inactiva-se.

Descrito por vezes como figura estúpida, de compreensão limitada e cumprindo as ordens à letra, noutras, como uma figura calada mas com algumas capacidades cognitivas, tem especial destaque na obra de Gustav Meyrink, Der Golem, que descreve o episódio em que o rabino Bezalel se terá esquecido de desactivar o seu golem e este terá provocado desacatos na cidade de Praga.

É esta obra de Gustav Meyrink que tem especial destaque em Golems de Alain Delbe. A acção passa-se em vários tempos e com várias personagens – se por um lado temos um rapaz que recebeu um livro ilustrado sobre o holocausto que lhe provoca pesadelos, por outro vamos conhecendo a forma como o destino de três jovens se entrelaça na cidade de Praga: um jovem judeu que se encontra na cidade para estudar, uma jovem francesa a fazer tese com os escritores Kafka e Gustav Meyrink e um alemão, espião, que se faz passar por estudioso de religiões.

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O jovem judeu é dono de uma memória prodigiosa mas não é rico, pelo que facilmente acede a um pedido do alemão para lhe ensinar algumas coisas sobre a sua religião. Na mesma pensão, vive a jovem francesa que acabará por ser o grande amor do estudante judeu. Nesta época a ameaça nazi é ainda uma realidade distante, um eco que se propaga pela Europa sem que seja devidamente tomado a sério. Não é pois de estranhar que o judeu acabe por revelar mais do que devia, principalmente à namorada, mostrando-lhe o grande segredo que terá ocupado a sua grande memória: o ritual para animar um Golem.

A história vai ganhando forma através da correspondência da jovem francesa com o tutor, do espião alemão com a base, intercalada com os sonhos do rapaz que pegou no livro ilustrado, e o acompanhar do estudante judeu. As linhas narrativas são demasiadas e em demasiados formatos, quebrando a regra do “show, don’t tell”, sem que acrescentem grande coisa à história. A história prosseguiria sem alterações desconhecendo-se a correspondência do alemão, por exemplo.

A história tem um bom ritmo, introduzindo constantemente novas ideias que lhe vão dando fulgor para virar rapidamente novas páginas. É uma história de leitura acelerada que não nos deixa respirar – e não poderia ser de outra forma. Os episódios encaixam-se sem deixar lugar à imaginação, e as reviravoltas e coincidências são demasiadas, não deixando espaço para mais nada.

Não que seja uma má leitura. A tese da jovem francesa é sobre Kafka e Meyrink, expressando interessantes ideias sobre as obras destes autores, e existe alguma exploração rocambolesca de teorias nazistas. As personagens não nos captam especialmente, mas o ritmo é acelerado, constituindo uma boa leitura para descontrair.

3 pensamentos sobre “Golems – Alain Delbe

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