Facas – Valério Romão

IMG_6520

Facas é um livro minúsculo, não chega a ultrapassar o tamanho da minha mão, mas tal como não devemos julgar os livros pelas capas, também não o devemos fazer pelo tamanho. Apesar de pequeno e curto, é um livro que consegue satisfazer na sua totalidade, entregando, em três contos, histórias fortes e sangrentas que ora descem à decadência total do ser humano, ora ascendem a um espírito irónico mas não menos violento, com pequenos elementos surreais.

Facas na solidão é uma das histórias que mais explora o lado negro do ser humano – o pai aleijado assiste impotente ao adultério cometido diariamente pela esposa, à vista de todos, encontrando no filho um objectivo para a vida degradada e degradante que lhe resta. Talvez pela passividade do pai, talvez pelas actividades indiscretas da mãe, o filho cresce e rapidamente gera a sua própria família, família essa que rapidamente cairá por conta dos actos indescritíveis do filho. Actos que aquele homem acabado e desesperado não quer acreditar que tenham sido cometidos pelo filho e que acabam com todas as razões para viver.

A força decadente deste conto não provém apenas dos actos quotidianos descritos, mas, também, da linguagem bruta, brusca e directa com que tudo nos é narrado – forma que quase nos faz sentir asco pelas personagens, pelas circunstâncias, pelas acções que sabemos existirem mas que aqui são postas a nú.

Em Sete pequenos canivetes apresentam-se sete usos violentos para esses objectos, numa prosa musical de tom ligeiramente perverso, maldoso e horripilante. Homens que aspirando a escultores usam a faca não só como talhantes, mas para fins mais artísticos, homens que usam canivetes para provocar a relaxação total ou para responder à frustração do amor que apenas o dinheiro lhes consegue comprar.

O último conto, Faca seiseiseis, traz-nos uma série de episódios violentos que parecem ocorrer por transmissão entre os sucessivos herdeiros de uma determinada família que recebem uma faca como herança. Predestinados a acontecimentos mirabolantes (e fatais), os elementos desta família acabam sempre esvaídos de sangue, mesmo que tenham as vivências mais pacíficas.

Livro de leitura rápida reúne, sob um tema comum, três histórias bastante diferentes – se no primeiro assistimos à dura realidade de um homem que, não construindo nada para si, vê desabar a sua vivência e as suas perspectivas, num final de puro horror fantástico; o segundo é quase uma sucessão de psicopatas ou demências, maleitas psicológicas que pela faca dão azo às suas taras; enquanto que o terceiro nos apresenta o destino com toda a sua carga irónica.

Facas foi publicado pela editora Companhia das Ilhas.

Outros livros do autor

Um pensamento sobre “Facas – Valério Romão

  1. Pingback: Eventos: Recordar os Esquecidos – Junho de 2016 | Rascunhos

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s