Assim foi: Fórum Fantástico de 2016 – Sugestões de Literatura

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Como já é habitual, a sessão de sugestões de literatura contou com a presença de João Barreiros, Artur Coelho e de moi-même.

Como já é hábito, tendo o Artur Coelho debruçado-se já sobre as suas escolhas no blogue Intergalacticrobot, deixo-vos algumas notas sobre as obras escolhidas e a razão pela qual as selecionei.

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The Loney – Andrew Michael Hurley – Publicado recentemente como O Santuário, The Loney, vencedor do prémio Costa é uma obra que usa a questão do fervor religioso para nos apresentar uma história de horror subtil, onde o suspense em crescendo é percepcionado apenas por uma criança. Usando reminiscências do relacionamento que encontramos em Of Men and Mice de Steinbeck a história centra-se em dois irmãos, tendo o mais velho uma forte deficiência mental que leva a mãe a organizar sucessivas romarias a santuários. Neste ano, o local é uma terra inóspita e pouco acolhedora, onde os habitantes possuem os seus próprios segredos que irão influenciar o milagre aguardado pela mãe zelosa – um milagre pouco puro num ambiente quase claustrofóbico carregado de elementos suspeitos mas invisíveis a olhares fervorosos.

Casos do direito galáctico e outros textos esquecidos

Casos de direito galáctico e outros textos esquecidos – Mário-Henrique Leiria – Sem nenhuma edição recente em circulação, este volume reúne não só a obra em título, mas três outras quase esquecidas. Para mim o ponto alto é efectivamente o que dá nome ao conjunto, uma série de casos legais mirabolantes que usam o absurdo para uma crítica social nem sempre subtil, que podem ter uma leitura simplesmente divertida.

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Emphyrio – Jack Vance – Clássico da ficção científicas, apresenta-nos um mundo distópico cujas regras que prendem a sociedade se baseiam na manutenção de um sistema económico injusto com vista à escravidão dos seus membros. Um rapaz cedo se apercebe das limitações da sociedade onde vive a acaba por encarnar um herói mítico para libertar o seu mundo.

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Facas – Valério Romão – Pequeno livro com três histórias onde as facas possuem o foco, desempenhando, por vezes, papéis metafóricos como objectos assombrados e amaldiçoados outras meros meios para atingir determinado fim. São histórias fortes e sangrentas que apresentam a decadência total do ser humano, por vezes com espírito irónico e com pequenos elementos surreais.

KALLOCAÍNA

Kallocaína – Karin Boye – Apesar de este livro já ter sido aconselhado por diversas vezes por João Barreiros, é de destacar a sua publicação, finalmente, em português, pela Antígona. O livro, publicado originalmente nos anos 40, apresenta uma distopia militarizada em que quase todo o tempo dos indivíduos é ocupado com tarefas que diminuam a probabilidade de traição, e que aumentem a capacidade de vigilância mútua. Neste contexto um homem desenvolve uma droga capaz de fazer qualquer um expressar os seus sentimentos e pensamentos mais íntimos, mesmo aqueles que não admite a si próprio.

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The Atrocity Archives – Charles Stross – Sem ser um clássico do género da ficção científica, decorre num Universo onde as leis da física diferem das do nosso e onde um buraco se pode abrir ao nosso lado e tentáculos nos podem levar para uma realidade paralela dominada por criaturas lovecraftianas que visam sugar a energia de todos os mundos. Para além dos acontecimentos rocambolescos (em que nem a codificação é isenta de perigos) a personagem principal é um agente secreto geek que acaba por agir quando é necessário, e a burocracia nesta sociedade secreta é tão grande que pode levar qualquer um à loucura.

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O Gigante Enterrado – Kazuo Ishiguro – este foi um dos livros mais polémicos dos últimos no género – não pelo seu conteúdo, mas pela resistência do autor em que se enquadre a obra num género especulativo. Centrando-se em um casal idoso num país onde uma névoa de esquecimento se abateu sobre as populações, e apesar da névoa poder ter um valor metafórico, destaca-se pela forma carinhosa como desenvolve o relacionamento do casal que procura, naquele país perdido, o filho.

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O Livro – Zoran Zivkovic – Se o livro fosse capaz de falar directamente connosco expressaria os abusos aos quais é sujeito diariamente por monstros, leitores que não possuem qualquer pudor em abrir demasiado as suas páginas quebrando lombadas ou virando os cantos para marcar passo. Sendo a palavra, na língua original, feminina, toda a descrição atinge um duplo sentido divinal. Após este início o autor aproveita para desconstruir todo o negócio em torno dos livros, com uma caricatura cómica dos autores e das editoras, passando pela atribuição de prémios fabricados propositadamente para fins publicitários.

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Descender – Cruzando referências de Inteligência artificial, com a apresentação de um robot criança, Tim, capaz de empatia que procura a sua família, e de Battlestar Galactica, com o cenário de revolta dos robots, Descender contrasta a magia da inocência com o confronto de interesses que pretendem se aproveitar de Tim e de tudo o que ele simboliza.

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Parque Chas – Mirabolante, imaginativo e divertido de uma forma quase nostálgica e roçando a alucinação, Parque Chas decorre num bairro onde ocorrem fenómenos como num triângulo das Bermudas, com desaparecimento de pessoas e meios de transporte, e alienígenas que se tornam amigos das crianças. A personagem principal é uma projecção do próprio autor que, seguindo uma femme fatale, começa por recolher os episódios estranhos para se embrenhar cada vez mais em aventuras estranhas onde se cruza com figuras ficcionais.

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Wytches – Banda desenhada de horror, apresenta-nos o horror numa terriola do interior. Se pensavam que no campo se encontra um ambiente saudável e honesto, desenganem-se. A Natureza é antiga e tão antiga quanto ela é a maldade materializada, aqui, em seres sobrenaturais, bruxas cegas que vivem no interior de velhas e sombrias árvores, que concedem desejos a troco de sacrifícios.

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Fragmentos da enciclopédia délfica – Recordando A Guerra da Elevação de David Brin, Miguelanxo Prado cria uma série de episódios futuros onde se apresenta a evolução da humanidade ao longo de vários milénios. Com a expansão a outros planetas os seres humanos fazem evoluir chimpanzés e golfinhos, tornando-os uma espécie de escravos, espécies sapientes que são tratadas como espécies inferiores. É neste ambiente futurista, suficientemente alienante e distante que se aproveita para tecer críticas bem posicionadas à nossa sociedade.

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I hate fairyland – Quantas histórias existirão que apresentam como premissa a presença inesperada de uma criança numa terra encantada onde tem de cumprir uma missão para voltar a casa, sã e salva? Assim começa a história, como tantas outras. Mas Gertrude é uma criança que tem pouco jeito para puzzles e rimas, pelo que 27 anos depois de tanta fofura, florzinha, musiquinha e corzinha vira uma psicopata que quer a todo o custo acabar com a tormenta – nem que seja devorando a eito pequenos soldados adocicados!

4 pensamentos sobre “Assim foi: Fórum Fantástico de 2016 – Sugestões de Literatura

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