Assim foi: Lisboacon 2018

Lisboacon é um evento anual que decorre em Lisboa que tem como objectivo promover e divulgar jogos de tabuleiro. Este evento é de entrada livre e dispõe de um extenso espaço onde qualquer pessoa pode conhecer gratuitamente uma série de jogos de tabuleiro. Adicionalmente, pode ainda comprar jogos a um preço mais acessível do que é usual em várias lojas. Este ano o Lisboacon decorreu no pavilhão desportivo da escola José Gomes Ferreira, com o apoio da Junta de Freguesia de Benfica.

Ao chegar ao pavilhão deparamo-nos com uma série de mesas onde aguardam os mais clássicos jogos de tabuleiro, construídos em madeira e num formato maior do que é usual. Depois de passarmos um piso dedicado a RPG’s, e o salão onde decorrem os torneios (na qual estava uma mesa representando o Sci-Fi Lx – evento que irá decorrer no fim de semana de 14 e 15 de Julho) chegámos à componente principal do evento onde existiam dezenas de mesas e dezenas de jogos à disposição.

Como o nosso intuito era experimentar e comprar jogos novos, dirigimo-nos primeiro à loja para escolher potenciais aquisições e, daí, decidirmos que jogos experimentar. Não demorámos muito. Eu tinha visto algumas críticas positivas ao Legends of Andor e o meu companheiro estava de olho no Five Tribes (para além do Scythe, mas esse era a aquisição certa para o dia).

Começámos com o Legends of Andor – e para tal solicitámos a ajuda de uma das pessoas da organização (que, de realçar, estavam sempre prontos para ajudar, entusiasmados e disponíveis).

Percebi, mesmo antes de começarmos a jogar, que o estilo não me interessava – apesar de gostar da componente cooperativa (já cá temos em casa Ilha Proibida, Pandemic, Hanabi, e Floresta Misteriosa) as aventuras são demasiado pré-definidas, as lutas são decididas pelo resultado dos dados e a progressão é feita com base num narrador.

Para quem gosta do género, é um jogo cujas regras vão sendo apresentadas com o desenrolar das etapas, tornando-o de rápida aprendizagem, visualmente apelativo, com uma temática de fantasia medieval / épica e de jogadas rápidas.

Já o jogo seguinte despertou grande interesse e até já foi jogado cá em casa entretanto. Five tribes é um jogo estratégico com alguma variação de jogo para jogo, dá para jogar ao final de um dia de trabalho (com dois jogadores demora um pouco mais de 1h) e possui uma mecânica de movimento semelhante ao Mancala (algo que nos foi dito um conhecido e que rapidamente comprovámos).

O jogo permite o desenvolvimento de diferentes estratégias que podem resultar em pontuações finais semelhantes – mas apenas aquando da contagem dos pontos no final é que temos a certeza da nossa vantagem. Trata-se de um jogo com dinâmica diferente quando jogado a dois ou a quatro jogadores, pois a dois jogadores cada um joga duas vezes no mesmo turno e ao licitar a ordem de jogada pode tentar coordenar as suas duas jogadas.

O jogo que experimentámos de seguida também se tornou uma aquisição. Century recordou-me Splendor, com a aquisição de pedras ao invés de moedas para comprar cartas com pontos mais elevados. Mas no caso de Century as pedras a que temos direito são definidas pelas cartas que vamos conseguindo ao longo do jogo (deck building / card trashing). Ainda não o jogámos a dois, mas a quatro é um jogo bastante interessante.

Aquando da aquisição percebemos que existem duas versões do jogo: uma mais clássica, que foi a que jogámos, com desenhos que aludem às caravanas de especiarias; e uma segunda, mais colorida de temática fantástica, com golems e pedras preciosas. Indecisa entre as duas versões, optei pela do Golem.

Dado gostar de jogos de estratégia escolhi, ainda, o Concordia para experimentar em casa – o jogo encontra-se no lugar 21 do top de jogos de estratégia e tem o Império Romano como tema.

Resultado: 4 novas aquisições num Sábado bem passado com amigos, destacando-se o bom ambiente do evento, a disponibilidade dos jogadores em interagir com os participantes e a quantidade de jogos para empréstimo!

Claro que um evento deste tamanho não passa sem pontos negativos. A entrada para o evento fazia-se na porta voltada para a estação de benfica, sendo que as coordenadas da escola nos dirigem para a porta oposta, que a pé se traduz numa longa rampa inclinada. As indicaçoes para a porta correcta surgiram demasiado em cima do evento e nem todos os participantes as viram. Faltou, também, um bar de apoio (existem algumas restaurantes e centros comerciais, mas para quem se deslocou a pé a distância era excessiva).

Este será, definitivamente, um evento a voltar nos próximos anos … se a carteira aguentar com o estrago!

 

Retrospectiva 2017 – O Rascunhos em Banda desenhada

Numa contagem desatenta percebo que ultrapassei o número de leituras de banda desenhada do ano passado, rondando quase as 200 leituras, algumas (poucas) em francês ou espanhol, mas sobretudo em inglês e português (este registo passou a ser feito no Goodreads). Considero que este foi um grande ano na publicação da banda desenhada em Portugal, com a colecção de Novela Gráfica publicada pela Levoir em parceria com o jornal Público, a lançar grandes obras que, de outra forma, dificilmente veriam a luz da edição portuguesa, e editoras nacionais a lançarem-se, pela primeira vez, na publicação de banda desenhada.

Banda desenhada portuguesa

 

 

 

 

 

 

 

A melhor leitura – O problema de separar em categorias e ter uma só para a banda desenhada portuguesa é ter de comparar obras bastante diferentes em tom e tema. Eis, portanto, as duas melhores leituras do ano em banda desenhada portuguesa : O Elixir da Eterna Juventude de Fernando Dordio e Osvaldo Medina e Comer Beber de Filipe Melo e Juan Cavia. O primeiro destaca-se pelo tom leve com que integra as músicas de Sérgio Godinho numa aventura divertida e o segundo pela qualidade do desenho e pelos temas, mais sérios, abordados nas duas histórias que compõem o volume que, apesar de curtas, conseguem transmitir o peso dos acontecimentos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Menções honrosas – De Rui Lacas, Ermida é uma história curta mas caricata que inspira um enorme simpatia graças à força das expressões e dos modos que as personagens apresentam. Por sua vez, Hanuram de Ricardo Venâncio é visualmente interessante, tanto pela qualidade do desenho como pela composição, centrando-se num guerreiro que ousou desafiar os deuses ao se proclamar invencível. Totalmente diferente dos anteriores, Ermal de Miguel Santos destaca-se pela criação de uma realidade pós-apocalíptica em que o ocidente foge para território africano, resultando em guerras onde as várias facções tentam explorar interesses diferentes. No final o principal defeito é tratar-se de uma história curta. Finalmente, em tom humorístico, Conversas com os putos de Álvaro apresenta vários episódios cómicos que decorreram enquanto dava explicações.

Banda desenhada de ficção científica

A melhor leitura – Valerian de Christin e Mézières – A série publicada pela Asa em parceria com o jornal Público trouxe um conjunto de aventuras com uma qualidade que não esperava. Referida, por diversas vezes, como tendo influenciado Star Wars (ou mais do que influenciado) possui uma grande diversidade de mundos e de espécies alienígenas que se tornam fascinantes pela coerência que possuem. A dupla de agentes, por sua vez, ora viagem no espaço, ora no tempo, e se, nas primeiras aventuras as histórias são simples e quase clichés, sente-se que, com o avançar dos volumes, a série melhora, utilizando as histórias anteriores como alicerces para as seguintes, e ganha uma dimensão avassaladora.

 

 

 

 

 

 

 

Menções honrosas – Pela primeira vez de que me recordo tenho de reclassificar o género de uma série. Autumnlands, que começou por parecer uma série fantástica com elementos extraordinários, assume-se, no segundo volume, como ficção científica, utilizando espécies alienígenas tecnologicamente avançadas para justificar a origem do que se pensava ser magia. Espero que o terceiro volume revele um pouco mais desta dualidade. Por sua vez, Surrogates apresenta um mundo sombrio onde se inventaram corpos artificiais para os quais as pessoas se projectam e com os quais saem à rua, protegendo-se assim de potenciais acidentes e problemas de discriminação (já que o corpo pode não ter qualquer semelhança física com o seu dono). As vantagens são, no entanto, submersas pelas desvantagens, numa sociedade cada vez mais superficial. Outra das grandes descobertas não é uma novidade em termos editoriais, mas trata-se de A feira dos imortais de Bilal, autor do qual apenas conhecia os álbuns mais modernos e só com estes percebi porque tanta gente os repudia.

Banda desenhada de horror

A melhor leitura – Harrow County de Cullen Bunn e Tyler Crook – Depois de um excelente primeiro volume, o segundo mantém o tom negro, e percebemos que a menina com capacidades de bruxa, ao contrário do estereotipo se preocupa com a correcta utilização dos seus poderes, por forma a que exista um equilíbrio de forças. Esta preocupação será exacerbada pela entrada de uma nova personagem, uma irmã gémea que terá os meus poderes mas que não os usa de igual forma.

Banda desenhada fantástica

A melhor leitura – Monstress de Marjorie Liu e Sana TakedaMonstress fascinou pelo aspecto exótico e pela mitologia densa num mundo semelhante ao nosso, com tecnologia semi-medieval, onde existem seres semelhantes aos humanos com características de animais. Estes seres são caçados pelos humanos a mando de feiticeiras que com eles pretendem realizar experiências. Enquanto os supostos monstros são emocionalmente mais humanos do que os humanos e os deuses se escondem, simultaneamente dependentes e poderosos, temos uma espécie inteligente de gatos que se dedica a registar e a passar, de geração em geração, a história deste complexo mundo;

 

 

 

 

 

 

 

Menções honrosas – A famosa série Sandman foi finalmente publicada em Portugal numa parceria entre a Levoir e o jornal Público. Ainda não li todos os volumes mas a série, melancólica, centra-se na figura eterna responsável pelos sonhos cruzando as histórias mitológicas de várias civilizações. O resultado é uma história abismal onde Neil Gaiman explora personagens e mitos de forma envolvente. O Rei Macaco, de Manara e Silverio Piso é uma obra visualmente impressionante, onde a figura divina de um macaco usa o seu carácter irrequieto como explorador e parte do paraíso com o intuito de se tornar imortal e assim poder usufruir eternamente do paraíso. Irónico? Bastante. São comuns os comentários políticos e religiosos, bem como as insinuações fálicas ou a observação do decadente comportamento humano. Finalmente, comecei a série East of West, uma série que cruza tecnologia e fantástico apresentando-nos a demanda dos cavaleiros do apocalipse. A Morte busca o filho que está a ser manipulado para provocar o fim da existência.

Banda desenhada histórica

A melhor leitura – Os trilhos do acaso de Paco Roca – Nesta obra publicada em dois volumes o autor explora a guerra civil espanhola numa perspectiva pouco habitual, seguindo um refugiado espanhol – um homem que se viu obrigado a deixar Espanha num barco e que mesmo assim foi sortudo, considerando que a maioria não foi capaz de embarcar. Este homem é, agora, um velhote que ninguém suspeita ter sido um herói de guerra, lutando na Segunda Guerra Mundial. O que é peculiar não é só a personagem, mas a forma como Paco Roca cria empatia e explora a história mais pelo lado humano do que pela terror da guerra.

Menções honrosas – Também Destino Adiado de Gibrat tem como palco a guerra mas, desta vez, centra-se num jovem que desertou e que, por sorte, foi dado como morto. A partir daqui consegue esconder-se na vila de origem, passando os dias sem poder ser visto, mas numa casa que lhe permite observar o quotidiano de todos.

Antologia

A melhor leituraSilêncio – Das várias antologias de contos de banda desenhada que li este ano a que mais me impressionou foi o segundo volume The Lisbon Studio com o título Silêncio. Neste volume reúne-se o trabalho de vários autores portugueses que pertencem ao mesmo estúdio e se organizaram para entregar histórias curtas centradas no mesmo tema. Este é o segundo volume da série em torno do estúdio, sendo que achei que o trabalho apresentado neste ainda conseguia ser de melhor qualidade do que no primeiro volume. Os temas são diversos bem como o estilo, entregando-se boas histórias curtas.

Menções honrosas – Flight Esta é, no mínimo, uma antologia de banda desenhada competente. Todas transmitem alguma narrativa, ainda que nalgumas se perceba que esse não é o foco (são poucas), e todas são visualmente agradáveis (no mínimo), bastantes com detalhes caricatos que transmitem simpatia ao leitor. Ainda que Flight não devesse ser um tema, mas apenas o título do volume, várias das histórias têm o voo como premissa.

Registo autobiográfico

 

A melhor leitura – Tempos Amargos de Étienne Schréder – O autor apresenta os seus piores momentos de degradação originados pelo vício do vinho. Sem conseguir terminar os estudos pretendidos, pai demasiado cedo e trabalhando numa prisão, Étienne Schréder afunda-se cada vez mais na bebedeira como possibilidade de fuga da vida que leva. Aqui expõe-se (mas tem cuidado em não expor os outros) e demonstra os anos de escuridão.

 

 

 

 

 

 

 

Menções honrosas – Em Histórias do bairro o autor mostra a sua infância e, até, adolescência num bairro problemático de onde é difícil escapar. Cedo os habitantes se envolvem em actividades ilícitas que são tão comuns que quase são tomadas por normais. Mas é a capacidade de desenhar e de querer fazer algo com essa capacidade que lhe concede a porta de saída deste mundo. Em Os Ignorantes dois homens trocam paixões com o autor a mostrar a banda desenhada a um produtor de vinho, e o produtor de vinho a demonstrar as fases e segredos da sua profissão.

Outras

A melhor leitura – NonNonBa de Shigeru Mizuki – Um rapaz endiabrado mas de bom coração entrelaça o sobrenatural em todos os momentos da sua vida, fazendo com que criaturas diferentes sejam vistas como a causa para os eventos que os rodeiam. Este rapaz encontra-se no Japão rural, fazendo com que percepcionemos a pobreza deste ambiente, afastado das maravilhas da cidade. Para além deste retrato, que é um factor de peso para ter gostado tanto deste livro, outro elemento importante é o caricato das personagens que nos envolve e cativa, contrastando com os cenários detalhados, bem como a forma como transforma episódios quase banais em grandes aventuras sobrenaturais.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Menções honrosas Daytripper foi uma excelente surpresa, explorando a vida como uma série de pequenas fugas a eventos terminais numa história inspiradora e envolvente. Já The Fade Out destacou-se pela temática, com a apresentação de um crime nos bastidores do cinema de Hollywood dos anos 40 num ambiente negro e decadente. Da mesma dupla criativa, Criminal segue a vida de uma série de pessoas que retornam, voluntaria ou involuntariamente a vida do crime. Southern Bastards retrata  o interior americano onde o equilíbrio de forças é controlado pelo maior criminoso local que mantém debaixo de olho até a polícia. Num tom totalmente diferente, Jardim de Inverno é um relato delicioso e expressivo que apresenta a existência cinzenta de um rapaz na cidade.

A Melhor leitura – Tony Chu de John Layman e Rob Guillory A série centra-se em poderes associados à comida e, partindo de Tony Chu, um agente enfezado que percepciona a vida de tudo aquilo que come, tem conseguido centrar-se noutras personagens e manter o interesse do leitor com elementos cada vez mais estranhos.

 

 

 

 

 

 

 

Menções honrosas – É impossível não falar de série de banda desenhada e deixar de fora Saga. Ainda que, nos últimos volumes, sinta que faltam elementos inovadores e que a narrativa está “apenas” a colocar as personagens no local que deseja para poder desenrolar um final, continua a ser uma série interessante e mirabolante, com elementos leves e trágicos, uma piada às séries de ficção científica e fantasia mais conhecidas. Finalmente, estou na leitura da série Fables que tem altos e baixos. Os últimos volumes (13 e 14) que li destacam-se visualmente, com belíssimas composições (que merecia uma melhor qualidade do papel em que é impresso, mas essa é a mesma discussão de sempre em relação à banda desenhada da Vertigo).

Outras retrospectivas

Novidade e Evento: Silêncio – TLS Vol. 2

Depois do sucesso do primeiro volume, eis o segundo número de TLS Series, uma série de antologias de banda desenhada dos membros correntes do The Lisbon Studio. O tema do segundo número é Silêncio e as histórias são de diferentes autores:  Darsy Fernandes, Bárbara Lopes, Nuno Rodrigues, Filipe Duarte Pina, Marta Teives, Pedro Vieira de Moura, Paula Bivar de Sousa, Pedro Ribeiro Ferreira, Jorge Coelho, André Oliveira e Ricardo Cabral.

Depois da apresentação, que decorreu no Amadora BD, existirá novo evento de lançamento, agora no Museu Bordalo Pinheiro no dia 06 de Dezembro pelas 18h30. Deixo-vos mais detalhes sobre o evento, sinopse e páginas de Silêncio.

Nota adicional: será oferecido um print inédito, da autoria de Jorge Coelho, assinada pelo autor, a todas as pessoas que comprarem o livro, e será uma boa oportunidade de voltar a apanhar um grande número de membros do the Lisbon Studio reunidos.

São todas as bandas desenhadas silenciosas? Que sons e músicas escutas, quando viras as páginas? Que timbres tem o silêncio no mundo? Quando calar revela mais que dizer?

“No princípio não era o verbo… …A grande e inabalável ausência de ruído, podemos supôr, é a total ausência de percepção, o desmanchar da máquina dos sentidos, a morte. Assim, onde o silêncio está, nós não estamos… …Para nós, aqui na Terra, há o silêncio do medo e o silêncio da paz. Para cada um, o silêncio da sua sorte.”

– do prefácio de JP Simões

 

Resumo de leituras – Novembro de 2017 (7)

237 – One Punch Man Vol.2 – One e Yusuke Murata – O segundo volume pareceu-me menos estruturado em história apresentando o nosso herói no seu usual papel de intervenção minimalista mas eficaz. Enfrentam-se clones que pretendem dominar o mundo e uma seita de carecas com a qual o herói tem receio de ser confundido. Entretanto, o seu ajudante segue a rotina que o poderá levar a adquirir os mesmos poderes.

238 – Ermal – Miguel Santos – A história decorre numa realidade pós-apocalíptica que deixou a Europa inviável à sobrevivência humana. Os europeus recorrem assim às colónias africanas, sendo mais uma força a lutar pelo território, entre tantas outras – algumas que pretendem a evolução da sua civilização;

239 – Tungsténio – Marcello Quintanilha – A realidade dos subúrbios brasileiros é dura e é necessário criar uma série de estratégias de sobrevivência para se poder esquivar a grandes criminosos e polícias corruptos;

240 – Os Vingadores Vol.6 – Continua a guerra entre os super-heróis com origem na capacidade de prever o futuro – quão certas serão estas previsões para que se possa agir em relação a elas é a causa da divergência;

241 – Nova ordem – Fernando Dordio, Osvaldo Medina e Mário Freitas – A nova aventura do Inspector Francos traz-nos uma personagem implacável, capaz de fazer confessar o mais duro dos vilões. Depois de um grande atentado em Portugal, um grupo terrorista resolve raptar agentes de polícia como forma de chantagem;

242 – Os três estigmas de Palmer Eldritch – Philip K. Dick – Philip K. Dick no seu melhor, apresentando uma história onde a realidade se mistura com o efeito das drogas de tal forma que acompanhamos sonhos dentro de sonhos e os episódios que foram sonhados têm um grande efeito na realidade. Joga-se, também, com a capacidade de perspectivar o futuro e de agir em relação a estas perspectivas.

Resumo de leituras – Novembro de 2017 (2)

207 – Valerian Vol.9 – Christin, Mézières -Sem o mundo que lhes deu origem, Valerian e Laureline vão-se envolvendo nos conflitos a que assistem, vivendo pequenas e movimentadas aventuras. É nestas que irão conhecer alguns dos elementos que lhes permitirão fazer uma revolução em volumes mais avançados da história;

208 / 209 – Homem-aranha vol.3 / 4 – Slott, Camuncoli, Buffagni, Bendis e Pichieli – Enquanto o homem-aranha original explora novas geografias mas luta contra vilões já muito conhecidos, Miles Morales, o novo homem-aranha debate-se com as suas responsabilidades quotidianas, enquanto jovem estudante, e tenta justificar, à família, a quebra nas notas;

210 – Apocryphus – Vol.2 – vários autores – Graficamente melhor do que o primeiro volume (se tal era possível), este segundo denota, também, uma melhoria a nível narrativo, explorando a temática Crime;

211 – Vingadores secretos – Vol.35 Coleção oficial de Graphic Novels Marvel – Visualmente este volume é esplendoroso. Explora um conjunto de super-heróis que age de forma mais subtil, realizando pequenas missões secretas com o objectivo de salvar o mundo;

212 – Thor o último Viking – Vol. 33 Coleção oficial de Graphic Novels Marvel – Volume com trechos mais antigos que explicam o surgir de Thor, bem como os anos que passou entre os mortais sem reconhecer os seus poderes. Como mortal procura uma identidade banal que lhe possibilite sobreviver, mas o aparecimento de monstros que procuram eliminá-lo dificulta a sua existência em anonimato.

Resumo de leituras – Outubro de 2017 (8)

183 – Kingsman – Serviço secreto – Mark Millar, Dave Gibbons e Matthew Vaughn – Nem todos os agentes secretos têm uma origem aristocrática. A história apresenta um jovem numa existência problemática, um bairro carregado de vícios e vazio de possibilidades que dita o destino criminoso de quase todos os que nele habitam. Felizmente para este jovem o tio é um grande agente secreto que tentará levar o sobrinho a seguir-lhe as pisadas por um caminho demasiado árduo;

184 – Tony Chu Vol.7 – John Layman e Rob Guillory – O sétimo volume mostra um Chu mais determinado e focado, enquanto os casos exploram as possibilidades dos vários poderes envolvendo comida. Menos centrado em Chu, é um volume nojentamente divertido carregado de peripécias mirabolantes;

185 – Strange Fruit – J.G. Jones e Mark Waid – Uma história que aproveita um período marcante da história americana em que a população afro-americana, apesar de livre, continua a ser vista como propriedade, trabalhadores inferiores que podem ser comandados e dispostos como gado. O período das cheias intensificou as tensões existentes, mas neste volume cria-se um herói que vira a calamidade eminente;

186 – As Bruxas – Stacy Schiff – Uma reconstrução interessante em torno dos acontecimentos que envolveram Salem e o surgir de um sem fim de bruxas no meio de uma comunidade que seria tão religiosa. Tédio, falta de atenção, possibilidade de não trabalhar – as acusações partem de um pequeno grupo de raparigas que se dizem embruxadas e que vão acusando vários elementos da comunidade. Começam com os alvos fáceis e vão aumentando de importância as suas vítimas;

187 – Tio Patinhas 2 – O segundo volume de Tio Patinhas possui uma série de aventuras, diversas, carregando fortes componentes de ciência e mistério, mas nem sempre centradas na personagem que dá nome ao volume;

188 – Um gladiador só morre uma vez – Steven Saylor – Há mais de uma década li todos os livros publicados, em português, da série Sub-Rosa. Com este volume volto à mesma Roma, com uma série de pequenos mistérios, alguns de fácil solução, em que Gordiano se apresenta não só como o Descobridor, mas como um homem responsável e dedicado à família.

Resumo de leituras – Outubro de 2017 (7)

177 – Os vingadores – Vol.3 – Ataque a Pleasant Hill – Contra todas as ordens e todos os acordos encontra-se em vigor um plano para manter os vilões com super-poderes presos – uma limpeza de memória que os coloca numa vila perfeita e onde levam uma vida quase perfeita. Não fosse terem alguns restos da sua anterior personalidade que faz com que alguns se libertem e iniciem um plano de revolta;

178 – Stevenson, le pirate intériour – Follet / Rodolphe – Um livro que espelha a vida do autor mostrando que, desde criança, sucumbia a frequentes febres e doenças, o que o levava a imaginar aventuras de piratas. Enquanto adulto dedica-se à escrita e torna-se um autor bem sucedido;

179 – Tio Patinhas vol. 1 – O primeiro volume possui histórias engraçadas, algumas das quais pouco centradas no Patinhas;

180 – Rowans Run – Mike Carey, Mike Perkins e Andy Troy – Uma jovem decide ter umas férias diferentes, trocando o seu minúsculo apartamento por uma casa inglesa, carregada de história. Entre sombras e aparições a jovem apercebe-se que a casa tem muito mais história do que seria de supor e começa a investigar o que ocorre;

181 – Harrow county Vol.2 – Cullen Bunn e Tyler Crook – O segundo volume volta ao ambiente rural onde os monstros são possíveis, acrescentando uma irmã gémea que terá crescido na cidade. Estas mudanças terão impacto na forma como são geridos os monstros e contra todas as probabilidades, estes mostram-se mais correctos que alguns humanos;

182 – Hanuram, o Dourado – Ricardo Venâncio – Visualmente interessante, centra-se num homem que ousou comparar-se aos deuses. Claro que a vingança por tal ousadia não se faz esperar e, episódio atrás de episódio, luta contra monstros improváveis.

Resumo de leituras – Outubro de 2017 (6)

173 – The Overneath – Peter Beagle – Livro de contos de um mestre! Com algumas histórias excelentes e outras menos envolventes, não há que negar a capacidade de escrita do autor. Mesmo quando os contos são menos interessantes revelam-se bem construídos e coesos;

174 – Histórias de um rapaz mau – Thomas Bailey Aldrich – A infância e a adolescência do autor enquanto rapaz endiabrado e dado para as partidas e aventuras sem medir as consequências;

175 / 176 – Os trilhos do acaso – parte 1 e 2 – Paco Roca – Incidindo sobre os refugiados da Guerra Civil Espanhola, Os trilhos do acaso é um relato muito humano em torno de um refugiado que se tornou soldado e que acabou entre os franceses a guerrear contra Hitler. Actualmente é um velhote, um herói anónimo do qual ninguém sabe a história.

Assim foi: Fórum Fantástico – as escolhas do ano

 

A minha selecção era um pouco mais alargada, abrangendo obras portuguesas como Lovesenda, Anjos e As nuvens de Hamburgo. Havendo sobreposição com escolhas de outras pessoas (e sabendo que iriam ser muito bem tratadas) retirei da minha secção.

Eis ligações para opiniões mais detalhadas dos livros escolhidos. Infelizmente o João Barreiros não tem blogue próprio (apesar de ter começado a transcrever algumas opiniões para um blogue próprio que deixei de ter tempo de manter).

 

Assim foi: Fórum Fantástico 2017

As diferenças

O Fórum Fantástico cresceu, este ano, de forma bastante positiva! Por um lado notou-se a forte aposta em workshops, o que possibilitou integrar camadas mais jovens e manter um programa mais dinâmico. A par com a usual (e fantástica) impressão a 3D organizada pelo Artur Coelho, houve espaço para desenvolver a imaginação dos mais pequenos, construir Zepellins e armaduras, ou para aprender um pouco mais de ilustração com Ricardo Venâncio.

Por outro, é de realçar a maior ocupação do espaço da Biblioteca Orlando Ribeiro que deu nova vida ao espaço – era impossível não reparar na tenda que ocupava parte do pátio com uma pequena feira do livro, onde se viam exemplares de livros de ficção científica e fantasia, sem faltarem os da autoria de Mike Carey, o escritor convidado deste ano. Nesta pequena feira do livro exterior encontravam-se a Leituria e a Dr. Kartoon.

Mas não foi só com a feira do livro que houve uma maior ocupação do espaço. O bom tempo permitiu a existência de bancas de produtos diversos, com especial destaque para o Steampunk (ou não estivesse a decorrer a EuroSteamCon integrada no Fórum Fantástico), bem como de mesas e cadeiras no exterior que permitiram usufruir do bom tempo. O terraço, bem como outras salas da biblioteca foram ocupadas, permitindo a apresentação de jogos de tabuleiro (com participação da Morapiaf) e a exibição de pranchas de Ricardo Venâncio.

E as diferenças não acabaram por aqui – a existência de um bar aberto durante todo o evento facilitou a permanência no Fórum Fantástico pois em anos anteriores era usual ter-se de deixar o recinto para comer alguma coisa. O menu, fantástico, possuía várias alusões ao evento e a comida fornecida era de boa qualidade (pela Cacaoati).

Mike e Linda Carey

Mike Carey produziu mais de 200 comics, vários livros e guiões para cinema. Com a adaptação para cinema de The Girl with all the gifts tem-se tornado cada vez mais requisitado. Por sua vez, Linda Carey escreveu também alguns livros (alguns sob pseudónimo). O destaque para a imensa obra, principalmente a de Mike Carey, serve para contrastar com o espírito que ambos demonstraram, sem prepotências ou projecções de importância, atenciosos e simpáticos durante todo o evento.

Na sexta-feira Mike Carey, conjuntamente com Filipe Melo e José Hartvig de Freitas, falou da larga experiência na produção de comics, da forma como trabalha com diversos desenhadores e da sua própria evolução e adaptação. Destacou-se a produção da série Unwritten, ideia que surgiu em cooperação com Peter Gross, com o qual já se habituou a desenhar. Foi uma palestra interessante e bem disposta.

No Sábado decorreu a conversa com ambos, Mike e Linda Carey, moderada por Rogério Ribeiro, mais voltada para os restantes livros (fora do formato da banda desenhada) onde se falou intensivamente do The Girl with all the gifts, que foi escrito em simultâneo com a adaptação, para cinema, da mesma história. Ambos os autores demonstraram uma queda para pequenos elementos subversivos nas suas histórias.

As restantes palestras de sexta

E com esta nomenclatura não pretendia referir menor prestígio das restantes palestras, mas sim destacar as que envolveram o autor convidado.

15:30 – Sessão Oficial de Abertura do Fórum Fantástico 2017

O Fórum iniciou-se na sexta (para mim, que não pude ir aos worksops) com uma sessão de apresentação de João Morales e Rogério Ribeiro onde expuseram algumas das diferenças deste ano e destacaram algumas sessões e workshops.

16:00 – Sessão “A Ficção Científica: Espelho de ansiedades políticas e pessoais”, com Jorge Martins Rosa, Maria do Rosário Monteiro, Daniel Cardoso e Aline Ferreira

Nesta sessão referiram-se várias obras e respectivas projecções das ansiedades sociais, não só em relação à evolução tecnológica e respectiva perda dos papéis tradicionais (com especial referência à mulher grávida e aos úteros artificiais), como a novos modelos sociais.

16:45 – Sessão “O lugar do Fantástico na Arte Contemporânea”, com Carlos Vidal, Henrique Costa e Opiarte – Núcleo de Ilustração e BD da FBAUL

A sessão apresentou a Opiarte enquanto espaço que permite, a alguns artistas, explorarem a vertente fantástica e de ficção científica nos seus trabalhos, espaço que visou responder a uma necessidade sentida pelos alunos da faculdade. Durante a sessão mostraram-se trabalhos produzidos neste núcleo, alguns dos quais se destacam pela qualidade.

17:45 – Sessão “Narrativa em Videojogos”, com Nelson Zagalo, Ricardo Correia e João Campos

(Cheguei no final)

As restantes palestras de sábado

14:30 – Sessão “Identidades autorais”, com Ana Luz, Joel Gomes e Pedro Cipriano

Os autores aproveitaram o espaço para falar sobre o seu percurso enquanto escritores, desde influências a desenvolvimento de método (destacando-se a referência de Ana Luz ao conto O Teste de João Barreiros), mostrando os livros em que já participaram, bem como os projectos futuros em que se encontram envolvidos.

16:00 – Lançamento “Almanaque Steampunk” (Editorial Divergência)

Cada EuroSteamCon costuma ser acompanhada pela publicação de um Almanaque Steampunk. O deste ano foi produzido em tempo recordo com a colaboração da Editorial Divergência. Ainda não tive oportunidade de ler, mas a publicação é curiosa, bastante atractiva visualmente, com conteúdos diversos e que promete bastante diversão para o leitor.

17:45 – Sessão “Prémio Adamastor”, com João Barreiros e Luís Filipe Silva

O prémio Adamastor este ano foi atribuído a João Barreiros e Luís Filipe Silva, dois dos poucos autores de ficção científica portuguesa que se têm destacado na divulgação do género dentro e fora do país. De realçar as várias antologias que João Barreiros organizou recentemente, bem como as colecções que organizou enquanto editor. Por seu lado, Luís Filipe Silva tem participado em diversas Con’s onde fala da ficção especulativa portuguesa, divulgando o que se fez em Portugal há várias décadas e o que se continua fazendo.

18:00 – Sessão “Dormir com Lisboa”, com Fausta Cardoso Pereira

Premiado e publicado na Galiza pela Urco Editora, Dormir com Lisboa é um romance de ficção especulativa que decorre na capital portuguesa, partindo da premissa de desaparecimento injustificável de várias pessoas. A passagem lida por João Morales denota um humor peculiar, com caricaturas de personagens e situações insólitas.

18:30 – Lançamento “Apocryphus #2”, com Miguel Jorge

Este projecto de banda desenhada português apresentou, no primeiro volume, uma qualidade gráfica excepcional, com elevado cuidado no tipo de papel utilizado e uma selecção cuidada de autores. À semelhança do primeiro volume, também o segundo foi publicado no Fórum, com a presença de tantos autores que por pouco transbordavam do palco.

Restantes palestras de Domingo

Infelizmente, Domingo apenas pude assistir à palestra do João Morales, Novas Metamorfoses Musicais, para além de participar em As Escolhas do ano com João Barreiros e Artur Coelho (sobre a qual dedicarei uma entrada específica para publicar as escolhas de cada um, como é usual).

A sessão de João Morales demonstrou o usual bom humor, com óptimas escolhas musicais onde se cruzam estilos e épocas, novas conjugações de musicas conhecidas em que destaco as seguintes:

(Venus in Furs: Versão portuguesa em Uma Outra História)

No final, há a destacar que o Fórum Fantástico é um evento TOTALMENTE gratuito, onde, todos os anos, várias pessoas se organizam para proporcionar, ao público, três dias de extrema diversão geek!

Eventos: Fórum Fantástico – segundo dia

O programa de Sábado é bastante marcado pela vertente Steampunk (não estivesse a decorrer o EuroSteamCon no mesmo espaço) destacando-se os workshops de criação de Zeppelins ou de criação de armaduras e props, bem como duelos de chá e o lançamento do Almanaque Steampunk deste ano.

A parte da tarde é, ainda, marcada pela conversa I See Dead People entre Mike Carey e Linda Carey, bem como pelo lançamento do segundo volume de Apocryphus, dedicado ao crime – um livro com excelente aspecto visual que ainda não tive oportunidade de ler, mas que espero poder detalhar nos próximos dias. Estou, também, curiosa, quanto à apresentação de Dormir com Lisboa de Fausta Cardoso Pereira. Aproveito, para vos deixar algumas páginas de Apocryphus:

 

 

A Biblioteca à noite – Alberto Manguel

Livros sobre livros. E que tal livros sobre bibliotecas? Partindo da sua própria biblioteca que está albergada num local com uma fascinante história própria, Alberto Manguel discorre sobre várias bibliotecas, seja do ponto de vista de conteúdo, organização ou democratização.

Claro que não é possível falar de bibliotecas sem falar das desaparecidas e míticas, como a de Alexandria. Mas como esta, existem outras, reunidas em determinados locais para simplesmente serem extintas, de repente, por algum conservador de ideias que vê, nos livros, uma afronta e um perigo.

Utilizadas para manipulação política (o autor descreve casos em que a disponibilização ou maior destaque foi dado a determinadas publicações), como estrutura diferenciadora de classes (numa altura em que o acesso a livros poderia aprofundar diferenças culturais) ou como monumento de prestígio (que homens ricos deixavam não porque valorizassem a cultura, mas porque desejavam ter o seu nome realçado) as bibliotecas, com os respectivos livros, têm marcado culturas e gerações.

Organizadas de determinadas formas (alguns métodos convertem-se em autênticas dores de cabeça), mantendo, por vezes, a nomenclatura dos donos originais, as bibliotecas privadas reflectem os seus donos, pela diversidade e composição das obras, e representam fisicamente associações de ideias:

Os nossos livros decorrem de outros livros, que os mudam ou enriquecem, que lhes atribuem uma cronologia diferente da dos dicionários literários.

A Biblioteca à noite, publicado em Portugal pela Tinta da China é uma leitura fascinante para quem gosta de livros e bibliotecas – carregado de curiosidades e sem se conter em fazer observações políticas e históricas sobre o acesso à cultura. Cruzando diferenças culturais e históricas com a actualidade ocidental, realça o mistério da biblioteca à noite, obscura, carregando todas as possibilidades e todos os livros, os lidos e os não lidos.

K.O. em Telavive – Asaf Hanuka

O autor nascido em Israel apresenta aqui uma série de episódios quotidianos, caseiros e pessoais onde espelha as preocupações mais comuns, os seus medos, obsessões e receios, bem como os altos e baixos de um relacionamento e do convívio familiar. De prancha em prancha vamos assistindo a cenas cómicas, deprimentes ou simplesmente rotineiras e por isso familiares e envolventes.

Entre despesas que sobem rapidamente e parecem fugir ao controlo do autor e um casamento com encontros e desencontros que prossegue entre travagens e arranques, o autor comete pequenos exageros para explorar a situação, conferindo, por vezes um tom caricato ao desenho.

Com uma grande capacidade para expressar emoções e apresentar, de forma resumida, pequenos episódios familiares onde se iniciam e se esmagam grandes perspectivas ou grandes sonhos, em K. O. Telavive apresenta-se a luta constante do autor para conciliar todos os aspectos da sua vida , sentindo-se frequentemente cansado e frustrado.

Excelente caricatura do quotidiano com algumas notas culturais (devido às diferentes origens étnicas do casal) K. O. Telavive é um dos volumes da mais recente colecção de Novela Gráfica que está a ser lançada pela Levoir em parceria com o jornal Público.

 

Batman: Uma história verdadeira – Paul Dini e Eduardo Risso

Esta não é propriamente uma história de super-heróis. Poderia dizer que é uma história de desilusão e confronto com a realidade. Poderia dizer que é uma história sobre o ultrapassar de momentos difíceis e de transformar um episódio violento  ou uma história em que se compara a coragem de um homem comum, sem poderes, à coragem de um super-herói invencível.

Neste livro apresenta-se um homem que desde pequeno vivia envolto em bonecos como forma de se alienar do que lhe desagradava no que o rodeava. Pouco sociável, tentou passar despercebido durante todos os anos de escola (muitas vezes sem sucesso perante os alunos maiores e mais violentos). Mas tudo isto foi quase esquecido quando, contra todas as hipóteses, conseguiu trabalhar no ramo dos desenhos.

Tudo foi posto em causa no dia em que foi violentamente assaltado e confrontado com a dura realidade de sobreviver a este episódio. Perante a sua própria fraqueza e impossibilidade em lidar com os assaltantes, a imaginação que alimentava os bonecos do seu dia a dia esfuma-se e começa a ter problemas criativos.

Centrando-se na relação do autor com os bonecos e na forma como se habituou a abstrair da realidade através da imaginação, Batman uma história verdadeira é um livro pouco usual sobre super heróis que nos apresenta o contraste com a realidade violenta, a falha que origina a quebra do mundo do desenhador e como este supera o episódio para voltar a produzir criativamente.

Este livro foi publicado pela Levoir na colecção de Novela Gráfica que é lançada em conjunto com o jornal Público.

Velvet Vol.2 – Brubaker, Epting e Breitweiser

“E se Miss Moneypenny fosse uma espia mil vezes mais perigosa que James Bond?” O segundo volume continua no mesmo registo, apresentando uma espia de grandes capacidades que, por ser mulher e ter assumido temporariamente o papel de secretária, é menosprezada por quem a persegue.

Até agora Velvet tem-se aproveitado do estereotipo com sucesso, escapando facilmente a quem a persegue, mas é neste volume que encontra alguém ao mesmo nível que lhe consegue causar alguns problemas. Entre fugas inesperadas e cedências indevidas à empatia, Velvet continua a tentar descobrir que teias políticas causaram a morte de um colega.

De ambiente negro, este volume explora um pouco mais o passado de Velvet bem como as razões que a terão levado a parar as actividades de espionagem e a optar por prosseguir atrás de uma secretária, onde ninguém desconfiou das suas imensas capacidades. Inteligente e perspicaz, mas também capaz de improvisar nas situações mais imprevistas, Velvet é uma personagem densa e complexa que surpreende pela positiva na sucessão de episódios de acção, tanto pela capacidade física como pela capacidade intelectual.

Apesar de apresentar alguns planos gerais onde se dá espaço à paisagem, são sobretudo os primeiros planos que dão foco às expressões e que realçam a tensão nos diálogos. Velvet possui bons momentos de acção, mas estes não ocupam a maioria das páginas, até porque mais de metade do trabalho de um bom espião passa por dissimulação e pesquisa – componentes onde a leitura corporal e facial são essenciais.

A série Velvet foi publicada em Portugal pela G Floy.

Outros volumes da série

Resumo de leituras – Junho de 2017 (3)

77 – História Natural da Estupidez – Paul Tabori – Um divertido compêndio de estupidez humana que vai focando diversos aspectos sociais ou económicos, referindo alquimistas, leis, mitologias ou questões pseudo-científicas (com especial destaque para os medicamentos usados na idade média, em que era mais provável morrer da cura do que da doença);

78 – Manual de Etiqueta – José Vilhena – O terceiro livro de Vilhena pela E-Primateur é uma deliciosa compilação de normas subversivas de etiqueta acompanhadas por tiradas irónicas que conseguem estar tão actuais como na época em que foram escritas;

79 – Farmer in the sky – Robert A. Heinlein – Livro de ficção científica direccionado para um público mais juvenil que se centra na colonização de Ganimedes. Com algumas imprecisões científicas, é uma história simples mas suficientemente envolvente para conseguir cumprir o papel de entretenimento;

80 – Tarnsman of Gor – John Norman – Na mesma onda que histórias como John Carter, traz uma aventura num mundo de detalhes quase medievais em tecnologia (ainda que se perceba que existe tecnologia muito avançada mas que é detida apenas pela obscura facção religiosa), onde as cidades são autónomas e rivalizam entre si.

Resumo de Leituras: Maio de 2017 (2)

65 – O Incrível Hulk – Part 1 – Greg Pak, Carlo Pagulayan e Aaron Lopresti – O primeiro volume desta aventura coloca o herói num planeta carregado de estranhas espécies alienígenas que farão parte dos mais espectaculares cenários de batalha. A narrativa, apesar de possuir pontos cliché, consegue surpreender nalguns pontos com a progressão no segundo volume;

66 – Monstress – Vol.1 – Marjorie Liu e Sana Takeda – Fascinante, fabuloso, negro e imenso. Assim é o mundo de Monstress, de forte influência oriental onde os gatos possuem um papel preponderante;

67 – Herland – Charlotte Perkins Gilman – Um grupo de exploradores procura uma sociedade composta apenas por mulheres esperando encontrar a mais primitiva das combinações. O que encontra é a irmandade perfeita, evoluída mental e tecnologicamente com uma progressão estável – um choque para estes homens habituados a ver as mulheres como potes, belos, indefesos e utilizáveis;

68 – Apenas um peregrino – Garth Ennis e Carlos Ezquerra – Uma história violenta num mundo pós-apocalítptico carregado de salteadores e monstros, onde um homem, justiceiro, religioso mas obscuro, se coloca como bom samaritano, apesar da sua postura violenta e assustadora.

A Feira dos Imortais – Enki Bilal

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Já muito me tinham falado de uma época anterior de Enki Bilal onde os desenhos eram mais definidos e fantásticos, onde as histórias eram mais imaginativas e a totalidade mais fascinante. Conhecendo apenas os albums mais recentes (e gostando do estilo inóspito, pós-apocalíptico, desesperado e nostálgico) o que encontrei nesta dupla de histórias foi um tom ainda mais estranho e alienígena, uma falta de esperança de ironia forte onde o deserto está dentro dos homens e não no espaço que ocupam.

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Em A Feira dos Imortais os alienígenas são semelhantes a deuses egípcios, em naves que se locomovem a energia petrolífera, um método ultrapassado e que é desdenhado por alguns destes seres de cabeça animal. A postura destes deuses assemelha-se à dos deuses gregos, usando os seres humanos a seu belo prazer para os seus próprio fins.

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Hórus insurge-se contra os restantes deuses e para levar a cabo um plano de troca de poder no governo humano, um caminho que poderá levar ao fim de uma ditadura, resolve devolver à terra um humano exilado numa cápsula com o seu robot, também condenado. Estando em baixas temperaturas o regresso à terra não decorre sem incidentes – ainda demasiado gelado para acordar, o embater de uma perna provoca a sua quebra como se de gelo se tratasse deixando o homem a esvair-se lentamente em sangue.

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O trauma de acordar não se fica por aqui. Para além da presença estranha de um alienígena todo poderoso que resolve apropriar-se da sua mente, descobre que a amada morreu há muito a dar à luz o filho de ambos e que pouco reconhece do mundo que deixou. Possuído pela entidade semi-divina atinge o estatuto de herói concretizando parte do plano da entidade para se insurgir contra o líder humano actual.

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Imaginativo, carregado de detalhes mirabolantes e alusões religiosas, contendo paralelismo com mitologias várias e retratando uma sociedade distópica onde a sociedade se divide entre os ricos e os outros e as mulheres são mantidas em locais fechados onde cumprem o seu papel reprodutor, A Feira dos Imortais apresenta um Bilal carregado de ideias e de detalhes onde não falha a ironia do destino.

Este volume duplo foi publicado numa parceria da Asa com o jornal Público.