Assim foi: Contacto 2019

O Contacto, organizado pela Imaginauta, começou em 2018 no Palácio Baldaya em Benfica. Dedicado à ficção científica e fantástico, é um evento que se destaca por ter, para além de palestras e um espaço dedicado à literatura, muitas outras actividades apropriadas para todas as idades – lutas de sabres de luz, aulas de magia influenciadas pelo mundo do Harry Potter, exposições, jogos de tabuleiro, steampunk e muito mais.

Lançamentos

A minha perspectiva do evento é mais literária, destacando os eventos de lançamento que foram decorrendo. O primeiro a que assisti foi o lançamento do novo livro em português de Bruno Martins Soares, As Crónicas de Byllard Iddo – um lançamento em que o autor falou do livro e do interesse nos mundos que cria.

Já no Sábado, ainda presenciar um pouco do lançamento do livro de Nuno Duarte, O outro lado de Z, onde o autor Nuno Duarte falou do mundo fantástico de este livro e de outros. Seguiu-se o lançamento da antologia Winepunk onde participei (no lançamento, não na antologia). A antologia destaca-se por ser uma realidade alternativa que tem por base a história de Portugal, mais propriamente o Reino do Norte que, no meio das convulsões, surgiu no Norte de Portugal mas que apenas durou 3 semanas. E se tivesse durado 3 anos? Após ter iniciado o lançamento, o Rogério Ribeiro falou um pouco da forma como geraram a base antes de enviarem o desafio aos autores, Pedro Cipriano falou da produção que se seguiu por parte da editora, e os dois autores presentes (João Barreiros e João Ventura) falaram do seu processo criativo neste mundo fictício.

O último lançamento a que pude assistir foi o lançamento de Amadis de Gaula por Nuno Júdice, em que o autor falou da incerteza da autoria do livro, da forma como influenciou e é referido em obras posteriores, mostrando um exemplar com vários séculos de existência.

Banda desenhada

Para além do lançamento de O outro lado de Z, o Contacto reservou espaço na agenda para que pudessemos conhecer um pouco melhor outros autores de banda desenhada, como Joana Afonso, Henrique Gandum, Fábio Veras e Luís Zhang (autores de Filhos do Rato).

Ainda, no Lagar (zona central do edifício) estiveram alguns artistas a projectar enquanto desenhavam: FIL e Miguel Santos (da Associação Tentáculo) bem como Diogo Mané.

Ponto de encontro

Este tipo de eventos fantásticos e de ficção científica costumam ser ponto de encontro entre autores e editores, levando à criação de vários projectos. Neste caso o evento ajudou nestes encontros, disponibilizando uma sala para estes pudessem decorrer de forma mais oficial. Destacam-se dois encontros, um para a geração de um portal português de ficção científica e fantástico e outro para o encontro de autores de ficção científica e fantástico onde vários autores trocaram experiências.

Outros detalhes

Durante o evento decorreu uma taberna medieval e uma feira do livro que apresentava bancas das mais conhecidas editoras de ficção científica e fantástico – desde a Saída de Emergência com a colecção Bang!, à Europa-América com a colecção de livros de bolso de ficção científica, passando pela Imaginauta e pela Editorial Divergência entre outras.

Para além das exposições encontrávamos salas temáticas: Steampunk, Harry Potter e Star Wars, mais voltadas para o público jovem; bem como uma pequena oferta de jogos de tabuleiro.

Resumo de Leituras: Fevereiro de 2019 (2)

13 – Y: O Último Homem – Vol. 7 – Bonecas de Papel – Yorick chega finalmente à Austrália e descobre pistas da sua namorada – mas esta há muito que deixou o continente e foi para Paris. Paralelamente, uma jornalista tenta divulgar a existência de Yorick e não olha a fins para o fazer;

14 – Injection – Vol.3 – Ellis, Shalvey e Bellaire – Um local histórico torna-se o cenário de um horrendo crime revelando-se, também, um local de grandes forças sobrenaturais. Se, no volume anterior, se tinha investido na lógica para perceber a IA, neste volume seguem-se caminhos menos óbvios mas mais macabros;

15 – Jessica Jones – Vol.1 – Sem Limites – Bendis, Gaydos e Hollingsworth – A heroína sai da prisão e é envolvida por uma organização que pretende acabar com os super heróis – precisando, para tal, de Jessica para conhecer os seus segredos;

16 – Y: O Último Homem – Vol. 8 – Dragões de Kimono – Neste oitavo volume a busca pelo macaco capuchinho de Yorick leva-os ao Japão, onde encontram uma máfia conduzida por uma cantora pop americana!

Monstress vol.3 – Marjorie Liu e Sana Takeda

Desde o primeiro volume desta série que nos habituámos a uma elevada qualidade gráfica – qualidade esta que se tem mantido e que nos remete para um mundo fantástico onde deuses antigos moldaram a existência de uma série de raças inteligentes, uma delas denominada por Arcânicos, seres humanóides com características mais ou menos evidentes de outros animais, que são perseguidos pelos humanos pelos seus poderes mágicos.

Maika é uma arcánica, mas uma arcánica pouco usual. Unida a um deus antigo, é lentamente consumida quando usa os poderes do deus, um monstro esfomeado que então ocupa o seu corpo e devora todos os que apanhar para repor energia. Para além do monstro que a devora, Maika descende de uma linhagem peculiar de quem pouco se sabe inicialmente, mas sobre a qual se vão descobrindo detalhes inquietantes ao longo da história.

Após a exploração de uma ilha carregada de más surpresas e poderes obscuros, Maika e os amigos têm agora de fugir de quem os pretende prender e usar – mas conseguem exílio numa cidade que reserva, também, alguns segredos poderosos. Enquanto Maika é chamada a ajudar na manutenção do escudo da cidade, uma das suas pequenas amigas descobre refugiados que são como ela e decide, também ela, ajudar – mas é demasiado inocente e acaba por cair em enredos que não compreende totalmente.

Se os volumes anteriores apresentam a fuga das personagens principais por terra e mar, evitando confrontos, neste volume tal torna-se inevitável, resultando em lutas violentas e esmagadoras. Os deuses mantém parte dos seus grandes poderes e soltam-nos sem dó nem piedade por aqueles que podem atingir.

É, também neste volume, que descobrimos que algumas das personagens têm uma agenda muito própria, como agentes de diferentes facções com interesses distintos. Estas personagens reportam a poderes diferentes mas terão de escolher entre a amizade e a sua verdadeira identidade – se algumas o fazem abertamente, com jogos duplos e conversas subtis convidando à desconfiança, outras revelam-se de forma surpreendente.

Até este volume a história tem vindo a ganhar tensão – a maioria dos diálogos são indirectos e subtis, mostrando existirem vontades obscuras e pensamentos não revelados. Ainda que algumas das interacções assim se mantenham (deixando nas entrelinhas ameaças, consequências ou interesses) alguma desta tensão é descarregada em grandes episódios de luta divina.

Monstress continua a ser uma série visualmente arrebatadora, distinguindo-se pelos elementos asiáticos que conferem, às personagens, algumas características de Anime. Os deuses são verdadeiramente alienígenas e incompreensíveis, os poderes são simultaneamente fantásticos e horrorosos e a inocência convive com o horror da guerra e da morte por racismo.

Se, no primeiro volume, a história permitia tecer paralelismos com perseguição de humanos pela sua cor ou origem (ao apresentar séries sapientes e sensíveis que são desconsideradas como se fossem animais), neste volume toca-se levemente no tema dos refugiados.

A série tem sido publicada em Portugal pela Saída de Emergência e este terceiro volume encontra-se agendado para dia 08 de Fevereiro.

Retrospectiva 2018 – O Rascunhos

2018 no Rascunhos

Ultrapassando as 82 000 visualizações, este ano trouxe grandes novidades. Algumas programadas, outras inesperadas ainda que, por vários motivos pessoais, o número de leituras e de artigos tenha sido menor do que em 2017 (no caso dos livros lidos, foram 220 contra os 270 do ano anterior). Se tenho por objectivo a médio prazo aumentar a leitura noutros idiomas que não o inglês ou o português, ainda não foi este ano que o consegui.

Tal como tem sido habitual nota-se uma grande procura pelas obras que estão no Plano Nacional de Leitura mas eis um destaque para as entradas de 2018 para tiveram maior número de visualizações: A maldição de Hill House de Shirley Jackson, O Corpo dela e Outras Partes de Carmen Maria Machado, e Borne de Jeff Vandermeer. Na banda desenhada, O Ateneu de Marcello Quintanilha,  Beowulf de Santiago Garcia e David Rubín. e The Fade Out de Ed Brubaker e Sean Phillips foram os mais vistos. De destacar, também, Comer / Beber de Filipe Melo e Juan Cavia, entrada que foi publicada no final de 2017 mas que atingiu o topo de visualizações em 2018.

Este ano o Rascunhos cresceu em diversas direcções:

– Programa na Voz Online (rádio);

– Participação em eventos nacionais;

– Jogos de Tabuleiro.

O programa na Rádio Voz Online contou com 23 episódios, (também disponíveis na Mixcloud) onde aconselhei leituras e jogos de tabuleiro, ou onde entrevistei autores, editores e organizadores de eventos, centrando-me sobretudo na banda desenhada e na ficção científica.

As participações em eventos aumentaram este ano. A participação no Fórum Fantástico para as Leituras do Ano repetiu-se e ainda estive numa mesa sobre Podcasts literários. No Festival Bang! estive com a Inês Botelho a falar sobre o papel da mulher no fantástico e no Sci-fi LX falei de naves na ficção científica portuguesa e de robots literários com João Barreiros. No Literal (em Alenquer) falámos do futuro da ficção científica em Portugal. Na área da banda desenhada estive à conversa com Daniel Henriques na Comic Con e apresentei o Rascunhos na Tertúlia BD de Lisboa.

Para além de participar novamente como júri no concurso de mini conto da Saída de Emergência com a FNAC, participei no júri para os Galardões Comic Con. Este ano viu ainda a publicação de Quem chama pelo senhor Aventura?, o livro escolhido para a primeira edição do prémio Divergência (no qual participei no júri).

Conforme previsto o ano passado, concretizou-se o espaço para jogos de tabuleiro (com uma rubrica mais ou menos quinzenal, aos Sábados, onde falo de jogos e de experiências envolvendo jogos) e estabeleceram-se parcerias nessa área.

Perspectivas para o próximo ano

O ano passado previa começar a falar de música, mas ainda não se concretizou um espaço para esta componente. Espero começar, lentamente, a apresentar algo nesta secção. Em termos de programa de rádio já tenho alguns convidados previstos pelo que espero recomeçar logo em Janeiro.

E para o ano? Bem, participei na edição de uma antologia de Space Opera portuguesa, a sair em 2019 pela Editorial Divergência (tenho a dizer que fiquei muito surpreendida com a qualidade das participações) e tenho planos para lançar um novo projecto no primeiro trimestre.

Recomendações de Halloween

Livros

Lisboa Oculta

O mais recente lançamento da Imaginauta confere uma aura sobrenatural a vários dos espaços de Lisboa, cruzando história com elementos ficcionais para criar um guia turístico que levará os viajantes a olhar por cima do ombro a cada passada.

O resto é paisagem

O ambiente rural é dado a deambulações fantasmagóricas e à exploração de elementos sobrenaturais. Nesta antologia fantástica vários autores aproveitam o cenário simultaneamente conhecido, mas misterioso, para apresentar histórias apropriadas a estes dias assombrados.

Os monstros que nos habitam

A antologia não é nova (foi lançada o ano passado) mas é um bom exemplo de um conjunto de contos assustadores em que vários autores exploram monstros que não são, necessariamente, sobrenaturais.

Banda desenhada

Wytches – Snyder, Jock, Hollingsworth e Robins

Não podia deixar de recomendar Wytches que continua a ser uma das minhas preferidas bandas desenhadas de horror.  Wytches também aproveita o cenário rural, assustador não só pela floresta deserta e sombria, mas pela população muito fechada de uma pequena vila. É neste ambiente, já de si inóspito, que existem bruxas milenares, seres mais antigos que a humanidade que se servem dos humanos para alimentarem a sua malvadez.

Harrow County – Cullen Bunn e Tyler Crook

A série começou com um primeiro volume brutal que pode ser lido isoladamente. Neste uma menina descobre ser a encarnação de uma bruxa, entre elementos sobrenaturais e criaturas criadas da lama. Esta série tem-se alongado por mais volumes interessantes mostrando que os monstros nem sempre são aqueles que o aparentam e usam o meio rural para explorar os elementos mais primitivos associados ao medo e ao sobrenatural.

Sintra – Tiago Cruz e Inês Garcia

Quem já andou por Sintra à noite sabe que as florestas são tenebrosas e carregadas de sombras! Não é pois difícil de imaginar que possa ser um cenário de uma história de horror, principalmente de teor fantasmagórico! Estes dois autores juntaram esforços para apresentar um conto competete, com alguns clichés (que funcionam) que consegue criar tensão e escalar o horror!

Jogos de tabuleiro

Mysterium

Só ainda o joguei uma vez, mas é um jogo que aproveita um pouco a lógica do Dixit para explorar um tema sobretural. Explicando, rapidamente, um fantasma pretende indicar aos investigadores (os jogadores) os detalhes pelo qual virou fantasma, mostrando o local onde foi assassinado, com que arma e quem a empunhou. Para tal não pode dispor de palavras, apenas das imagens que tem em mão!

Jogos de telemóvel

Last day on earth: survival

Ao contrário de muitos jogos com componente de construção para pequeno ecrã, achei este fácil de manipular e de gerir. O jogo passa-se durante um apocalipse zombie, durante o qual temos de criar o nosso próprio refúgio e construir as nossas próprias ferramentas, dispondo apenas do que a natureza e os restos de uma civilização têm para nos oferecer.

Lutando contra zombies e outros sobreviventes humanos (que podemos saquear), explorando áreas onde podemos recolher matérias primas e alguns items, é um jogo que nos envolve rapidamente.

Evento: Fórum Fantástico

Começa amanhã, dia 12, um dos mais esperados eventos do ano em torno da ficção científica e fantasia, o Fórum Fantástico. O Fórum apresenta, como já nos habituou, um programa extenso e diverso, onde se discutem e apresentam projectos. Neste seguimento entrevistei o Rogério Ribeiro, um dos organizadores (conforme já tinha divulgado),  mas aproveito para realçar algumas componentes, cujo programa podem consultar na página oficial do evento:

Workshops de escrita – com Bruno Martins Soares e Pedro Cipriano ou com Chris Wooding (o convidado internacional deste ano);

Lançamento de livrosLisboa Oculta (Guia Turístico), Tudo isto existe de João Ventura, O Resto é paisagem, Apocryphys vol. 3 (banda desenhada);

Palestras com vários autores nacionais e internacionais – de banda desenhada, ficção científica e fantástico;

– Jogos de tabuleiro;

– Exposições – Nos 25 Anos de Filipe Seems; de Nuno Artur Silva e António Jorge Gonçalves; Jardim Secreto, de Bruno Caetano;

– Feira do fantástico.

Portais – Octavio Cariello e Pietro Antognioni

Se a publicação de ficção científica é rara em Portugal, que dizer de banda desenhada de ficção científica? Surpreendentemente, nos últimos meses têm saído alguns álbums (que muitas vezes pecam por ser demasiado curtos) bastante interessantes, como é o caso de Ermal ou deste Portais.

Visualmente bem concretizada, Portais apresenta uma história futurista em que várias pessoas vão sendo transportadas pelo espaço e pelo tempo (sem consentimento) para uma época em que a sua presença será decisiva na luta pelo trono, para afastar o déspota que o detém – encontra-se a decorrer uma batalha complicada e estas figuras de outros tempos vão ser decisivas.

Se o início é quase pausado, dando espaço para percebermos o ambiente diferente de onde provêm estes elementos fundamentais, após esta apresentação a história condensa-se, introduz várias personagens e vários acontecimentos, num ritmo que carece de detalhes para o total entendimento.

Cruzam-se linhas temporais diferentes e resolvem-se conflitos, de forma bastante rápida, e com poucas explicações. Sucedem-se reviravoltas inesperadas e pequenas batalhas numa história que carecia de mais espaço para se desenvolver totalmente, tanto pela quantidade de personagens, como pelas várias, possíveis, linhas narrativas.

Não se entenda pelo comentário sobre a falta de espaço que não gostei da história. Pelo contrário. Apesar das páginas apertadas trata-se de uma boa história, com bons alicerces para a criação de algo mais, acompanhada por excelente visual, e a narrativa é forte o suficiente para nos deixar a querer mais.

Portais foi publicado em Portugal pela Polvo.

Novidade: Colecção Novela Gráfica 2018

A Levoir já revelou a totalidade dos livros (e das capas) que compõem a próxima colecção de Novela Gráfica que começou hoje! Realço que as edições anteriores foram marcadas pela publicação de excelentes histórias inéditas no mercado português a preço acessível e, decerto, que esta não será excepção.

Entre os autores publicados destacam-se os já conhecidos Taniguchi, Cosey, Tardi ou Paco Roca, bem como um candidato aos prémios Eisner 2018, O Fantasma de Gaudí, um livro que li recentemente em espanhol e que traduz bem a beleza arquitectónica de Barcelona em que se destacam, claro, os edifícios de Gaudí.

Deixo-vos a listagem dos títulos, bem como a respectiva data de lançamento:

  1. Os Guardiões do Louvre – Jiro Taniguchi 6 de Junho
  2. Aqui Mesmo – Jean-Claude Forest e Tardi-13 de Junho
  3. O Fantasma de Gaudí – Jesús Alonso Iglesias e El Torres-20 de Junho
  4. Calipso – Cosey-27 de Junho
  5. O Farol e O Jogo Lúgubre – Paco Roca-4 de Julho
  6. Uma irmã – Bastien Vivès-11 de Julho
  7. Destemidas – Pénélope Bagieu-18 de Julho
  8. Tatuagem – Hernán Migoya e Bartolomé Seguí, adaptação do romance de Manuel Vázquez Montalbán-25 de Julho
  9. Gente de Dublin – Alfonso Zapico, biografia de James Joyce-1 de Agosto
  10. O Jogador de Xadrez – David Sala- 8 de Agosto
  11. O Último recreio – Carlos Trillo e Horacio Altuna-15 de Agosto
  12. Novembro – Sebastià Cabot- 22 de Agosto

À espera de: Lançamentos internacionais

Conhecida pelos livros A Súbita Aparição de Hope Arden (obra vencedora do World Fantasy Award para 2017 e uma das linhas leituras favoritas do ano passado) e As primeiras quinze vidas de Harry August (vencedor do prémio John Campbell Memorial Award), Claire North tornou-se um nome a seguir! Neste romance distópico o homicídio tem literalmente um preço a pagar! Um preço que faz com que os ricos possam escapar impunemente por este crime. O lançamento do livro na edição inglesa está previsto para Maio.

What if your life were defined by a number?

What if any crime could be committed without punishment, so long as you could afford to pay the fee assigned to that crime?

Theo works in the Criminal Audit Office. He assesses each crime that crosses his desk and makes sure the correct debt to society is paid in full.

But when Theo’s ex-lover Dani is killed, it’s different. This is one death he can’t let become merely an entry on a balance sheet.

Because when the richest in the world are getting away with murder, sometimes the numbers just don’t add up.

 

Há alguns anos (mais do que uma década) li todos os livros publicados em português ou em inglês de Stephen Lawhead. São, na sua maioria, romances históricos que se centram bastante na narrativa e nas personagens e que, por isso, conseguem tornar-se bastante envolventes. Ainda que tenha lido, entretanto, obras de ficção histórica de outros autores que julgo serem melhor conseguidas (a série Primeiro Homem de Roma de Colleen McCullough, por exemplo), não deixo de sentir alguma nostalgia e vontade de ler os novso lançamentos deste autor:

The isle of Eirlandia has been ravaged by the barbarian Scálda, who seek to conquer all. The High King has called for the warring clans and tribes of the Tuatha DeDanann to set aside their feuds and unite to fight to save their nation.

Conor is the first-born son of the Celtic king Ardan mac Orsi. He should have been battlechief, but a birthmark casts him as unclean and that honor has fallen to his younger brother Liam. Conor is resigned to his fate, but wishes he could do something to earn his tribe’s respect.

Sometimes wishes take unexpected turns—when Conor is wrongly accused of theft and cast out of his tribe, he embarks on a dangerous mission to not only prove his innocence but to expose the treachery that led him on this path. He also seeks the ethereal beauty he saw being abducted by the Scálda. Convinced that she is no mortal woman, but one of the faéry, Conor must find and rescue her.

Because he knows that if the Scálda gain the secret of faéry magic, they will conquer his homeland.

Depois de American Elsewhere (vencedor do Shirley Jackson Award e muito recomendado pelo João Barreiros) e de City of Stairs (o primeiro de uma trilogia fantástica que consegue ser inovadora num cenário em que o género quase que atinge o ponto de saturação) o autor lança este Foundryside que também promete ser interessante e que entra directamente para o topo da minha futura lista de aquisições:

In a city that runs on industrialized magic, a secret war will be fought to overwrite reality itself–the first in a dazzling new fantasy series from City of Stairs author Robert Jackson Bennett.

Sancia Grado is a thief, and a damn good one. And her latest target, a heavily guarded warehouse on Tevanne’s docks, is nothing her unique abilities can’t handle.

But unbeknownst to her, Sancia’s been sent to steal an artifact of unimaginable power, an object that could revolutionize the magical technology known as scriving. The Merchant Houses who control this magic–the art of using coded commands to imbue everyday objects with sentience–have already used it to transform Tevanne into a vast, remorseless capitalist machine. But if they can unlock the artifact’s secrets, they will rewrite the world itself to suit their aims.

Now someone in those Houses wants Sancia dead, and the artifact for themselves. And in the city of Tevanne, there’s nobody with the power to stop them.

To have a chance at surviving–and at stopping the deadly transformation that’s under way–Sancia will have to marshal unlikely allies, learn to harness the artifact’s power for herself, and undergo her own transformation, one that will turn her into something she could never have imagined.

Bastante conhecida no meio fantástico (ou não fosse ter ganho um John W. Campbell Award, um World Fantasy Award, um Prometheus Award, um Mythipoeic Award, um Nebula Award e um Hugo Award) Jo Walton escreveu, entre 2010 e 2013, uma série de textos no TOR.COM sobre os vários nomeados e vencedores do prémio Hugo. A ideia por detrás destes textos é a de que o conjunto de cada ano reflecte o estado da ficção científica desse ano. Este livro apresenta esses textos, revistos e comentados:

The Hugo Awards, named after pioneer science-fiction publisher Hugo Gernsback, and voted on by members of the World Science Fiction Society, have been given out since 1953. They are widely considered the most prestigious award in science fiction.

Between 2010 and 2013, Jo Walton wrote a series of posts for Tor.com, surveying the Hugo finalists and winners from the award’s inception up to the year 2000. Her contention was that each year’s full set of finalists generally tells a meaningful story about the state of science fiction at that time.

Walton’s cheerfully opinionated and vastly well-informed posts provoked valuable conversation among the field’s historians. Now these posts, lightly revised, have been gathered into this book, along with a small selection of the comments posted by SF luminaries such as Rich Horton, Gardner Dozois, and the late David G. Hartwell.

Engaged, passionate, and consistently entertaining, this is a book for the many who enjoyed Walton’s previous collection of writing from Tor.com, the Locus Award-winning What Makes This Book So Great.

Y: O Último Homem – Vol.6 – Entre Mulheres

Sei que já o disse anteriormente, mas não me canso de o repetir – a qualidade da edição portuguesa dá outra força à história desta série. É que a edição original da Vertigo é feita em papel fraco que quase parece de jornal, ficando com cores esbatidas. Neste caso, não é só a capa que é bastante superior, mas também o conteúdo com folhas mais grossas permitindo ao desenho brilhar e ser melhor percepcionado.

Neste volume a equipa começa uma nova demanda – o único homem sobrevivente, Yorick, desloca-se com a cientista e a sua guarda-costas num barco, em busca do animal de estimação, um macaco que poderá ser a chave para a sobrevivência da espécie humana. A presença de Yorick a bordo é rapidamente descoberta e assim é levado à capitã, uma mulher dura e destemida que tem muito a esconder da verdadeira ocupação do barco e respectiva tripulação.

Y: O último homem é uma série apocalíptica – com o colapsar, em simultâneo, de todos os homens do planeta (ou quase todos) a humanidade está em perigo de extinção. Com a morte dos homens a sociedade colapsou, principalmente nos países em que a existência das mulheres estava restrita à casa.

Não é, também, de estranhar, as várias seitas religiosas ou grupos fanáticos que surgiram – o aceitar do evento catastrófico é enlouquecedor, e muitas mulheres refugiam-se mentalmente em crenças fechadas sobrecarregadas pela culpa dos seus pecados, enquanto outras vêm o fim do patriarcado e tentam converter todas as restantes a um grupo de mulheres guerreiras, as amazonas.

A banda desenhada vai explorando todos estes possíveis efeitos na sociedade em extinção, enquanto confronta os hábitos antigos com os novos. Com o avançar da história promete-se explorar outras zonas geográficas para além dos Estados Unidos da América, perspectiva que começou a ser apresentada neste sexto volume.

A série Y: O último homem foi publicada até ao sexto volume pela Levoir em parceria com o jornal Público. A publicação dos restantes volumes está prevista mas não agendada.

Outros livros dos autores

Y: O Último Homem – Vol.5 – O Anel da Verdade – Brian K. Vaughan, Pia Guerra e José Marzán Jr.

Este quinto volume marca o retorno, com força, da série! Se tinha achado que o quarto volume tinha esmorecido, retratando uma viagem longa onde os percalços são comuns e esperados, mas a dinâmica parece estagnar, neste quinto volume ocorrem finalmente descobertas importantes! De realçar que li os volumes anteriores na edição original, que tem um papel de fraca qualidade que impede que o excelente trabalho dos desenhadores seja apreciado. Esta edição possui uma qualidade de impressão bastante superior que dá força às cores e à arte deste volume.

O último homem, Yorick, chega finalmente à Califórnia, acompanhado pela cientista e pela sua guarda costas, uma agente perigosa. Mas nem por isso os episódios movimentados deixam de ocorrer – Yorick procura, numa Igreja, ajuda para abrir uma lata, mas encontra a guardiã, Beth, uma licenciada em teologia com o mesmo nome da namorada (que se encontra na Austrália e não vê há dois anos). Após um rápido envolvimento com Beth são atacados por algumas Amazonas, originando um movimentado episódio em que se discutem argumentos contra a Igreja (que favorecia os homens, quando estes existiam).

Yorick consegue sobreviver, graças às suas capacidades de mágico e o grupo chega, finalmente, a São Francisco, a localização do laboratório onde a cientista pensa poder descobrir o que salvou Yorick e o que pode vir a salvar o bebé masculino que se encontra isolado numas instalações remotas no interior do país. Mascarado, para não ser reconhecido como homem, Yorick aproveita algumas oportunidades da cidade – mas estas oportunidades acabam em confrontos sucessivos onde se discutem as ideologias do mundo pré-apocalíptico.

De fortes cores, este volume apresenta páginas com desenhos fantásticos, desenhos que aproveitam os momentos mais trágicos ou de tensão da história, realçando-os. Neste mundo as loucas andam à solta, e a qualquer momento pode ocorrer uma situação absurda provocada por fanatismo ou demência! Neste quinto volume o enredo desenvolve-se e provoca novas possibilidades para os próximos!

A série é publicada pela Levoir em parceria com o jornal Público.

The Strange Bird: A Borne Story – Jeff Vandermeer

The Strange Bird decorre na mesma realidade que Borne, ou seja, um mundo apocalíptico em que as grandes empresas de biotecnologia construíram uma série de seres poderosos dos quais perdem o controlo. Capazes de comunicar e transmitir pensamentos entre eles, estes seres são valiosos não só por terem capacidades de vários animais (cruzando genes de, por exemplo, aves com lulas) mas por poderem constituir boas fontes de proteína, num mundo de escassez.

Ainda que não seja necessário ter lido Borne para compreender os acontecimentos que decorrem em The Strange Bird, a verdade é que ajuda a entender a linha cronológica e a perceber a realidade em que a história decorre. A ave estranha na qual a história se centra foi criada em laboratório e quando o monstro (criado pela companhia) se revolta contra os seus criadores, a ave é o único dos seres produzidos que não é comido pelos cientistas enclausurados e esfomeados.

Com uma capacidade de compreensão muito acima do que é suposto para uma ave (pois contém, também, uma componente humana na sua constituição), capaz de reproduzir sons e falas (como um gravador) e belíssima, a ave vai sendo capturada e enclausurada, conseguindo libertar-se até encontrar alguém que a transforma em algo estático.

Valorizada ora pela beleza, ora pelas capacidades oriundas dos genes diferentes que possui, a ave tem um único objectivo na sua vida – um objectivo que vai sendo bloqueado pelos que encontra enquanto se recorda de memórias de uma pessoa que há muito já não existe.

A narrativa de The Strange Bird centra-se na belíssima ave mas fornece rápidos vislumbres das personagens de Borne e resolve alguns dos mistérios da história principal, enquanto nos mostra alguns espaços fora do cenário constrito de Borne. Sendo histórias independentes e narrativamente bastante diferentes complementam-se para dar uma maior dimensão ao mundo explorado em ambas.

The Strange Bird começa como a história de um ser inocente apesar da destruição que o rodeia e torna-se numa história de transformação involuntária que leva ao adiamento sucessivo dos objectivos para os quais foi programado. Capaz de nos fazer sentir empatia para com tão estranho ser, The Strange Bird é uma história coesa com um final agri-doce.

Para os interessados em conhecer um pouco mais deste estranho mundo construído por Jeff Vandermeer, existe um Bestiário!! Eis o link!

Outros livros do autor

Low – Vol.4 – Remender, Tocchini e McCaig

Low continua a ser uma das minhas séries favoritas do ponto de vista visual, mas pela perspectiva narrativa tem perdido algum interesse. Comecei esta série na mesma altura que Descender, e se a última tem crescido (apesar de alguns momentos mais parados), Low parte de uma premissa interessante para não ter, até agora, grandes pontos de inovação.

Alternando entre as várias cidades submersas e concedendo a cada uma, um visual diferente que torna o volume fascinante, Low apresenta um mundo em apocalipse onde o fim da humanidade parece tão próximo que acaba com o positivismo de qualquer pessoa  e mesmo quando surgem notícias de um outro mundo passível de colonização parece preferível ceder à tragicidade do fim.

Neste volume exploram-se rivalidades numa sucessão de episódios de acção, sem o tom introspectivo ou filosófico dos volumes anteriores. Algumas das personagens principais não sobreviveram até aqui, resultando na tensão acumulada que justifica o ritmo frenético e explosivo.

Centrando-se no que de pior a espécie humana tem para oferecer, este quarto volume afasta-se bastante do espírito que encontrei nas primeiras páginas, onde me sentia irritada pelo excessivo optimismo de uma das personagens – optimismo que impeliu uma série de eventos carregados de esperança que tem sido esmagada a cada volume.

Oscilante em tom e equilíbrio, até ao momento é uma série estranha e inconstante, que vai deixando linhas narrativas em aberto que espero que sejam recuperadas nos próximos volume. Reitero que um dos aspectos positivos é o visual que cruza cenários conhecidos (o fundo do mar) com tecnologia futurista criando uma série de imagens improváveis mas fascinantes.

Alguns lançamentos nacionais para o ano de 2018 – parte 1

Algumas editoras começaram já a indicar o que podemos esperar em 2018 – e tenho a dizer que não há carteira que resista!

Editorial Divergência

Nuno Ferreira publica agora a sua trilogia fantástica pela Editorial Divergência o que será uma boa oportunidade para quem, como eu, se recusa a ler obras publicadas em vanities. Esta nova edição está prevista para Abril de 2018 e promete ser um grande lançamento no fantástica português.

A editora indica também a publicação de livros de contos por António de Macedo e de João Barreiros, em que cada uma das colectâneas terá contos inéditos! A colectânea de António de Macedo está prevista para Maio de 2018 e a de João Barreiros para Setembro de 2018.

As novidades não se ficam por aqui, com Avatar de Frederico Duarte para Outubro de 2018 e com várias antologias: Steampunk para Julho (com participação de autores de várias nacionalidades), O resto é paisagem (fantasia rural) para Novembro, Na Imensidão do Universo (Space Opera) para Dezembro.

Parece um extenso programa? A Editorial Divergência tem, ainda, em curso um concurso de contos de ficção especulativa (em parceria com a Imaginauta e o Sci-fi LX) bem como a primeira edição do Prémio António de Macedo.

Imaginauta

Está a decorrer o período de submissões para Amanhãs que cantam, uma antologia distópica organizada em parceria com a Associação Épica. Para além deste projecto em curso a Imaginauta já anunciou o lançamento de Crazy Equóides de João Barreiros e de Comandante Serralves: Expansão.

Saída de Emergência

A editora já anunciou o plano para o primeiro Semestre do ano e deste plano destaco o que mais interessou (ou que já li e aconselho):

Estou a seguir a série em inglês apenas porque já tinha começado a ler antes de ter sido publicada por cá – trata-se de um grande lançamento. Monstress é, na minha opinião uma das melhores séries actuais da Image, com um traço exótico e uma história apoiada por uma boa mitologia. Neste segundo volume, Maika, a personagem principal descobre algo mais sobre a mãe, revelações que são tanto perigosas como fascinantes. A série foi nomeada para vários prémios Eisner e venceu um prémio Hugo.

Opinião ao segundo volume de Monstress.

Quem teme a morte, ou Who Fears Death (no original) apresenta um mundo inóspito carregado de violência, um mundo pós-apocalíptico onde restam alguns pedaços de tecnologia funcional marcado pelo ódio entre dois povos. A história decorre em África contendo alguns elementos culturais relativos à região e centrando-se numa jovem personagem que se revela muito poderosa.

A história possui algumas reviravoltas fortes, mas um dos motivos para ter sido tão aclamada foi não se centrar no típico herói, homem caucasiano, utilizando o diferente contexto cultural para trazer uma história poderosa e carregada de elementos originais.

Quem teme a morte venceu um prémio World Fantasy Award, bem como um Carl Brando Kindred Award e encontra-se em adaptação para série televisiva pela HBO com George R. R. Martin como produtor executivo.

Opinião a Who Fears Death.

Este ainda não li mas, infelizmente, já tinha encomendado a versão inglesa. O Poder (ou The Power). Foi difícil seguir qualquer jornal ou blogue de opinião anglo-saxónica e não perceber a importância deste lançamento. Vencedor do prémio Baileys Women’s Prixe for Fiction, e em adaptação para série televisiva, trata-se de uma história distópica onde as mulheres ganham a capacidade de descarregar choques eléctricos pelos dedos, tornando o género feminino no género dominante.

Fahrenheit 451 é uma das distopias mais conhecidas e marcantes da ficção científica que decorre num futuro onde os bombeiros, ao contrário de apagarem fogos, queimam livros, como forma de censura. Tão grave quanto a queima de livros é o geral desinteresse nos livros, um dos focos principais do livro. Mais tarde o próprio autor iria falar da premissa como estando relacionada com o desinteresse pelos livros que a comunicação instiga. Vencedor de inúmeros prémios, e adaptado para diversos formatos (programa de rádio, filme, teatro, jogo de computador) é uma das obras mais relevantes de Ray Bradbury.

Guerra Americana é o primeiro livro de Omar El Akkad, um autor egípcio que, antes de escrever este seu primeiro livro, se formou como informático e trabalhou como jornalista na guerra do Afeganistão, Guantanamo (acompanhando os processos judiciais), Primavera Árabe no Egipto, ou nos Estados Unidos no seguimento de Black Live Matter.

Esta componente do currículo torna-se importante para perceber o relacionamento com este primeiro livro que retrata um futuro onde, no seguimento de fortes alterações climáticas, eclode uma Guerra (2074) que dá origem a profundas separações no país. A história é apresentada após esta guerra e consequentes separações, intercalando a narrativa centrada numa personagem com documentos que terão sido encontrados posteriormente.

A história tem sido muito bem aclamada pelos críticos e parece-me bastante interessante, tanto pelo tema, como pelo trabalho anterior do autor.

A opinião sobre Um Estranho numa terra estranha não é unânime entre os fãs de ficção científica. Há quem o refira como um clássico importante no género, há quem lhe tenha um profundo asco. Se a obra de Robert E. Heinlein consegue ser controversa, diria que este está no topo da dualidade, apresentando um ser humano que foi criado em Marte, entre marcianos.

Educado numa sociedade com valores bastante diferentes, onde a partilha de água é um gesto importante, este homem revolucionará o estar religioso e social dos seus seguidores, numa espécie de Messias futuro de onde se podem estabelecer paralelismos interessantes.

No mesmo mês em que é lançada a adaptação cinematográfica do primeiro volume, é lançado o terceiro volume em português. Trata-se de uma trilogia de ficção científica ecológica por Jeff Vandermeer, conceituado no género tanto pela actividade como escritor, como editor. Ainda não li este volume, mas diz-se que, após um segundo volume mais pausado este volta à acção, com uma grande revelação final.

Editorial Presença

A editora ainda não anunciou grandes novidades, mas está a lançar um dos livros de fantasia que mais interesse me despertou recentemente – trata-se de mais um livro que decorre na fabulosa trilogia de Mundos paralelos, uma trilogia destinada a um público mais juvenil mas que consegue não ser condescendente e conter alguns elementos de ficção científica entrelaçados.

Alguns anos após a leitura da trilogia ainda continuo a pensar nela como sendo das melhores no seu género e uma leitura altamente recomendável. De realçar que, com este lançamento a editora re-lançou a trilogia original, que já escasseava nas bancas.

Malcolm Polstead tem onze anos. Os pais gerem A Truta, uma estalagem muito frequentada nas margens do rio Tamisa, perto de Oxford. Malcolm é muito atento a tudo o que o rodeia, mas sem chamar a atenção dos outros. Talvez por isso, fosse inevitável vir a tornar-se num espião. É na estalagem que ele, juntamente com o seu génio Asta, descobre uma intrigante mensagem secreta sobre uma substância perigosa chamada Pó. Quando o espião, a quem a mensagem era dirigida, lhe pede que preste redobrada atenção ao que por ali se passa, o rapaz começa a ver suspeitos em todo o lado: o explorador Lorde Asriel; os agentes do Magisterium; Coram, o cigano; a bela mulher cujo génio é um macaco malicioso… Todos querem descobrir o paradeiro de Lyra, uma menina, ainda bebé, que parece atrair toda a gente como se fosse um íman. Malcolm está disposto a enfrentar todos os perigos para a encontrar…

Opinião ao segundo volume – A torre dos anjos

Opinião ao terceiro volume – O telescópio de âmbar

Retrospectiva 2017 – O Rascunhos em Banda desenhada

Numa contagem desatenta percebo que ultrapassei o número de leituras de banda desenhada do ano passado, rondando quase as 200 leituras, algumas (poucas) em francês ou espanhol, mas sobretudo em inglês e português (este registo passou a ser feito no Goodreads). Considero que este foi um grande ano na publicação da banda desenhada em Portugal, com a colecção de Novela Gráfica publicada pela Levoir em parceria com o jornal Público, a lançar grandes obras que, de outra forma, dificilmente veriam a luz da edição portuguesa, e editoras nacionais a lançarem-se, pela primeira vez, na publicação de banda desenhada.

Banda desenhada portuguesa

 

 

 

 

 

 

 

A melhor leitura – O problema de separar em categorias e ter uma só para a banda desenhada portuguesa é ter de comparar obras bastante diferentes em tom e tema. Eis, portanto, as duas melhores leituras do ano em banda desenhada portuguesa : O Elixir da Eterna Juventude de Fernando Dordio e Osvaldo Medina e Comer Beber de Filipe Melo e Juan Cavia. O primeiro destaca-se pelo tom leve com que integra as músicas de Sérgio Godinho numa aventura divertida e o segundo pela qualidade do desenho e pelos temas, mais sérios, abordados nas duas histórias que compõem o volume que, apesar de curtas, conseguem transmitir o peso dos acontecimentos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Menções honrosas – De Rui Lacas, Ermida é uma história curta mas caricata que inspira um enorme simpatia graças à força das expressões e dos modos que as personagens apresentam. Por sua vez, Hanuram de Ricardo Venâncio é visualmente interessante, tanto pela qualidade do desenho como pela composição, centrando-se num guerreiro que ousou desafiar os deuses ao se proclamar invencível. Totalmente diferente dos anteriores, Ermal de Miguel Santos destaca-se pela criação de uma realidade pós-apocalíptica em que o ocidente foge para território africano, resultando em guerras onde as várias facções tentam explorar interesses diferentes. No final o principal defeito é tratar-se de uma história curta. Finalmente, em tom humorístico, Conversas com os putos de Álvaro apresenta vários episódios cómicos que decorreram enquanto dava explicações.

Banda desenhada de ficção científica

A melhor leitura – Valerian de Christin e Mézières – A série publicada pela Asa em parceria com o jornal Público trouxe um conjunto de aventuras com uma qualidade que não esperava. Referida, por diversas vezes, como tendo influenciado Star Wars (ou mais do que influenciado) possui uma grande diversidade de mundos e de espécies alienígenas que se tornam fascinantes pela coerência que possuem. A dupla de agentes, por sua vez, ora viagem no espaço, ora no tempo, e se, nas primeiras aventuras as histórias são simples e quase clichés, sente-se que, com o avançar dos volumes, a série melhora, utilizando as histórias anteriores como alicerces para as seguintes, e ganha uma dimensão avassaladora.

 

 

 

 

 

 

 

Menções honrosas – Pela primeira vez de que me recordo tenho de reclassificar o género de uma série. Autumnlands, que começou por parecer uma série fantástica com elementos extraordinários, assume-se, no segundo volume, como ficção científica, utilizando espécies alienígenas tecnologicamente avançadas para justificar a origem do que se pensava ser magia. Espero que o terceiro volume revele um pouco mais desta dualidade. Por sua vez, Surrogates apresenta um mundo sombrio onde se inventaram corpos artificiais para os quais as pessoas se projectam e com os quais saem à rua, protegendo-se assim de potenciais acidentes e problemas de discriminação (já que o corpo pode não ter qualquer semelhança física com o seu dono). As vantagens são, no entanto, submersas pelas desvantagens, numa sociedade cada vez mais superficial. Outra das grandes descobertas não é uma novidade em termos editoriais, mas trata-se de A feira dos imortais de Bilal, autor do qual apenas conhecia os álbuns mais modernos e só com estes percebi porque tanta gente os repudia.

Banda desenhada de horror

A melhor leitura – Harrow County de Cullen Bunn e Tyler Crook – Depois de um excelente primeiro volume, o segundo mantém o tom negro, e percebemos que a menina com capacidades de bruxa, ao contrário do estereotipo se preocupa com a correcta utilização dos seus poderes, por forma a que exista um equilíbrio de forças. Esta preocupação será exacerbada pela entrada de uma nova personagem, uma irmã gémea que terá os meus poderes mas que não os usa de igual forma.

Banda desenhada fantástica

A melhor leitura – Monstress de Marjorie Liu e Sana TakedaMonstress fascinou pelo aspecto exótico e pela mitologia densa num mundo semelhante ao nosso, com tecnologia semi-medieval, onde existem seres semelhantes aos humanos com características de animais. Estes seres são caçados pelos humanos a mando de feiticeiras que com eles pretendem realizar experiências. Enquanto os supostos monstros são emocionalmente mais humanos do que os humanos e os deuses se escondem, simultaneamente dependentes e poderosos, temos uma espécie inteligente de gatos que se dedica a registar e a passar, de geração em geração, a história deste complexo mundo;

 

 

 

 

 

 

 

Menções honrosas – A famosa série Sandman foi finalmente publicada em Portugal numa parceria entre a Levoir e o jornal Público. Ainda não li todos os volumes mas a série, melancólica, centra-se na figura eterna responsável pelos sonhos cruzando as histórias mitológicas de várias civilizações. O resultado é uma história abismal onde Neil Gaiman explora personagens e mitos de forma envolvente. O Rei Macaco, de Manara e Silverio Piso é uma obra visualmente impressionante, onde a figura divina de um macaco usa o seu carácter irrequieto como explorador e parte do paraíso com o intuito de se tornar imortal e assim poder usufruir eternamente do paraíso. Irónico? Bastante. São comuns os comentários políticos e religiosos, bem como as insinuações fálicas ou a observação do decadente comportamento humano. Finalmente, comecei a série East of West, uma série que cruza tecnologia e fantástico apresentando-nos a demanda dos cavaleiros do apocalipse. A Morte busca o filho que está a ser manipulado para provocar o fim da existência.

Banda desenhada histórica

A melhor leitura – Os trilhos do acaso de Paco Roca – Nesta obra publicada em dois volumes o autor explora a guerra civil espanhola numa perspectiva pouco habitual, seguindo um refugiado espanhol – um homem que se viu obrigado a deixar Espanha num barco e que mesmo assim foi sortudo, considerando que a maioria não foi capaz de embarcar. Este homem é, agora, um velhote que ninguém suspeita ter sido um herói de guerra, lutando na Segunda Guerra Mundial. O que é peculiar não é só a personagem, mas a forma como Paco Roca cria empatia e explora a história mais pelo lado humano do que pela terror da guerra.

Menções honrosas – Também Destino Adiado de Gibrat tem como palco a guerra mas, desta vez, centra-se num jovem que desertou e que, por sorte, foi dado como morto. A partir daqui consegue esconder-se na vila de origem, passando os dias sem poder ser visto, mas numa casa que lhe permite observar o quotidiano de todos.

Antologia

A melhor leituraSilêncio – Das várias antologias de contos de banda desenhada que li este ano a que mais me impressionou foi o segundo volume The Lisbon Studio com o título Silêncio. Neste volume reúne-se o trabalho de vários autores portugueses que pertencem ao mesmo estúdio e se organizaram para entregar histórias curtas centradas no mesmo tema. Este é o segundo volume da série em torno do estúdio, sendo que achei que o trabalho apresentado neste ainda conseguia ser de melhor qualidade do que no primeiro volume. Os temas são diversos bem como o estilo, entregando-se boas histórias curtas.

Menções honrosas – Flight Esta é, no mínimo, uma antologia de banda desenhada competente. Todas transmitem alguma narrativa, ainda que nalgumas se perceba que esse não é o foco (são poucas), e todas são visualmente agradáveis (no mínimo), bastantes com detalhes caricatos que transmitem simpatia ao leitor. Ainda que Flight não devesse ser um tema, mas apenas o título do volume, várias das histórias têm o voo como premissa.

Registo autobiográfico

 

A melhor leitura – Tempos Amargos de Étienne Schréder – O autor apresenta os seus piores momentos de degradação originados pelo vício do vinho. Sem conseguir terminar os estudos pretendidos, pai demasiado cedo e trabalhando numa prisão, Étienne Schréder afunda-se cada vez mais na bebedeira como possibilidade de fuga da vida que leva. Aqui expõe-se (mas tem cuidado em não expor os outros) e demonstra os anos de escuridão.

 

 

 

 

 

 

 

Menções honrosas – Em Histórias do bairro o autor mostra a sua infância e, até, adolescência num bairro problemático de onde é difícil escapar. Cedo os habitantes se envolvem em actividades ilícitas que são tão comuns que quase são tomadas por normais. Mas é a capacidade de desenhar e de querer fazer algo com essa capacidade que lhe concede a porta de saída deste mundo. Em Os Ignorantes dois homens trocam paixões com o autor a mostrar a banda desenhada a um produtor de vinho, e o produtor de vinho a demonstrar as fases e segredos da sua profissão.

Outras

A melhor leitura – NonNonBa de Shigeru Mizuki – Um rapaz endiabrado mas de bom coração entrelaça o sobrenatural em todos os momentos da sua vida, fazendo com que criaturas diferentes sejam vistas como a causa para os eventos que os rodeiam. Este rapaz encontra-se no Japão rural, fazendo com que percepcionemos a pobreza deste ambiente, afastado das maravilhas da cidade. Para além deste retrato, que é um factor de peso para ter gostado tanto deste livro, outro elemento importante é o caricato das personagens que nos envolve e cativa, contrastando com os cenários detalhados, bem como a forma como transforma episódios quase banais em grandes aventuras sobrenaturais.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Menções honrosas Daytripper foi uma excelente surpresa, explorando a vida como uma série de pequenas fugas a eventos terminais numa história inspiradora e envolvente. Já The Fade Out destacou-se pela temática, com a apresentação de um crime nos bastidores do cinema de Hollywood dos anos 40 num ambiente negro e decadente. Da mesma dupla criativa, Criminal segue a vida de uma série de pessoas que retornam, voluntaria ou involuntariamente a vida do crime. Southern Bastards retrata  o interior americano onde o equilíbrio de forças é controlado pelo maior criminoso local que mantém debaixo de olho até a polícia. Num tom totalmente diferente, Jardim de Inverno é um relato delicioso e expressivo que apresenta a existência cinzenta de um rapaz na cidade.

A Melhor leitura – Tony Chu de John Layman e Rob Guillory A série centra-se em poderes associados à comida e, partindo de Tony Chu, um agente enfezado que percepciona a vida de tudo aquilo que come, tem conseguido centrar-se noutras personagens e manter o interesse do leitor com elementos cada vez mais estranhos.

 

 

 

 

 

 

 

Menções honrosas – É impossível não falar de série de banda desenhada e deixar de fora Saga. Ainda que, nos últimos volumes, sinta que faltam elementos inovadores e que a narrativa está “apenas” a colocar as personagens no local que deseja para poder desenrolar um final, continua a ser uma série interessante e mirabolante, com elementos leves e trágicos, uma piada às séries de ficção científica e fantasia mais conhecidas. Finalmente, estou na leitura da série Fables que tem altos e baixos. Os últimos volumes (13 e 14) que li destacam-se visualmente, com belíssimas composições (que merecia uma melhor qualidade do papel em que é impresso, mas essa é a mesma discussão de sempre em relação à banda desenhada da Vertigo).

Outras retrospectivas

Retrospectiva 2017 – O Rascunhos

2017 no Rascunhos

Quase 270 livros depois da última retrospectiva, eis a de 2017, em que consegui ultrapassar o número de leituras de 2016! Mantive a leitura de livros em outras línguas para além do português e do inglês e, não podendo estar numa CON internacional como no ano passado, tive oportunidade de falar sobre livros em mais eventos nacionais: Sustos às sextas, Sci-fi LX e o usual (mas nem por isso inferior) Fórum Fantástico.

Os valores globais de visualizações deste ano rondaram os do ano passado, 44 000, com alguns meses a exceder este valor e outros mais parados (resultado de compromissos profissionais). Tal como o ano passado verifica-se uma grande procura por informação dos livros do Plano Nacional de Leitura. Mas as entradas do ano de 2017 com maior número de visualizações são, por ordem crescente, Monstros que nos habituam (uma antologia de contos sobrenaturais de autoria portuguesa lançada pela Editorial Divergência), Crónica do Rei Pasmado (uma história irónica de uma corte hipócrita e imoral que tenta evitar que o rei veja a rainha nua), O Labirinto dos Espíritos de Carlos Ruíz Záfon (volume que finaliza a tetralogia O Cemitério dos livros esquecidos). Estes números de visualização excluem os volumes de banda desenhada que terão entrada própria.

As melhores leituras

Excluindo a banda desenhada, que será focada mais tarde, eis as melhores leituras de 2017:

Melhor colectânea – Relatório Minoritário e outros contos

Philip K. Dick gosta de brincar com a memória e com a nossa construção da realidade, sobrepondo diferentes visões, adicionando o efeito de substâncias duvidosas e fazendo-nos questionar o que achamos que existe à nossa volta. Esta fenomenal antologia não é excepção. Entre elementos programados que prosseguem sem a humanidade na concretização absurda do propósito para o qual foram construídos, encontramos adultos que se refugiam da realidade em casas de bonecas e pessoas capazes de perspectivar alguns futuros possíveis. Vários destes contos deram origem a filmes ou pequenas séries e o conjunto é sublime.

Melhor ficção curta – Kuszib de Hassan Abdulrazzak (Iraq +100)

Um dos melhores contos que li este ano (excluindo, claro, os do Philip K. Dick) encontra-se num local pouco provável, uma antologia de ficção científica iraquiana. Porquê pouco provável? Porque não é um país com tradição na ficção especulativa, onde o regime vigente não favorece o florescimento de especulações e previsões futuras. O próprio organizador da antologia começa por nos referir que a maioria dos autores não está habituado ao género e que terá aqui uma das suas primeiras explorações.

Este conto apresenta um planeta Terra governado por alienígenas. O casal que acompanhamos encontra-se num evento social, experimentando, pela primeira vez, uma determinada marca de vinho que tem, como característica peculiar, ser feito como antigamente, de uvas. Mas então, de que é feito o vinho que conhecem? De sangue. De seres humanos. Um conto extraordinário com reviravoltas viscerais.

Melhor ficção científica – Lágrimas na Chuva de Rosa Montero

Este ano parece centrar-se muito em Philip K. Dick – neste caso Lágrimas na chuva é um livro de uma autora espanhola com vários elementos de Blade Runner que nos apresenta uma rep, uma humana artificial, que se dedica à investigação de crimes. No mais recente caso que investiga ela próprio foi uma das potenciais vítimas e começa quando alguns reps aparecem com memórias deturpadas e tentam assassinar outras reps.

A história possui fortes referências à descriminação (e às suas origens sociais) ou à distinta justiça que é aplicada a ricos e a pobres: numa sociedade em que até o ar puro é pago e muitos humanos são obrigados a viver em zonas poluídas e marginais, expulsos por não serem capaz de pagar os elevados impostos de zonas melhores, a existência de reps bem sucedidos torna-se uma afronta e um bom bode expiatório para as desgraças pessoais.

Melhor não ficção – A Biblioteca à noite – Alberto Manguel

Quem bem me conhece sabe que livros sobre livros são das minhas leituras favoritas, uma paixão reconhecida tardiamente! Este, de Manguel é divinal, centrando-se nas bibliotecas desde tempos imemoriais para mostrar diversas formas de organização e de importância na sociedade. Cruzando diferenças culturais e históricas com a actualidade ocidental, realça o mistério da biblioteca à noite, obscura, carregando todas as possibilidades e todos os livros, os lidos e os não lidos.

Melhor fantasia – City of Blades de Robert Jackson Bennett

Depois de um extraordinário primeiro volume, este segundo não se encontra no mesmo nível mas, mesmo assim, é a melhor leitura de fantasia, considerando que não me dediquei muito ao género. Não me entendam mal – é uma excelente leitura, simplesmente fica aquém da expectativa criada em City of Stairs.

Com uma realidade que alterna os detalhes medievais com uma elevada cadência de descobertas tecnológicas, City of Blades apresenta uma mitologia completa mas não demasiado complexa que vai sendo apresentada sem sobrecarregar o leitor e episódios mais leves provocados por tiradas cómicas de personagens peculiares, constituindo um bom equilíbrio com as desgraças eminentes.

Melhor ficção científica nacional – Anjos de Carlos Silva

Esta não foi uma decisão fácil. Não por causa do livro indicado mas porque este ano li histórias excelentes de autores nacionais (mais, abaixo, nas menções honrosas). O elemento utilizado para o desempate foi o destaque da componente narrativa, elemento que muito prezo.

Partindo de um tema actual e adicionando vários elementos originais, Anjos possui diversas linhas narrativas que se combinam e divergem, resultando num romance de ficção científica carregado de acção e detalhes tecnológicos.

Melhor ficção histórica – Lovesenda de António de Macedo

Cineasta caído na obscuridade, professor, escritor competente mas pouco conhecido. António de Macedo era uma figura acarinhada do meio literário depois de ter deixado o cinema ao ser marginalizado e remetido ao esquecimento (talvez por não se enquadrar no que outros achavam que deveria ser o cinema português – podem ver o documentário Nos interstícios da realidade para mais informação).

Conhecedor tanto da história do fantástico português como da História Medieval portuguesa, escreveu este livro de frases sublimes que necessitam de uma atenta leitura onde o fantástico medieval se torna palpável aos nobres abrutalhados que não possuem o usual glamour romântico usualmente atribuído noutras obras. Infelizmente esta edição é limitada a 100 exemplares, fruto do  lançamento por uma pequena, mas esforçada editora nacional.

Menções honrosas:

 

 

 

 

 

 

 

Ficção científica – A súbita aparição de Hope Arden surpreendeu pelo conceito utilizando duas ideias entrelaçadas para concretizar um romance original, com uma personagem esquecível por todos e uma app que indica o caminho para a perfeição. Os três estigmas de Palmer Eldritch teria atingido o lugar de melhor ficção científica não fosse uma releitura. Por sua vez, Babel-17 foi outra das grandes leituras do ano ao se centrar nas possibilidades da linguagem para produzir uma guerra. E, claro, Normal de Warren Ellis com o seu abismo tecnológico, não pode ficar esquecido.

 

 

 

 

 

 

 

AntologiasNeutron Star de Larry Niven é um conjunto divertido carregado de estranhas mas interessantes espécies alienígenas e centrado num ser humano aventureiro que acaba por aceitar perigosas missões em troco de umas descargas de adrenalina e alguns trocos. Já Invisible Planets é uma antologia de contos de ficção científica chineses que possui alguns contos excepcionais e memoráveis!

 

 

 

 

 

 

 

Não ficçãoHistória natural da estupidez é memorável pelos exemplos de estupidez descritos. Que a humanidade tem uma capacidade incrível para realizar actos estúpidos já sabíamos mas a compilação apresenta casos sublimes! Por sua vez Desobediência Civil é um discurso genial de crítica à sociedade ocidental conseguindo, simultaneamente, ser subversivo e enaltecer a democracia.

 

 

 

 

 

 

 

Fantasia – Aliette de Bodard tem-se distinguido por apresentar ficção especulativa com elementos pouco ocidentais que conferem um ambiente exótico às suas histórias. Neste caso, The house of shattered wings é o primeiro livro de uma fantasia fantástica que apresenta uma cidade europeia após um apocalipse que fez colapsar a sociedade – existem seres mágicos, anjos caídos sem memórias, que constroem facções protegendo quem lhes interessa com motivos altruístas. As casas jogam um longo jogo de influências onde não é raro morrerem peões. Wintersmith é mais um livro de Discworld, destinado, neste caso a um público mais juvenil, com uma jovem mas cómica e decidida bruxa.

 

 

 

 

 

 

 

Ficção nacional – Em Diálogo das compensadas assistimos a uma paródia da nossa sociedade em que se opõe a adoração dos reality shows com uma vida mais pausada e dedicada à introspecção. As freiras constroem peças de computador que todos os fabricantes querem e cabe a um jovem director convencê-las a manter-se como cliente. Por sua vez, A Instalação do Medo é um episódio genial que deixa antever uma sociedade distópica onde os cidadãos são controlados – o próximo passo para esse controlo é a implementação do medo em todas as casas. Bastante diferente, em tom e tema, é As nuvens de Hamburgo uma história com elementos fantásticos onde o passado se materializa no presente (ou o presente no passado) mas sempre em torno de uma rapariga que desconhecia ter tais capacidades.

 

 

 

 

 

 

Ficção históricaO labirinto dos espíritos foi uma das primeiras leituras do ano e fechou a tetralogia passada na cidade de Barcelona. Apesar de ter gostado bastante deste volume peca por se alongar demasiado em episódios desnecessários, alguns que pretendem dar apenas uma noção de ambiente – elemento agradável mas que achei que era excessivo neste volume. Por sua vez, Crónica do Rei Pasmado é um retrato irónico que apresenta a hipocrisia da corte em que todos pecam, mas todos tentam evitar que o Rei veja nua a Rainha.

Perspectivas para o próximo ano

Aproximam-se mudanças. E novos projectos. Espero. Sem indicar prazos nem certezas, prevejo uma diversificação de formatos que ainda não sei em que moldes irá decorrer. E possivelmente passarei a ter espaço para jogos de tabuleiro e concertos.

Melhores leituras de anos anteriores


– 2016

2015

2014

2011

2010

2009

2008

2007

2006

Assim foi: Fórum Fantástico 2017

As diferenças

O Fórum Fantástico cresceu, este ano, de forma bastante positiva! Por um lado notou-se a forte aposta em workshops, o que possibilitou integrar camadas mais jovens e manter um programa mais dinâmico. A par com a usual (e fantástica) impressão a 3D organizada pelo Artur Coelho, houve espaço para desenvolver a imaginação dos mais pequenos, construir Zepellins e armaduras, ou para aprender um pouco mais de ilustração com Ricardo Venâncio.

Por outro, é de realçar a maior ocupação do espaço da Biblioteca Orlando Ribeiro que deu nova vida ao espaço – era impossível não reparar na tenda que ocupava parte do pátio com uma pequena feira do livro, onde se viam exemplares de livros de ficção científica e fantasia, sem faltarem os da autoria de Mike Carey, o escritor convidado deste ano. Nesta pequena feira do livro exterior encontravam-se a Leituria e a Dr. Kartoon.

Mas não foi só com a feira do livro que houve uma maior ocupação do espaço. O bom tempo permitiu a existência de bancas de produtos diversos, com especial destaque para o Steampunk (ou não estivesse a decorrer a EuroSteamCon integrada no Fórum Fantástico), bem como de mesas e cadeiras no exterior que permitiram usufruir do bom tempo. O terraço, bem como outras salas da biblioteca foram ocupadas, permitindo a apresentação de jogos de tabuleiro (com participação da Morapiaf) e a exibição de pranchas de Ricardo Venâncio.

E as diferenças não acabaram por aqui – a existência de um bar aberto durante todo o evento facilitou a permanência no Fórum Fantástico pois em anos anteriores era usual ter-se de deixar o recinto para comer alguma coisa. O menu, fantástico, possuía várias alusões ao evento e a comida fornecida era de boa qualidade (pela Cacaoati).

Mike e Linda Carey

Mike Carey produziu mais de 200 comics, vários livros e guiões para cinema. Com a adaptação para cinema de The Girl with all the gifts tem-se tornado cada vez mais requisitado. Por sua vez, Linda Carey escreveu também alguns livros (alguns sob pseudónimo). O destaque para a imensa obra, principalmente a de Mike Carey, serve para contrastar com o espírito que ambos demonstraram, sem prepotências ou projecções de importância, atenciosos e simpáticos durante todo o evento.

Na sexta-feira Mike Carey, conjuntamente com Filipe Melo e José Hartvig de Freitas, falou da larga experiência na produção de comics, da forma como trabalha com diversos desenhadores e da sua própria evolução e adaptação. Destacou-se a produção da série Unwritten, ideia que surgiu em cooperação com Peter Gross, com o qual já se habituou a desenhar. Foi uma palestra interessante e bem disposta.

No Sábado decorreu a conversa com ambos, Mike e Linda Carey, moderada por Rogério Ribeiro, mais voltada para os restantes livros (fora do formato da banda desenhada) onde se falou intensivamente do The Girl with all the gifts, que foi escrito em simultâneo com a adaptação, para cinema, da mesma história. Ambos os autores demonstraram uma queda para pequenos elementos subversivos nas suas histórias.

As restantes palestras de sexta

E com esta nomenclatura não pretendia referir menor prestígio das restantes palestras, mas sim destacar as que envolveram o autor convidado.

15:30 – Sessão Oficial de Abertura do Fórum Fantástico 2017

O Fórum iniciou-se na sexta (para mim, que não pude ir aos worksops) com uma sessão de apresentação de João Morales e Rogério Ribeiro onde expuseram algumas das diferenças deste ano e destacaram algumas sessões e workshops.

16:00 – Sessão “A Ficção Científica: Espelho de ansiedades políticas e pessoais”, com Jorge Martins Rosa, Maria do Rosário Monteiro, Daniel Cardoso e Aline Ferreira

Nesta sessão referiram-se várias obras e respectivas projecções das ansiedades sociais, não só em relação à evolução tecnológica e respectiva perda dos papéis tradicionais (com especial referência à mulher grávida e aos úteros artificiais), como a novos modelos sociais.

16:45 – Sessão “O lugar do Fantástico na Arte Contemporânea”, com Carlos Vidal, Henrique Costa e Opiarte – Núcleo de Ilustração e BD da FBAUL

A sessão apresentou a Opiarte enquanto espaço que permite, a alguns artistas, explorarem a vertente fantástica e de ficção científica nos seus trabalhos, espaço que visou responder a uma necessidade sentida pelos alunos da faculdade. Durante a sessão mostraram-se trabalhos produzidos neste núcleo, alguns dos quais se destacam pela qualidade.

17:45 – Sessão “Narrativa em Videojogos”, com Nelson Zagalo, Ricardo Correia e João Campos

(Cheguei no final)

As restantes palestras de sábado

14:30 – Sessão “Identidades autorais”, com Ana Luz, Joel Gomes e Pedro Cipriano

Os autores aproveitaram o espaço para falar sobre o seu percurso enquanto escritores, desde influências a desenvolvimento de método (destacando-se a referência de Ana Luz ao conto O Teste de João Barreiros), mostrando os livros em que já participaram, bem como os projectos futuros em que se encontram envolvidos.

16:00 – Lançamento “Almanaque Steampunk” (Editorial Divergência)

Cada EuroSteamCon costuma ser acompanhada pela publicação de um Almanaque Steampunk. O deste ano foi produzido em tempo recordo com a colaboração da Editorial Divergência. Ainda não tive oportunidade de ler, mas a publicação é curiosa, bastante atractiva visualmente, com conteúdos diversos e que promete bastante diversão para o leitor.

17:45 – Sessão “Prémio Adamastor”, com João Barreiros e Luís Filipe Silva

O prémio Adamastor este ano foi atribuído a João Barreiros e Luís Filipe Silva, dois dos poucos autores de ficção científica portuguesa que se têm destacado na divulgação do género dentro e fora do país. De realçar as várias antologias que João Barreiros organizou recentemente, bem como as colecções que organizou enquanto editor. Por seu lado, Luís Filipe Silva tem participado em diversas Con’s onde fala da ficção especulativa portuguesa, divulgando o que se fez em Portugal há várias décadas e o que se continua fazendo.

18:00 – Sessão “Dormir com Lisboa”, com Fausta Cardoso Pereira

Premiado e publicado na Galiza pela Urco Editora, Dormir com Lisboa é um romance de ficção especulativa que decorre na capital portuguesa, partindo da premissa de desaparecimento injustificável de várias pessoas. A passagem lida por João Morales denota um humor peculiar, com caricaturas de personagens e situações insólitas.

18:30 – Lançamento “Apocryphus #2”, com Miguel Jorge

Este projecto de banda desenhada português apresentou, no primeiro volume, uma qualidade gráfica excepcional, com elevado cuidado no tipo de papel utilizado e uma selecção cuidada de autores. À semelhança do primeiro volume, também o segundo foi publicado no Fórum, com a presença de tantos autores que por pouco transbordavam do palco.

Restantes palestras de Domingo

Infelizmente, Domingo apenas pude assistir à palestra do João Morales, Novas Metamorfoses Musicais, para além de participar em As Escolhas do ano com João Barreiros e Artur Coelho (sobre a qual dedicarei uma entrada específica para publicar as escolhas de cada um, como é usual).

A sessão de João Morales demonstrou o usual bom humor, com óptimas escolhas musicais onde se cruzam estilos e épocas, novas conjugações de musicas conhecidas em que destaco as seguintes:

(Venus in Furs: Versão portuguesa em Uma Outra História)

No final, há a destacar que o Fórum Fantástico é um evento TOTALMENTE gratuito, onde, todos os anos, várias pessoas se organizam para proporcionar, ao público, três dias de extrema diversão geek!

A ficção especulativa em Portugal – 2016

Se o ano 2016 foi catastrófico em diversas áreas, na ficção especulativa, não sendo extraordinário, foi um ano muito razoável, ultrapassando o ritmo de 2015 e abrindo portas para um 2017 que promete.

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Tivemos poucas visitas estrangeiras, quando comparamos com 2015 (marcado pela presença de David Brin na Leituria e por Lauren Beukes e Fábio Fernandes em Outras Literaturas entre muitos outros) mas a presença de Brandon Sanderson em Portugal, vindo da Eurocon em Barcelona foi um sucesso que levou muitos à FNAC, bem como a de Carlos Ruíz Záfon na Academia das Ciências. Com menor assistência mas, para mim, de maior destaque foi a vinda de Zoran Zivkovic para o lançamento de O Livro. De nota, a presença de Ken MacLeod nos Mensageiros das Estrelas, evento mais académico dedicado à Ficção Especulativa.

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Olhando para os eventos regulares, Os Sustos às sextas tiveram uma segunda época de sucesso e estão já a preparar a terceira onde alguns detalhes mais literários aguardam o anúncio oficial. Resta-nos aguardar impacientemente! Também este ano o Scifi-LX pareceu mais consolidado voltando ao Pavilhão Central do IST com robots, jogos, livros, palestras e várias outras coisas muito geeks. O Fórum Fantástico também retornou ao espaço habitual, em Telheiras, com os usuais três dias carregados de eventos fantásticos – e já há datas para a edição de 2017 ( 29 de Setembro a 01 de Outubro). De temática não especulativa, Recordar os Esquecidos escorrega de vez em quando na ficção científica e na fantasia, destacando-se pelas tardes bem passadas no Saldanha, revendo livros e autores.

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Mas 2016 também foi marcado pelo aparecimento dos Devoradores de Livros, uma tertúlia mensal que termina em jantar, que decorre na Leituria e onde se fala sobretudo de livros de ficção especulativa, mas não só. Ainda em solo nacional, João Barreiros apresentou Viagem ao retrofuturo, e deu-se especial destaque a António de Macedo, com o filme O Segredo das Pedras Vivas no MotelX, e o divertidíssimo documentário sobre a sua obra, Nos interstícios da Realidade. Ainda na Península Ibérica, mas fora de Portugal, é de destacar a forte presença portuguesa na Eurocon de Barcelona, associada ao evento Scifi-Lx e à Editorial Divergência, com Luís Filipe Silva a marcar presença em vários painéis.

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A nível de publicações de ficção especulativa nacional, também não foi um mau ano, com o lançamento de Terrarium na Comic Con (mas apenas disponível nas livrarias a partir de 27 de Janeiro), de Galxmente de Luís Filipe Silva (nova edição), A Provocadora Realidade dos Mundos Imaginários de António de Macedo, Os Marcianos somos nós de Nuno Galopim, e da primeira antologia Cyberpunk portuguesa, Proxy, pela Editorial Divergência. Em caminhos mais internacionais, foi publicado um conto de um autor português, Mário de Seabra Coelho, na Strange Horizons!

Sem estranhar, a publicação de livros estrangeiros continua escassa e camuflada em etiquetas genéricas e pouco alusivas à ficção especulativa. Eis os que achei mais relevantes:

Sobre o ano de 2015, podem consultar a entrada equivalente, A ficção especulativa em Portugal – 2015.