A Vegetariana – Han Kang

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Considerado, pelo Publishers Week, como um dos melhores livros de 2016, foi inesperadamente publicado em português pela Dom Quixote. A combinação entre a cultura que nos apresenta (com subtis detalhes que denotam um pensamento diferente) e os elementos surreais, transforma esta história numa das mais estranhas que li nos últimos tempos.

A história apresenta alguns elementos de surrealismo, quase fantasia, roçando, talvez a loucura e a ilusão. Nada é certo e deixa-se algum espaço ao leitor para se perder nas interpretações possíveis. A estrutura é a de mosaico, mas simples, em que três personagens diferentes vão apresentando a sua versão enquanto acompanham a transformação de Yeong-hye.

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O marido, uma personagem de pensamento básico, tradicional, egoísta e irritante, gosta da normalidade em tudo o que o rodeia. Nunca se sentiu particularmente apaixonado, nem particularmente interessado na esposa, mas por isso mesmo a escolheu para uma vivência calma, rotineira e previsível. Até que acontece o impensável – a esposa vira vegetariana, mostrando asco à permanência de carne em casa e mudando radicalmente a alimentação de ambos em casa. Tudo por causa de um sonho.

O ponto de ruptura ocorre num jantar de empresa em que a recusa de comer carne resulta numa aberta hostilidade por parte de todos à mesa. Por sua vez, o marido sente apenas vergonha pela esposa que, ainda por cima, não se mostra minimamente arrependida pela quebra com a normalidade, numa apatia pela opinião dos outros que é, decerto, uma atitude desafiadora.

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Episódio após episódio Yeong-hye vai-se tornando cada vez mais irreconhecível por quem a rodeia, libertando-se de convenções sociais e mostrando-se cada vez mais fascinada pelo mundo vegetal. Usada pelo marido como esposa perfeita até ao evento que a distancia da normalidade, usada pelo cunhado como a fantasia artística tornada realidade, é, na parte final, pelos olhos da irmã, que não reconhece nela a pessoa com quem cresceu, que sentimos maior empatia.

As diferenças culturais unem-se à lenta alienação da personagem para impregnar a história de uma estranheza crescente que se consegue tornar em empatia na parte final, imediatamente antes de fechar com várias questões por responder. No final, ficou a ideia de uma leitura desafiante, não pela linguagem usada, mas pelo conjunto de ideias expostas, mas que falha pela falta de uma conclusão mais definitiva.

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