
Nomeado para melhor novela no prémio World Fantasy Award (perdeu para o Yoke of Stars de R. B. Lemberg) e prometendo uma fantasia negra no início do século XX que nos leva a uma vila do interior americano, psicologicamente isolada no seu preconceito, The Woods all Black não cumpriu com as expectativas. Tem bons momentos, mas a narrativa toma rumos imprevisíveis a meio que tornam o conjunto menos coerente.
A história começa por nos levar a uma pequena vila americana e preconceituosa, controlada por um padre fanático na sua interpretação religiosa, onde a presença de enfermeiros terá sido solicitada. No entanto, parece que o pedido não foi feito com a concordância da comunidade e, sobretudo do padre, que vê na presença do enfermeiro uma possível fonte de corrupção. Leslie, o enfermeiro, reconhecido como sendo uma mulher para os locais, mas de identidade masculina, algo que tenta não deixar demasiado óbvio numa comunidade carregada de preconceito, percebe rapidamente que não é bem vindo. Não só por vestir roupas mais masculinas (e ali percebidas como desviantes), mas por não se remeter ao esperado papel feminino de submissão. Adicionalmente, a presença de alguém com capacidades médicas pode retirar algum poder de controlo por parte do padre.
A narrativa começa por apresentar a comunidade fechada e as dificuldades que se apresentam a Leslie. Na sequência da sua presença ser rejeitada pelo padre, os locais evitam apresentar-lhe os temas médicos, mesmo em situações de vida ou morte onde poderia ser útil. O ambiente é pesado e hostil, havendo sempre alguém pronto a recordar-lhe o papel de submissão que lhe é esperado. A sua presença não é só rejeitada como Leslie é instigado a deixar a localização rapidamente, havendo ameaças pouco subtis.
Mas o que parecia uma história de resistência social, com contornos de terror ao indicar a existência de presenças suspeitas no bosque (talvez monstruosas), rapidamente sofre uma reviravolta ao encontrar alguém que também não é aceite naquela comunidade, apresentando-se cenas de sexo com contornos Hentai, pouco coerentes com a restante narrativa. A partir daqui, a história ganha uma progressão mirabolante, simultaneamente sangrenta e sexual que, não me chocando, tornou o desenvolvimento decepcionante.
The Woods All Black é assim uma leitura com bons momentos, pela forma como apresenta e desenvolve o ambiente hostil da comunidade por conta do padre que todos controla, mas que descarrila – não apresenta um crescente de tensão emocional e relacional que justifique a progressão, transformando-se repentinamente e tornando-se incoerente em tom e desenvolvimento, entre as duas partes.