
Este não é o primeiro conto de ficção científica a jogar com a preservação das memórias dos nosso antepassados para se poder ganhar vantagem estratégica e acumular conhecimento. No conto de Aliette de Bodard (On a red station, drifting) esta preservação de memórias e conhecimento (e até de personalidade) é feita recorrendo a implantes cerebrais que copiam a informação do nosso cérebro e assim podem ser passadas para as gerações seguintes. As pessoas ouvem as sugestões (ou quase ordens) dos mais velhos, opiniões que, culturalmente, têm grande valor.
No conto de Cixin Liu parte-se do pressuposto de que as memórias já são passadas, mas permanecem dormentes. Porque não activá-las ainda no útero e garantir que a nova criança tem um desenvolvimento muito mais rápido do que uma criança normal e aprende com os erros dos seus antecessores? Terá o novo cérebro capacidade para acomodar as experiências traumáticas e adultas da sua mãe? A experiência começa por parecer um sucesso. A criança revela-se capaz de comunicar ainda dentro da barriga da mãe, mas com o continuar da conversa algo parece estar muito errado.
O conto tem o ambiente típico de uma história em que o homem tenta ultrapassar a sua condição e imitar os deuses (ou a natureza) parecendo sombrio e roçar a heresia, mas a história acaba por chocar mais pela ideia do que pelo desenvolvimento. Fica a sombra de uma ameaça no ar, um caminho perigoso e traumatizante de se seguir numa história que explora mais os perigos do desenvolvimento do que o ultrapassar do medo e a procura de soluções.