Sonhos eléctricos – Philip K. Dick

A Relógio d’Água tem trazido novamente para o mercado português os livros de Philip K.  Dick, tendo começado por alguns dos mais conhecidos (e adapatados para cinema). No caso desta antologia os dez contos que contém serão os que foram adaptados para episódios de uma série com o mesmo nome, Electric Dreams, produzida em 2017. Acompanhando cada um dos contos encontra-se um texto introdutório escrito pelo responsável da respectiva adaptação para série televisiva.

Peça de exposição (adaptado para o episódio Vida Real), a primeira história deste conjunto, situa-nos num futuro distante em que se constrói uma exposição em torno dos hábitos americanos dos meados do século XX. O investigador que a estudou e construiu está tão obcecado pela exposição que se veste à época e se embrenha psicologicamente na casa fictícia exposta – mas no interior encontra algo bastante mais palpável do que esperava.

O Passageiro (adaptado com o mesmo nome) retrata o surgir de uma série de eventos associados a um local que era para ter existido mas nunca existiu, como um homem que pretende comprar um bilhete de comboio para a casa que tem nesse local e que se desvanece sempre que se mostra que tal local não existe.

Ambos os contos trazem um dos temas mais comuns de Philip K. Dick, mostrando jogos com realidades e tempos que oscilam entre o ficcional e o palpável. Em ambos se mostram outras possibilidades e as consequências de diferentes decisões no futuro. Se em Peça de exposição um homem reproduz de tal forma o passado que se embrenha nele e se põe em causa que alguma vez tenha vivido no futuro (fornecendo pistas ambíguas que suportam ambas as possibilidades), em O Passageiro duas realidades paralelas parecem sobrepor-se e induzir curiosidade a um homem que vê, também, a sua vida alterada.

 

Em O Planeta Impossível a premissa é pura ficção científica, demonstrando uma velhota que quer retornar ao Planeta Terra. Mas neste futuro distante a Terra é um mito distante, uma origem não provada da humanidade em que poucos acreditam. Ninguém parece querer levar a velhota ao planeta inexistente – mas o dono de uma nave ao ver a avultada soma disponibilizda pela velhota, resolve propor um plano.

O Enforcado retrata uma invasão alienígena que parece só ser perceptível por um homem! A história começa com o homem a visualizar um enforcado na rua ao qual mais ninguém parece reagir! Já O Pai-coisa é um bom conto de ficção científica de horror apresentando um invasor que toma a identidade do pai de um rapaz – unido a um amigo resolve tratar do assunto.

O que define um humano? É a grande questão que está por detrás do conto Humano É. Neste caso um homem desloca-se a outro planeta e retorna alterado. Mais do que os colegas, a pessoa que notou uma grande alteração foi a própria esposa. Se o marido antes era insuportável, pouco carinhoso, distante e, quase que agressivo, agora revela-se simpático e gentil.

Nestes três contos os seres humanos são algo diferente do que parecem, tendo o seu corpo sido tomado por outras entidades que se pretendem infiltrar na sociedade por razões bastante diferentes. Os dois primeiros contos são tipicamente terror, mostrando invasões mais ou menos conscientes, mais ou menos extensas. Já no terceiro a ocupação do corpo tem uma reviravolta mais agradável e irónica.

Entre os contos que exploram realidades, a sua percepção, e o que é um ser humano, encontramos contos que exacerbam o capitalismo e exploram técnicas de venda agressivas. Em Conversa de Vendedor o marketing torna-se tão agressivo que se impõe no espaço privado. São válidas todas as técnias de venda, até invadir a casa do possível comprador para lhe impor um novo produto. Este conto foi bastante criticado pelo seu final excessivo mas, neste momento, parece-me perfeito.

 

Em Foster, Estás Morto a Guerra Fria é usada como impulsionador económico. Depois das casas e dos carros, os membros da classe média americana são induzidos a comprar abrigos subterrâneios para resistir às armas nucleares que o inimigo terá produzido. Semana a semana surgem novas versões dos abrigos, versões que se vão tornando obsoletas com supostos novos avanços tecnológicos do inimigo. Ainda que seja uma história ficcional terá tido origem na indignação de Philip Dick ao ler, no jornal, uma sugestão, do Presidente em que poderia ficar a cargo dos cidadãos a compra e construção dos abrigos.

O Fabricante de Capuzes é um conto bastante diferente dos restantes e demonstra uma distopia onde os cidadãos são controlados até ao limite. De realçar que nesta realidade até os pensamentos são controlados, recorrendo a cidadãos capazes de ler a mente. Mas neste sociedade surgem alguns resistentes que distribuem anonimamente capuzes que isolam a mente. Eis uma história distópica de controlo e resistência que sofre uma típica reviravolta dickiana.

A colectânea termina com Autofab, um conto já publicado em Relatório Minoritário e outros contos. Autofab decorre num mundo pós-apocalíptico onde uma rede de máquinas mantém o fornecimento de uma série de bens. Esta rede de máquinas inclui fábricas com capacidades de auto-replicação e robots capazes de captar, da natureza, os bens (como metais), para a sua própria preservação e expansão. Os seres humanos que restam pretendem fechar esta rede de máquinas para poderem evoluir e utilizar, eles próprios, as matérias primas de que necessitam.

Depois de tentarem, sem sucesso, provocar um erro de sistema, indicando às máquinas um erro por elas desconhecido, optam por tentar fazer com que as fábricas compitam pelos menos recursos. Não se reconhecendo como sendo da mesma facção, as fábricas tentam responder às suas necessidades por recursos lutando pela retenção dos metais.

Este conto apresenta máquinas que se desenvolvem por si próprias, com capacidade para criarem novas e se inventarem consoante as adversidades que enfrentam, num ciclo sem fim, cego às necessidades iniciais que as originaram. As máquinas reconhecem apenas o objectivo claro e único para o qual foram criadas, sem perceberem a origem e o desaparecimento desse objectivo.

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