Do Androids Dream of Electric Sheep – Philip K. Dick

Se há livro famoso na ficção científica, será com certeza Do Androids Dream of Electric Sheep, muito embora tal se deva a ter servido de base ao filme Blade Runner.

A história decorre no ano de 2021, num planeta Terra que sobreviveu mal a um apocalipse nuclear. A radioactividade provocou a extinção de quase todas as espécies animais e os poucos espécimes que sobreviveram estão ao cuidado de seres humanos, que também escasseiam. Embora ninguém se recorde das causas da Guerra que gerou a libertação das bombas atómicas, os resultados influenciaram o futuro da espécie humana que emigrou em peso para o espaço. Os que persistem são os teimosos ou os fortemente lesados pela radiação.

Na origem da extinção animal massiva, os poucos seres humanos que continuam na Terra são moralmente obrigados a cuidar de um animal, de tal forma que, por vezes, se vêm obrigados a adquirir um animal artificial que cuidam como se de um ser vivo se tratasse. Mas se os animais artificiais são alvo de grandes cuidados, o mesmo não se pode dizer de um ser humano artificial, um andróide. Criados como mão de obra nas colónias, os poucos que existem na Terra são fugitivos que tentam fazer-se passar por humanos.

Rick Deckard é um caçador de andróides, um dos poucos seres humanos que continua na Terra. A sua mais recente tarefa é também a mais difícil, caçar um grupo de andróides de última geração, de elevada inteligência e praticamente indistinguíveis dos seres humanos. Para conseguir apanhar os andróides, terá de os submeter a um teste empatia, que mede o corar das faces, os movimentos oculares involuntários ou respostas emocionais a descrições de tortura a animais.

Por sua vez, John Isidore é um dos que sofrem os efeitos da radioactividade. Ainda que não possua mazelas físicas, a capacidade de raciocínio foi afectada, tendo por essa razão a alcunha de cabeça de galinha. Reparador de animais artificias, vive num prédio nos subúrbios, sem vizinhos, até que, um dia, distingue o som de uma outra televisão no seu prédio e descobre uma nova vizinha.

Num mundo deprimente sustido por programas de televisão duvidosos e máquinas manipuladoras do estado emocional, a diferença entre os andróides e os seres humanos é ténue. Ainda que sejam considerados apenas máquinas,  as consecutivas tentativas para viverem em liberdade como entidades autónomas, assim como o facto de apenas poderem ser distinguidos pela falta de empatia para com outro seres vivos, fazem com que sejam levantados alguns problemas morais, até para o próprio Rick Deckard.

Dadas as circunstâncias apocalípticas, somos levados a crer que a humanidade se rendeu a uma religião de empatia, baseada na melancolia e consequente cuidar de todos os espécimes vivos, criando-se uma sociedade depressiva que procura a redenção dos seres humanos. Existe ainda a descrição de colónias, fora da terra, baseadas na futilidade dos bens materiais, que justificam a construção de andróides como mão de obra barata. Estes mesmos andróides, ao matarem outros seres humanos para escapar à escravidão e ao serem incapazes de sentir empatia por outros seres são considerados quase que demoníacos.

Foi esta marcada categorização que, no fim, me provocou algum distanciamento crítico. Apesar de ter adorado o que li, não acredito que alguma vez a espécie humana se tornasse tão auto flageladora. Face aos seres humanos depressivos, é para com os andróides que senti empatia. Com uma esperança de vida restrita a quatro anos, embora sejam inteligentes, possuem a mesma maturidade que uma criança.

4 pensamentos sobre “Do Androids Dream of Electric Sheep – Philip K. Dick

  1. > Face aos seres humanos depressivos, é para com os andróides que senti empatia.

    O objectivo do PKD é precisamente esse. A humanização dos andróides em contraste com a desumanização das pessoas é um elemento-chave da escrita do Philip K. Dick, e uma preocupações que teve origem bem cedo na carreira dele (se não estou em erro, logo com “The Defenders”).

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