Relatório Minoritário e Outros Contos – Philip K. Dick

Eis um excepcional conjunto de contos! O que o torna excepcional não é só a qualidade de algumas histórias, mas o facto de serem, quase todos, estrondosos! Algo que ainda é de maior espanto quando sabemos que foram escritos entre 1953 e 1974 e que partem de premissas bastante simples que são levadas até às últimas consequências, algumas de forma irónica, demonstrando o ridículo da inteligência artificial ou o ridículo de seguir instruções sem capacidade de as questionar.

Esta colectânea começa com Segunda Variedade, um conto inteligente que decorre na guerra, mostrando que os seres humanos inventam mecanismos cada vez mais catastróficos para tentarem exterminar a facção oposta. Neste caso a luta é contra os russos e inventaram-se robots com aparência de verme que exterminam os que não estiverem marcados.

 

 

 

 

 

 

 

O problema é que as fábricas que constroem estes robots têm a capacidade de inventar variedades cada vez mais evoluídas. Não é assim de estranhar que um dia se receba uma mensagem dos russos para negociarem os termos da paz. O major Hendricks começa a sua caminhada, perspectivando a possibilidade de uma armadilha e quando encontra um rapaz carregando um urso de peluche, lá se deixa acompanhar pela criança taciturnoa e silenciosa – trata-se de um modelo robot que pretende o extermínio total dos seres humanos, modelo já conhecido pelos russos e que se sabe não ser o único. Falta identificar um modelo e até lá instala-se a desconfiança entre os poucos sobreviventes.

 

 

 

 

 

 

 

Tal como Segunda Variedade, também o segundo conto deste conjunto, Impostor, foi alvo de adaptação para cinema, se bem que nenhum dos filmes teve grande sucesso. No caso de Impostor, houve ainda adaptação para série, constituindo um dos episódios de Out of this World.

Um homem bem colocado militarmente é preso – os seus colegas julgam-nos um impostor, um humano substituído por um andróide que teria sido construído para não se aperceber dos seus próprios aspectos mecânicos e encarnar, na totalidade, o espécime. A caminho da lua, onde deveria ocorrer a execução, o homem escapa com um único plano em mente – provar que não se trata de um andróide programado para prosseguir com um atentado.

 

 

 

 

 

 

 

Um homem sai mais tarde de casa do que devia. O atraso, exacerbado por um agente de seguros que lhe bate à porta, fá-lo presenciar a desmaterialização do seu local de trabalho, levada a cabo por uma eficiente equipa de ajustamento que pretenderá reconstruir este pequeno pedaço da realidade.

Como seria de esperar, o homem entra em colapso nervoso quando se apercebe que é a ponta solta desta equipa e que poderá sofrer o mesmo destino que as pessoas do local onde trabalha. Em casa, a mulher convence-o a regressar ao trabalho, com o argumento de que teria alucinado. Mas uma vez de regresso apercebe-se de pequenas, quase imperceptíveis mudanças.

Adjustment Team é um conto relativamente curto que coloca em perspectiva a existência humana e a própria realidade. Até que ponto esta é controlada pelos seres humanos, ou até que ponto esta é imutável e viável, uma constante inalterável.  É, sobretudo, uma história irónica que explora a teoria paranóica de um homem e que questiona tudo o que nos rodeia.

Adaptada para um drama em formato áudio, Nesta Mortiça Terra contém inúmeros elementos religiosos mostrando uma realidade onde os anjos existem. Sílvia é uma rapariga que aprendeu a aceitar a sua presença tenebrosa – uma aprendizagem que os restantes só tarde de mais se apercebem que poderá ser catastrófica. É que os anjos, essas entidades luminosas e pouco angelicais (no sentido de bondosas e disponíveis para ajudar), pretendem fazer Sílvia evoluir para o próximo passo do hierarquia de energia e transformá-la num deles. Ao anteciparem esta evolução desequilibram as energias das fases envolvidas.

Autofab decorre num mundo pós-apocalíptico onde uma rede de máquinas mantém o fornecimento de uma série de bens. Esta rede de máquinas inclui fábricas com capacidades de auto-replicação e robots capazes de captar, da natureza, os bens (como metais), para a sua própria preservação e expansão. Os seres humanos que restam pretendem fechar esta rede de máquinas para poderem evoluir e utilizar, eles próprios, as matérias primas de que necessitam.

Depois de tentarem, sem sucesso, provocar um erro de sistema, indicando às máquinas um erro por elas desconhecido, optam por tentar fazer com que as fábricas compitam pelos menos recursos. Não se reconhecendo como sendo da mesma facção, as fábricas tentam responder às suas necessidades por recursos lutando pela retenção dos metais.

Este é outro conto que nos apresenta as máquinas que se desenvolvem por si próprias, com capacidade para criarem novas e se inventarem consoante as adversidades que enfrentam, num ciclo sem fim, cego às necessidades iniciais. As máquinas reconhecem apenas o objectivo claro e único para o qual foram criadas, sem perceberem a origem e o desaparecimento desse objectivo.

 

 

 

 

 

 

 

Adaptado para cinema, série televisiva e videojogo, Minority report é um dos contos mais conhecidos de Philip K. Dick. Como seria de esperar existem algumas divergência entre a adaptação cinematográfica e o conto. O chefe da divisão pré-crime recebe um homem mais jovem que o deverá acompanhar e aprender com ele. Trata-se de um homem escolhido por razões políticas. Nesse mesmo dia o chefe da divisão recebe a informação de que ele próprio será um assassino mas desconhece o homem que é suposto matar.

Na divisão pré-crime usa-se o potencial de seres humanos deficientes que se revelaram pré-cognitivos para diversos crimes. Apenas se age em relação ao assassinatos. As indicações são geradas pela combinação de três relatório, originando um relatório maioritário e decisivo. Com base neste relatório e antes que ocorra o homicídio, a divisão pré-crime actua e prende os futuros homicidas antes que ocorra o evento.

Este conto joga com a previsão de um futuro, mostrando as várias formas como o conhecimento da previsão pode influenciar esse mesmo futuro – seja porque ele pode ser evitado, seja porque pode ser reforçado mediante determinadas circunstâncias. Por outro lado, não pode deixar de se questionar a ordem de prisão a indivíduos que são potenciais homicidas mas que, não sendo um homicídio planeado, não têm, à data da prisão, qualquer intenção ou conhecimento das circunstâncias em que tal evento pode ocorrer.

Não é a única vez em que Philip K. Dick coloca adultos a usar bonecos como elemento recreativo para fuga à própria realidade. Se em Os Três Estigmas de Palmer Eldritch os adultos se encontravam num mundo desconhecido, distante da Terra, no caso de No tempo da Rita Catita o cenário é uma Terra apocalíptica em que os poucos seres humanos que restam permanecem em crateras, sobrevivendo à custa dos recursos disponibilizados por uma espécie sapiente marciana.

Enquanto os mais novos, adaptados à nova realidade, olham com algum desdém para a actividade dos mais velhos, os adultos refugiam-se no passado brincando com uma boneca, para a qual recriam os mais diversos luxos – restaurantes e helicópteros! O jogo decorre confrontando duas equipas de dois adultos, em que fazem a boneca evoluir social e economicamente.

Craig Moore – vejam outros projectos de ficção científica do autor – têm alguns fenomenais

Quando, os adultos de um grupo de sobreviventes descobre que, noutro grupo, usam uma boneca diferente, instala-se a curiosidade e a necessidade de um confronto – como será a outra boneca? Mais evoluída? Que roupas terá? Será mais adulta?

 

 

 

 

 

 

 

Se em Precioso Artefacto (um dos contos menos interessantes do conjunto) um homem regressa à Terra para a mudar e adaptar novamente aos seres terrestres depois de uma Guerra, tendo-o já feito em Marte, em Recordações por atacado (We Can Rember It for you Wholesale), são as paisagens marcianas que são ambicionadas por um homem que não tem esperanças económicas de alguma vez concretizar o seu sonho.

Desloca-se, assim, a uma empresa que poderá plantar, na sua mente, uma viagem fictícia que recordará como sendo verdadeira, recolhendo, até, recordações do que nunca existiu. O problema é que, após a implementação das memórias, percebe-se que este homem aparentemente pouco importante é, na verdade, um espião esquecido das suas façanhas que, com a alteração da memória, recorda o que realmente ocorreu.

A fé dos nossos pais é uma curiosa história distópica onde um burocrata jovem e ambicioso vive, no mesmo dias, dois eventos contraditórios em termos de possibilidades futuras: por um lado é convidado a executar uma tarefa que poderá garantir a sua carreira política, por outro é-lhe vendida uma estranha substância como sendo inócua, mas que revela o aspecto estranho do líder máximo naquele estado.

Surge-lhe então, nessa noite, uma jovem que informa que outros tiveram as mesmas visões, incoerentes entre si, mas reveladoras de que o verdadeiro aspecto do líder não seria o humano que todos viam.

Passado numa distopia em que persiste o controlo máximo do cidadão, este conto apresenta o confronto com algo maior do que a humanidade, algo que incorpora todo o mal e todo o bem.

Obra de João Ramos Filho

 

 

 

 

 

 

 

Adaptado para banda desenhada numa série do mesmo nome na Marvel, A Formiga Eléctrica acompanha Poole, um homem que descobre, após um acidente fabril, ser um andróide, um ser artificial construído com o intuito de reger uma fábrica. Chocado com a sua própria condição, explora os limites da realidade que percepciona, mexendo na cassete que supostamente lhe passa a informação do que o rodeia. Ao mexer na cassete o que vê efectivamente muda, mas será que o que muda é a realidade ou ele?

Este conto, como muitos outros de Philip K. Dick (e o anterior, A Fé dos nossos pais), explora os limites da realidade que percepcionamos – até que ponto podemos confiar nos nossos receptores ou até que ponto podemos confiar no que inferimos para nos influenciar? E será que após a ingestão percepcionamos a verdadeira realidade? E após a manipulação dos nossos receptores?

Outro trabalho de Craig Moore

O último conto do conjunto é Tenham pena dos Temponautas, onde um conjunto de viajantes no tempo (baptizados como temponautas) viaja uns dias para o futuro. Nesse futuro descobre que o regresso foi-lhes fatal e tentam descobrir o motivo para essa fatalidade. Lentamente começam a achar que estão presos num loop temporal e tentam quebrá-lo.

Relatório minoritário é um estrondoso conjunto de contos que demonstra alguns dos temas principais que Philip K. Dick também explora em obras mais extensas, como a continuidade do tempo e a percepção da realidade, sem faltarem as alusões a entidades quase divinas nas suas capacidade, entidades que não possuem o aspecto de velhote simpático e bondoso e que conseguem ser aterradores na forma como se expressam.

Relatório minoritário e outros contos foi publicado pela Relógio d’água.

Comentário a outras obras de Philip K. Dick

2 pensamentos sobre “Relatório Minoritário e Outros Contos – Philip K. Dick

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