Publicado este Verão, The Sleepless tem obtido algumas críticas bastante positivas pelo que se encontra nalgumas listas de novidades de leitura. Segundo a sinopse apresenta-nos uma pandemia! Mas neste caso, trata-se de uma pandemia não letal, sem causa identificada, mas que provoca a perda da capacidade de dormir nos humanos!

A história

Na realidade aqui apresentada, uma doença espalhou-se pela humanidade, sem que se saiba qual o elemento que a transmite. Sem vírus ou bactérias como culpados reconhecidos, a única consequência parece ser a incapacidade de dormir. Inicialmente a consequência social é o medo do desconhecido, sendo que os primeiros indivíduos afectados são colocados em quarentena. Os indivíduos não só não dormem, como parecem não apresentar efeitos secundários como cansaço ou perda de capacidade mental. Com o aumento de afectados, começam os movimentos sociais descriminatórios.

Mas este romance inicia-se já na fase de estabilização, ou seja, quando o número dos que não dormem é mais ou menos constante, aparecendo alguns raros novos casos. A história centra-se num jornalista de investigação afectado por esta doença, que vive num complexo apropriado para os que são como ele. A história começa com este jornalista a encontrar o seu chefe morto numa sala. Duvidando que se trata de um suicídio, o jornalista irá investigar a morte do seu mentor.

Crítica

The sleepless é um romance de ficção científica que se cruza com o género crime. A morte do chefe do jornalista faz com que este investigue por conta própria, até porque ele próprio se pode tornar um dos principais suspeitos. Não que tenha motivo para o assassinato, mas por existir cerca de uma hora na noite do crime da qual não tem qualquer recordação – e pelos vistos, esteve no local do crime nessa meia hora.

Este cruzamento de géneros permite explorar a premissa da pandemia de uma forma secundária mas essencial, através da lupa da resolução de um assassinato. Ao explorar as pistas, o jornalista vai detalhando alguns detalhes da sua vida, ou das circunstâncias em que vive e das interacções sociais. A sociedade parece ter deixado de descriminar por tendência sexual ou cor da pele, mas, em compensação, surgiram movimentos a favor e contra os que não dormem.

Por um lado, os que não dormem são alvo de inveja – o não precisarem de dormir ou descansar na mesma medida, permite-lhes aumentar o número de horas de trabalho e, consequentemente, os rendimentos. O não dormir também implica que já não precisam de ocupar uma divisão da casa com uma cama (ainda que estas ainda possam ser úteis para as interacções sexuais), que possuem mais tempo para a família, ou que podem usar o tempo extra a adquirir novas capacidades. Ainda que me questiono até que ponto algumas destas horas não seriam usadas apenas para procastinar, o tempo extra permite uma diferenciação positiva na sociedade.

Mas por outro lado, o aumento de número de horas acordado resulta, também, no aumento do número de refeições e na aquisição de mais bens. Consequentemente, aumenta o consumo e gastam-se mais recursos do planeta. Mas claro que este não é o único motivo para os movimentos contra os que não dormem. Os que não dormem possuem maior vantagem laboral, acabando por ser mais escolhidos para promoções – são, na prática, a materialização dos sonhos de qualquer capitalista extremo. Envolvendo todos estes motivos, encontram-se também movimentos religiosos e extremistas ecológicos.

Em resposta aos movimentos contra os que não dormem, surgem, por oposição, os movimentos mais extremistas a favor. Diria, até, supremacistas, que apoiam a elevação dos que não dormem a uma raça superior – menos sujeitos à necessidade de descansar, capazes de trabalhar mais horas e de atingir os seus objectivos, com mais tempo para adquirirem novas capacidades. Não é, assim, de estranhar, que tenham surgido, também, investigações científicas em torno da doença. E se algumas pretendem perceber os mecanismos que originaram a Pandemia misteriosa, outros têm como objectivo mimetizar a doença e transformá-la num comprimido que todos podem tomar mediante um preço.

Esta pandemia pode ser considerada como um momento determinante para a humanidade – o não dormir pode acelerar ainda mais o consumo, a produção e a economia, havendo necessidade de adaptação a uma nova realidade. Esta necessidade pode tornar-se ainda maior, se a proporção dos que não dormem (estabilizada antes nos 25%) poder crescer aos 100% através de meios artificiais.

The Sleepless é, assim, uma narrativa que explora vários aspectos da sua premissa. Inicialmente, mostra-nos uma pandemia inicialmente assustadora que, mesmo parecendo não ter consequências para a saúde, provoca receio nas populações. Explora, também, as vantagens desta nova condição, mas apresenta, em extremo, o aproveitamento dessa mesma condição por parte de empresários que pretendem expandir-se a todo o custo. Em contraponto, demonstra o mundo da investigação jornalística, sendo que existem precauções a ter nas investigações, não vá pisarem-se os calos da pessoa errada.

Mas muito para além destes detalhes, The Sleepless consegue ser uma narrativa movimentada, ainda que se centre apenas numa única personagem. O jornalista tem os seus próprios dramas pessoais, com um relacionamento amoroso mal resolvido, uma família de origens não americanas, e um trauma familiar pesado associado à morte de uma pessoa muito chegada. Estes elementos vão ser bem explorados, associado-os à linha narrativa e fornecendo detalhes indirectos sobre a sociedade em que se encontra.

É, portanto, uma leitura interessante que nos leva rapidamente de página em página, com uma história bem construída, seguindo o modelo de outros autores como Adam Roberts (By the pricking of her thumb ou The Real-Town Murders) ou Rosa Montero (Lágrimas na chuva ou Os Tempos do Ódio) que cruzam ficção científica com whodunnit. No entanto, The Sleepless debruça-se mais na investigação do crime do que na exploração da sociedade que cria, sendo que gostaria que o romance tivesse explorado outras perspectivas ou mais detalhes sociais.

Conclusão

The Sleepless é uma boa leitura de ficção científica que usa premissas já exploradas noutros romances do género (ao se cruzar com whodunnit, ou ao apresentar uma pandemia), criando uma história movimentada, com suficientes conflitos a nível pessoal (da personagem) e social para se distinguir. Não sendo extraordinário ou muito inovador, é uma leitura aconselhável com vários bons momentos e uma qualidade constante.