Animais difíceis é o quarto volume da série de ficção científica centrada em Bruna Husky, uma série que nos remete para um futuro à Blade Runner, mas que decorre em Espanha. A série iniciou-se com Lágrimas na chuva, revelando uma narrativa competente, carregada de elementos futuristas onde se criam replicantes, ou reps, seres humanos clonados com uma esperança média de vida bastante reduzida. No seguimento da libertação dos reps e da obtenção de alguns direitos básicos, Bruna, uma rep de combate, sobrevive como detective, investigando crimes que, tipicamente, a levam a encontrar tramas mais complexas do que um simples crime passional.
Sendo a profissão de Bruna o normal justificativo para apresentar uma narrativa carregada de acção, a verdade é que a história explora também outras perspectivas, próprios de um futuro deste género, questionando a influência das grandes empresas sobre a legislação e a política (que, neste caso, parecem estar acima da lei), a luta pelos direitos laborais e a igualdade entre os seres humanos. Não faltam alienígenas que se encontram no planeta Terra como exilados de Guerra, nem os seres humanos que vivem em territórios de contornos Mad Max.
Animais difíceis, tal como os volumes anteriores (O Peso do Coração e Os tempos do Ódio) explora também estes temas, bem como questões mais pessoais e psicológicas. Após os acontecimentos do volume anterior, a consciência de Bruna é transferida para o corpo de um Rep de cálculo. Com este corpo vêem novas capacidades mentais (como memória e, claro, cálculos mentais) mas também constrangimentos que a farão desenvolver problemas de aceitação do próprio corpo. O corpo de uma rep de combate é forte, optimizado para o confronto físico e bastante resistente, enquanto que o corpo de uma rep de cálculo é frágil, colocando Bruna na posição na qual não está habituada.
Ainda que esta transferência lhe tenha aumento a esperança de vida (a contagem é reiniciada), aos normais problemas existenciais de Bruna junta-se a adaptação ao novo corpo, que a leva a afastar-se das poucas pessoas de que gosta na sua vida. O processo de adaptação vai ser longo e vai ter impacto na personagem e na forma como aborda a nova investigação criminal para a qual é contratada. As pistas iniciam-se com a procura de um jornalista que investiga jovens desaparecidos – um deles que terá estado envolvido no mais recente atentado.


Partindo desta premissa, a história apresenta a prevista investigação movimentada, mas onde Bruna não consegue ter um papel tão activo e forte como nos anteriores, tendo de optar antes por estratégias mais subtis do que o confronto directo. Com a investigação das empresas percebemos que algumas entidades são demasiado poderosas, resguardando-se nas ligações políticas para se protegerem de perguntas. Adicionalmente, é directamente percebido que os políticos rodam, mas os responsáveis das grandes empresas permanecem, como uma espécie de nobreza sombria, que influencia e comanda sem que sejam expostos ao grande público.
A narrativa leva, também, a perceber a dura realidade dos que não vivem no chamado mundo civilizado – um conjunto de territórios ao estilo Mad Max onde o ar está contaminado, os nutrientes escasseiam, e onde alguns ricaços se dirigem para os explorar por escassos trocos. Aqui, todos aprendem a sobreviver de qualquer forma, havendo quem consiga escapar à miséria, mas com perturbações psicológicas.
Animais difíceis foca-se, também, nas questões psicológicas. Sobretudo nas de Bruna Husky. Se, já antes da mudança de corpo, existiam memórias e percepção difíceis de explicar para uma rep (e cuja origem é percebida durante a história), agora que existe como rep de cálculo, colocam-se questões de fragilidade que podem encontrar paralelismo noutras situações reais, do nosso mundo, onde, no seguimento de cirurgias, a aceitação do próprio corpo pode ser difícil. A par com isto, as novas capacidades levam-na a questionar a própria identidade, havendo elementos de inconsistência com a sua existência anterior.
Tal como os restantes volumes, a história apresenta um ritmo consistente, alternando episódios de investigação com outros mais pessoais, mas que, apesar do contexto futurista, consegue fazer-nos criar empatia suficiente com Bruna para termos interesse nas questões mais individuais que se focam nas suas questões psicológicas, mas também nos difíceis relacionamentos que tem. Em pano de fundo continuam as questões sociais e económicas, onde se encontram alguns alertas sobre o poderio das grandes empresas multinacionais. O cruzamento de todos estes elementos faz com que, tal como como os anteriores volumes, considere esta leitura uma das melhores no género da ficção científica que fiz nos últimos tempos.

