A Tempestade – Vladimir Sorokin

De capa minimalista e aspecto insuspeito este A Tempestade é uma história com elementos apocalípticos e fantásticos, com referências a várias criaturas sobrenaturais (nem que seja por serem geneticamente manipuladas), mas num ambiente de Rússia tradicional. Uma combinação estranha onde o absurdo tem um papel vincado.

A história

Um médico apressa-se a chegar a uma localidade onde uma estranha doença ameaça a existência de famílias trabalhadoras e honestas. O médico transporta uma vacina e, dada a urgência, tenta cortar caminho. Para tal, para numa vila para trocar de cavalos. Infelizmente, não há animais e o médico vê-se obrigado a pedir ajuda a um homem solteiro e peculiar que o leva no seu transporte, por entre estradas cobertas de neve. Pelo caminho, os dois homens passam a conhecer-se melhor, mas existem, claro, alguns momentos de tensão. O médico só pensa em chegar ao destino, mesmo que, para tal, se tomem algumas decisões pouco sensatas.

Assim, à primeira vista, poderia parecer uma história banal de dois homens que cruzam o interior do continente, enfrentando uma tempestade de neve. Mas, para além dos detalhes filosóficos que a narrativa vai apresentando, vamos percebendo que a realidade em que decorre a viagem não é assim tão normal. Os cavalos do transporte que têm de usar são minúsculos, ainda ainda existam outros do tamanho de casas que são usados para trabalhos pesados. A doença que assola a localidade distante transforma as pessoas em zombies e existe um exército deslocado para abater os infectados. Estes são apenas os detalhes iniciais. Ao longo da narrativa, outros aspectos estranhos vão aparecendo.

Opinião

A história alterna sobretudo entre a interacção dos dois homens (médico e condutor) e alguns pensamentos do médico. É portanto, uma obra com vários momentos introspectivos, que nos demonstra a forma de pensar do médico, com os diferentes estados pelos quais vão passando. O médico, apressado, está tenso e tenta impor pressão junto do seu condutor. Denota-se impaciência, alguma agressividade, bem como um sentimento de superioridade por parte do médico. O condutor, um homem que odeia a violência, vai conduzindo, e aceitando as sucessivas exigências, demonstrando um bom coração para com humanos e animais.

A postura dos dois homens contrasta e é o ponto central da narrativa. A sucessão dos eventos coloca-nos a pensar qual a abordagem mais positiva. Para reforçar este pensamento, a dupla vai encontrar produtores de uma droga maravilhosa, que leva quem a toma a questionar a sua existência e a dar valor à vida. Aprendizagem que, no entanto, parece ter sido absorvida pelo médico, mas que nem por isso se vai concretizar nas decisões mais acertadas. Por detrás da urgência e do sentimento de superioridade surge uma tendência para a violência que irá ter as suas consequências.

O ambiente contrasta com os elementos. Ainda que toda a envolvência nos recorde um ambiente mais rural, quase atrasado, percebemos que os cavalos de vários tamanhos surgiram por criação do homem e que outros elementos devem resultar e elevada tecnologia. Estes elementos dão, no entanto, uma aura de fantástico – não são totalmente explicados e vão surgindo como se se tratasse de um conto mais tradicional. O tempo é, no entanto, indeterminado, e consoante estes elementos vão aparecendo, mais dúvidas temos.

A Tempestade é uma história de contrastes. Por um lado contrasta um enquadramento mais tradicional com elementos semi-futuristas, por outro demonstra o contraste de atitudes, por outro, coloca a viagem em contraste com vários eventos imprevisíveis e bloqueantes para a progressão dos dois homens. Em qualquer destes aspectos, quanto mais vincado é um lado, mais o outro se denota e se destaca. Quanto mais austero se torna o ambiente, mais destaque ganham os elementos quase fantásticos. Quanto mais violento se torna o médico, mais se repara na passividade do homem que o conduz. Quanto mais focados estão na viagem, mais ocorrem imprevistos.

A leitura é estranha mas agradável. Estranha em ritmo – por um lado deveríamos estar perante uma viagem curta, mas que se torna tumultuosa, mas por outro, consegue existir alguma calma na viagem sobre a neve e existem passagens que relatam apenas pensamentos; Estranha em concretização – por um lado, temos uma viagem banal contra o tempo e a intempérie, por outro, surgem os elementos fantásticos; Estranha em estilo – por um lado temos o interior da Rússia (quase passivo), por outro temos a urgência do médico e os eventos que os impedem de chegar sucessivamente ao destino.

O resultado consegue ser irónico (num estilo pouco usual e indirecto) e relativamente fluído. A alternância entre a urgência da viagem e os vários acontecimentos permite manter ritmo na maioria das passagens, suspendendo-se um pouco nos momentos mais introspectivos que, sem se tornarem excessivos, nos levam a diminuir a velocidade de leitura.

Conclusão

Por detrás desta capa preta, sem caracterização ou sinopse na contracapa (ainda que exista na primeira página do livro) esconde-se uma leitura especulativa que pega nos elementos de romances russos tradicionais (as longas viagens pela neve) para tecer uma história diferente com alguns pingos de demência, que se torna numa boa leitura.

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