Dilúvio – Pona e Hervás

Visualmente agradável, este volume apresenta uma história auto contida que decorre num futuro apocalíptico em que o nível das águas subiu o suficiente para deixar de existir terra firme. Uma premissa que não é nova, mas que, estando acompanhada por boas imagens, me interessou o suficiente para experimentar.

A história

Num futuro longínquo e indeterminado em que quase toda a terra foi engolida pelas águas, a humanidade sobrevive submersa, procurando, nos restos de uma civilização, alguns elementos que lhe permitam a defesa ou a supremacia. Entre tecnologia bastante avançada encontramos naves espaciais e submarinos de grande capacidade, mas também mutantes e clones – o que resta da humanidade está dividida em facções, reconhecendo-se os ódios e preconceitos típicos que permitem matar outros seres semelhantes sem sentimento de culpa.

É neste cenário apocalíptico que acompanhamos um homem que explora as profundezas no seu submarino, descobrindo numa nave que se pensava abandonada, uma mulher. Esta mulher é pouco comum, possuindo vários implantes tecnológicos que lhe permitem controlar tudo o que esteja ligado a um computador. Assim consegue forçar o homem a desviar o percurso, controlando o submarino rumo de uma missão impossível.

Opinião

Uma das razões de ter adquirido este volume era o facto de a história ser auto contida e não querer iniciar outra série – já tenho várias em curso. No entanto, acaba por ser este um dos pontos fracos da história. Não tendo espaço para desenvolver contexto ou personagens, o pouco que conseguimos concluir do cenário é fascinante mas carece de detalhe para ganhar uma dimensão apropriada. Por sua vez, também as personagens acabam por não ter grande enquadramento, e a história prossegue dando mais força à acção do que ao entendimento de reacções e sentimentos das personagens.

Neste seguimento, sem se conseguir perceber vários acontecimentos, deduzimos que a civilização humana terá evoluído no caminho de criação de inteligência artificial, clonagem e alterações genéticas, construindo seres humanos (e animais) geneticamente modificados e conquistando o espaço. Depreende-se, também, apesar de não ser visível, a existência de algum tipo de sociedade – fala-se no valor monetário de alguma tecnologia redescoberta, dando e entender que existirão trocas comerciais e trabalho pago. Depreendemos, também, que o que resta da humanidade está dividida. A procura por tecnologia e bens é intensa, e cada encontro pode derivar num confronto armado e violento.

No entanto, a premissa aquática, combinada com a alta tecnologia e a criação de seres geneticamente modificados permite criar cenários fascinantes e detalhados – sem exorbitâncias imaturas, mas poderosas na sua magnitude. Em termos visuais descreveria como único defeito a elevada densidade de quadrados por página – em cenas de maior acção não proporciona a cadência necessária, enquanto que em momentos mais pausados quebra, por vezes, as magníficas paisagens. Apesar do desenho ser excelente, a planificação não me parece perfeita para acompanhar a história em todos os momentos.

Em termos narrativos, a história tem bons elementos. Existe um objectivo escondido de uma personagem que provoca a acção e justifica algumas batalhas. Existe um conflito entre as duas personagens principais (que, a meu ver, poderia ser melhor explorado). Mas sente-se falta de algo mais – por um lado, as duas personagens principais estabelecem uma relação demasiado rápido, por outro, existe um sentimento excessivo de bem contra o mal, que, dada a ausência de contexto nem sempre é convincente.

Mas estou a dar demasiado espaço aos pontos negativos. Apesar da planificação é uma história com grande movimento que consegue ter páginas formidáveis, quer pelos detalhes dos elementos que usa, quer pelas cores – ora intensas, ora esbatidas, conforme o enquadramento da história. A narrativa tem alguns pontos fracos, mas leva-nos pelos sucessivos episódios de acção, criando suficiente interesse.

Conclusão

Dilúvio é uma história agradável que entrega qualidade do ponto de vista visual. É uma leitura suficientemente boa para não me ter deixado irritada apesar do final algo aberto. Entrega movimento, conflitos morais e todos os elementos típicos da ficção científica com seriedade suficiente para nos levar pela narrativa, mas sem aquele sentimento de tão excessiva seriedade que se torna vazia. No final deixou a sensação de uma leitura razoável e composta, ainda que esteja a baixar na percepção com o decorrer do tempo pós-leitura.

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