A Faca que nos une – Patrick Ness

Este é o primeiro volume de uma série de ficção científica juvenil escrita por Patrick Ness. Deste autor tinha lido anteriormente Sete Minutos Depois da Meia Noite, uma forte história de horror, também juvenil, tendo gostado bastante. Este primeiro livro foi adaptado para cinema, tendo o filme sido lançado recentemente.

A história

Na realidade aqui descrita, a humanidade colonizou um novo planeta – mas o resultado não foi tão idílico quanto o imaginado. Todd é o único rapaz da sua cidade e está perto de se tornar um homem. Esta passagem é feita quando se faz os 13 anos de idade. O dia aproxima-se, mas com esta proximidade vem uma surpresa – Todd é afastado pelos pais adoptivos, com uma mochila às costas e instruções para fugir.

Neste novo mundo, terá existido uma guerra com alienígenas e um vírus que terá exterminado todas as mulheres. Sobram apenas os homens ou os rapazes que, em contrapartida, emitem todos os seus pensamentos. Esta partilha de pensamentos ocorre, também, com os animais, ainda que se mostram bastante mais simples.

Sem perceber porque foge, Todd encontra, pelo caminho uma criatura que não emite pensamentos – uma rapariga que terá vindo a bordo de uma nova nave colonizadora. No entanto, a nave terá despenhado, sendo a única sobrevivente. Os dois prosseguem caminho e Todd descobre que tudo o que lhe contaram sobre a história da humanidade naquele planeta estava errado.

Crítica

A história centra-se nos dois jovens, demonstrando a sua fuga ao longo deste planeta. Os homens da cidade original perseguem-nos com objectivos pouco claros (pelo menos até ao final do livro), seguindo um fervor religioso que os cega, mas que parece contaminar outros homens. Neste sentido, o autor consegue incutir o sentido de urgência, ainda que o motivo pareça, inicialmente, pouco justificado e pouco fundamentado. Este é um ponto que o autor vai revelando e explorando ao longo das mais de 400 páginas.

Apesar do ritmo de urgência, existe algum espaço para estabelecerem alguns laços. Os dois jovens desconfiam um do outro (a rapariga porque acabou de chegar, o rapaz porque nunca tinha estado com alguém de quem não ouvisse os pensamentos). Escondendo as suas origens vão sendo acolhidos ou ajudados, por vezes com desconfiança, noutras de coração aberto. Ainda assim, sente-se a necessidade de prosseguir viagem. Alguns dos homens adiantam-se ao grupo e continuam a tentar apanhá-los.

A escrita é relaxada e simples. O jovem Todd não tem escolaridade e mal sabe ler. Este detalhe tem implicações nos sentimentos expostos e no vocabulário que usa, bem como nas crenças não fundamentadas que expressa. Neste sentido contrasta com a jovem que acabou de chegar ao planeta, habituada a tecnologia mais avançada e a manobrar conhecimentos. A premissa dos pensamentos expostos é usada, sobretudo nos animais, havendo portanto passagens ainda mais simplistas e repetitivas.

A leitura é rápida. Entre a urgência presente na história e a escrita simples, a leitura prossegue rapidamente. Cria-se algum interesse pelas personagens, ainda que a motivação para a fuga de Todd permaneça oculta durante demasiado tempo, criando alguma desconfiança por parte do leitor relativamente à necessidade de urgência.

A Faca que nos Une, não sendo uma história de ficção científica extraordinária (como Philip K. Dick ou algum outro autor clássico) é uma boa leitura juvenil que apresenta elementos interessantes na criação daquele mundo. A colonização por religiosos que procuram um estilo de vida mais simples, a guerra com uma entidade alienígena que não é reconhecida por todos como evoluída, um vírus que força a abertura de pensamentos por de todos os seres – estes elementos são bem trabalhados ao longo da história e criam uma narrativa com elementos originais e ligeiramente exóticos. A parte da abertura de pensamentos tem consequências nos relacionamentos, existindo seres humanos que enlouquecem e outros que se adaptam.

O livro foi adaptado para cinema

Conclusão

A Faca que nos Une é uma leitura agradável e rápida, que se destaca pela simplicidade da escrita e ligeireza na passagem das páginas, mas que consegue usar premissas originais que são bem usadas para desenvolver relacionamentos e um contexto diferente. Trata-se do primeiro volume de uma trilogia pelo que não apresenta um final concreto, ainda que resolva alguns dos principais conflitos. Uma leitura aconselhável a novos fãs do género, mas que poderá não ser apreciada por quem gosta de narrativas mais maduras.

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