Eis que a dupla Jeff Lemire e Dustin Nguyen volta para uma nova série! Desta vez trata-se de uma série de horror que cruza elementos de ficção científica (apocalíptica) e fantasia.

A história

O livro abre com um grupo de crianças que se divertem a brincar no meio de uma cidade abandonada. Mas logo percebemos que estas não são crianças normais. Atiram-se de grandes alturas, sem receio das fracturas resultantes, ou recordam momentos longínquos que se calhar se repetem sem que o percebam. É que estas crianças são, afinal, vampiros e apenas temem a luz do dia.

Este grupo sobrevive na cidade à custa de pequenos roedores, repetindo os dias enquanto esperam por alguém com autoridade que terá comandado que permanecessem na cidade. Há quanto tempo esperam? Desconhecem. Mas tudo mundo quando, num dia, um humano aparece. E aqui percebem que há algo mais para além dos edifícios desertos por onde deambulam.

Crítica

Jeff Lemire volta a fazer a magia de conseguir, em escassos episódios, caracterizar de forma única cada uma das personagens. A quase adolescente que gosta de ouvir músicas, o quase adolescente com a guitarra que tem uma queda para a filosofia, a dupla de gémeos reguilas que se mete em apuros constantes… O autor consegue rapidamente mostrar, também, as interacções dentro do grupo e o seu dinamismo.

Depois de demonstrar o quotidiano repetitivo do grupo, introduz então o elemento modificador que irá desastibilizar a existência deste grupo de jovens vampiros. É que estas crianças nunca experimentaram sangue humano e há largos anos que não encontram humanos. Este encontro fá-los-à questionar tudo o que conhecem.

Tal como em Descender, ou Ascender, Jeff Lemire centra-se em personagens juvenis ou infantis, usando-as para criar maior empatia para com o leitor. Neste caso são crianças paradas no tempo que não progridem como crianças normais, para sempre presas no seu estágio de evolução. Esta estratégia para criar ligação funciona bastante bem, mesmo quando a verdadeira natureza das crianças se revela.

O cenário é apocalíptico. As crianças encontram-se numa cidade deserta, percebendo-se que terá existido uma doença que eliminou os humanos. Restam os edifícios por onde as crinças sobrevivem, abrigando-se do sol e procurando ratos para sobreviver. Quando se encontram seres humanos, percebemos que há algo mais, mas estes humanos parecem ter-se distanciado da civilização.

A história cruza elementos de horror, fantasia e ficção científica. Por um lado temos vampiros crianças, contando-se como é que se tornaram nestas criaturas, por outro, temos o cenário catastrófico de uma humanidade colapsada pela doença. Este cruzamento de elementos com personagens crianças resulta bem em criar algo inovador, dentro dos clichés de cada género (ficção científica apocalíptica, e histórias sobrenaturais com vampiros).

Em termos visuais, a história é acompanhada pelo característico traço de Dustin Nguyen, mas aqui com um traço mais definido, e com uma maior contenção nas cores. Os desenhos apresentam-se sobretudo a preto e branco, existindo o vermelho ocasional para destacar o sangue.

Conclusão

Ainda que Descender me tenha cativado bastante mais no primeiro volume, Little Monsters é o começo interessante de uma nova história. O cruzamento de elementos de ficção científica, fantasia e horror é original, criando uma leitura envolvente e inovadora nalguns momentos. Usa alguns (poucos) clichés na definição dos vampiros, mas de forma proveitosa e contida, facilitando a caracterização das circunstâncias. O resultado é muito bom e mal posso esperar pelo próximo volume.