Resumo de leituras – Setembro de 2019 (1)

65 – Monika – Thilde Barboni – Em torno de uma mulher de múltiplas máscaras, artista, capaz de se transformar de acordo com os adereços, Monika apresenta uma investigação que leva a jovem e um amigo a cruzar o caminho de perigosos grupos políticos. Paralelamente, o amigo de Monika desenvolve uma inteligência artificial que usa métodos de aprendizagem peculiares;

66 – Cadafalso – Alcimar Frazão – Uma séria de pequenas histórias pesadas num estilo sombrio;

67 – City of Miracles – Robert Jackson Bennett O último de uma belíssima trilogia onde o autor desenvolve a premissa de um Universo relativamente simples, mas de forma brilhante. Neste terceiro livro acompanhamos as personagens com uns bons anos a mais mas ainda capazes de algumas aventuras e acumulando toda a experiência adquirida ao longo do tempo;

68 – Vigilance – Robert Jackson Bennett Depois de ler vários livros de fantasia do autor, eis um mais voltado para a ficção científica que nos traz uma sociedade americana onde os tiroteios são regulados e autorizados – mediante cobertura televisiva, numa forma de apelar à aquisição de armas.

Anúncios

Assim foi – Worldcon Dublin 2019 – uma perspectiva pessoal

Foto oficial do Centro de Convenções de Dublin (edifício à direita)

Este ano a Worldcon foi em Dublin, num edifício que desafia a imaginação, quer em termos de formato, quer em termos de tamanho! Já o evento em si tem um tamanho inesperado – existem tantas palestras e actividades em simultâneo que cada visitante terá uma experiência única. Esta é a minha.

Infelizmente apenas pude estar no evento dois dias, Domingo e Segunda. A sensação, à chegada, é de um mundo à parte. A Worldcon ocupou pelo menos 6 pisos do centro de convenções, e cada piso tinha várias salas. Cada sala tinha uma lotação de 60 a 400 pessoas. E mesmo assim, existiam pessoas a ficar de fora consecutivamente.

 

Estive com pouca bateria durante o evento pelo que várias das fotos usadas nesta entrada foram disponibilizadas por Dan Ofer.

Exposições / comércio

O primeiro local a visitar é, claro, o piso térreo onde se encontram as bancas de comerciantes, as exposições e várias mesas de vários fandom. À entrada deparávamo-nos com este fabuloso DeLorean. Do lado esquerdo encontravam-se exposições, inclusivé uma do autor das capas da série fantástica The Elephant and Macaw Banner de Christopher Kastensmidt, Guilherme Da Cas.

Entre simuladores de pontes de comando de naves espaciais, encontramos bancas de todas as grandes editoras anglosaxónicas de ficção científica e fantasia! Mas não só! Também encontramos editoras mais pequenas mas marcantes no meio, bem como vários artesãos que vendem os seus próprios trabalhos.

Para além das exposições presentes neste edifício, existia outro (ao qual não tive oportunidade de ir) com um grande espaço dedicado a Lego.

Ainda que tivesse um tamanho considerável, esta zona foi a que, simultaneamente, me desiludiu e superou as expectativas. Comparando com a Eurocon Barcelona, e dada a quantidade de pessoas na Worldcon, esperava que a zona de comércio fosse maior e com mais oportunidades de compra.

A capacidade de organização

Eis uma componente que merece ser destacada. Sei que existiram várias queixas (quer relativas a festas com lotação máxima, quer relativas ao streaming dos prémios) mas, mesmo assim, foi uma questão essencial para que tudo corresse dentro do previsto.

Por razões de segurança, a assistência não podia ser maior do que a lotação da sala. De forma a garantir tal limitação, existia sempre, para cada sala, alguém responsável por garantir que as pessoas com falta de mobilidade entravam primeiro (existiam sempre lugares reservados) e que só entravam pessoas até serem preenchidos todos os lugares.

Tendo participado em duas palestras, assisti ao outro lado da organização. Para além de existir troca de pareceres algumas semanas antes do evento, na chegada era distribuído um envelope a cada participante. Este envelope continha um horário personalizado que indicava onde e quando teria de estar, bem como as regras de etiqueta a garantir durante as palestras. Era esperado que, meia hora antes da palestra, os participantes se reunissem numa zona reservada para trocar impressões e criar empatia.

Assim que entrávamos na sala já existiam etiquetas com os nossos nomes e um técnico de som. Para cada sala existia uma fila organizada que só prosseguia para a sala quando os “sinaleiros” assim o indicassem. No final, alguém alertava para os últimos cinco minutos. Assim se garantia que a palestra terminava a horas e que todas as pessoas saíam antes de poder deixar entrar para a seguinte.

Ninguém se aguenta sem comida

Existiam diversos pontos disponíveis por todo o edifício. O preço não era excessivo, mas também não era propriamente barato. Sim, eram muitas pessoas. Mas dada a quantidade de locais disponíveis, as filas para comer oscilavam entre 4 e 5 pessoas nos locais a que fomos.

Livros gratuitos

Alguns dos livros gratuitos disponíveis.

Não apanhei os dos primeiros dias, mas mesmo assim, eram vários. Podiam ser recolhidos numa zona própria (assim como pin’s e outros materiais publicitários de fandom, editoras e escritores) ou mesmo na zona de comércio.

Para além disto

Entre o cansaço, as palestras em que participei e alguns contratempos, não foi possível assistir aos espectáculos. Existiam actividades com desenhadores de jogos de tabuleiro, concertos, peças de teatro, bailes de máscaras, leituras e workshops. Ainda assim, descansámos os pés na sala de jogos de tabuleiro (no meu entendimento pequena para este evento mas com uma boa selecção de jogos).

Conclusão

Ir à Worldcon é ir na mesma escada rolante que o George R. R. Martin, cruzarmo-nos com Scott Lynch no corredor e trocar umas frases com Charles Stross ou Steve Jackson. É vermos dezenas de escritores de que gostamos, ao vivo e a cores, num só local. É percebermos que Joe Abercrombie tem um sentido de humor peculiar e que a fabulosa Jo Walton tem um discurso altamente inteligente. É falarmos com os editores de algumas das mais conhecidas editoras dos géneros da ficção especulativa, descobrirmos livros assinados nas bancas e ainda trazermos uns quantos gratuitos de autores que conhecemos. Nos intervalos de tudo isto descobrem-se outros fãs, exploram-se recantos e descansam-se as costas do peso dos livros.

Novidade: As serpentes cegas – Felipe Herñandez Cava e Bartolomé Seguí

Eis o volume desta semana da colecção Novela Gráfica publicado em Portugal pela Levoir em parceria com o jornal Público:

Felipe Hernandéz Cava autor de As Serpentes Cegas é considerado como um dos autores de comic mais importantes da sua geração pela sua contribuição para a renovação da banda desenhada espanhola.

O brilhante trabalho do desenhador Bartolomé Seguí já os leitores conhecem de Histórias do Bairro, editado pela Levoir e o Público em 2017 e da adaptação do romance Tatuagem, de Manuel Vázquez Montalbán, em 2018. Em As Serpentes Cegas, Seguí, que habitualmente usa o preto e branco vai usar uma paleta de cores, em especial o vermelho que dá à história uma grande expressividade.

Entre as várias histórias contadas em As Serpentes Cegas, podemos ver o início do Partido Comunista Americano e a perseguição a que os seus membros foram submetidos.

Um enigmático personagem, vestido de vermelho, chega a Nova York em 1939 e instala-se num pequeno hotel à procura de um tal Ben Koch, um espanhol que não respeitou um pacto. O dono da pensão, Red, diz que não tem notícias de Ben, o que o homem não acredita.  Decide esperar por ele, acabando por descobrir que Koch foi visto a destruir um túmulo com um martelo.  Qual o motivo da fúria de Koch? Também ele procura desesperadamente um indivíduo chamado Curtis Rusciano.

Pouco a pouco vamos assistindo à evolução deste personagem, descobrindo que Ben participou nas Brigadas Internacionais que combateram o fascismo durante a guerra civil espanhola. É com ele, que viajamos até à Barcelona de Maio de 1937, com os confrontos entre anarquistas e comunistas, e posteriormente, em 1938 a um dos cenários mais decisivos da guerra civil: A Batalha do Ebro.

Uma história de vingança com a Guerra Civil espanhola e a Grande Depressão em Nova Iorque como pano de  fundo.

Touch – Claire North

Em Touch de Claire North a premissa é simples – na sequência de mortes violentas existem fantasmas capazes de se apropriarem de um corpo e adquirirem consciência nesse corpo. Estas entidades vão saltanto de corpo em corpo, precisando, para isso, apenas de um contacto entre peles.

Kepler é um destes fantamas – um fantasma que prefere ocupar corpos com a autorização dos seus donos, estabelecendo acordos com prostitutas e drogados e dando-lhes novas vidas, novas identidades e novas possibilidades. Mas nem sempre tal acordo é possível e, por vezes, Kepler é obrigado a ocupar o primeiro corpo disponível, principalmente quando está a ser perseguido por uma entidade que quer terminar com todos os fantasmas.

A narrativa de Touch não é linear. Ora nos é apresentado um episódio da existência passada de Kepler, ora um episódio do conflito actual. Kepler viu-se perseguido e agora ocupa o corpo do homem que o tentou matar. Mas enquanto foge e tenta perceber a origem da perseguição, vão-nos sendo mostrados episódios de 1001 existências, desde ricas vidas ao lado de grandes paixões, à dura recuperação de dependência de drogas.

Ao longo da perseguição Kepler percebe que não é o único alvo.  A organização que o persegue já eliminou outros como ele e, ainda que tenha como alvo principal um fantasma conhecido pelos seus assassinatos violentos, Galiley, Kepler consegue perceber que Galileu conseguiu infiltrar a organização. A partir daqui Kepler tenta de tudo, desde alianças a outros fantasmas, à cooperação com outros seres humanos dessa mesma organização.

A premissa é simples e curiosa. Tanto quanto A Súbita Aparição de Hope Arden. Mas em Touch passa a ser possível seguir um caminho de maior acção, diminuindo o desgaste do desenvolvimento de vários episódios sob a mesma fórmula. Tal como em A Súbita Aparição de Hope Arden, a história é contada sob a perspectiva da mesma personagem, partindo do presente para apresentar episódios passados sob a forma de memórias.

Apesar de conter maior variação de episódios do que A Súbita Aparição de Hope Arden, senti que este Touch se alongou um pouco mais do que o necessário para apresentar a história global, possuindo alguns episódios pouco significativos que se tornaram mais difíceis de ultrapassar. Ainda assim é uma leitura agradável e recomendável, tanto pela ideia simples, como pelo desenvolvimento dessa mesma ideia.

Monika – Thilde Barboni e Guillem March

De capa provocadora e centrado numa mulher que se mascara e parece alterar a personalidade,  Monika é mais do que uma capa bonita, laivos de futurismo e de erotismo apesar do início carregado de cliché – uma beldade aluada que procura a irmã desaparecida, ao lado de um amigo de longa data que a ajuda e protege sem rodeios. Rapidamente percebemos existirem vários traumas familiares que, simultaneamente, unem e separam as irmãs.

Em poucas páginas a história adquiri mais profundidade e sentido, constituindo uma narrativa com vários episódios carregados de erotismo e acção que lhe dão um bom ritmo – o amigo encontra pistas que ligam o desaparecimento da irmã a um político em ascensão e Monika mascara-se para se fazer convidar para uma festa secreta onde este estará.

O que se sucede é o expectável. Monika aproxima-se do político com sucesso, atrai e é atraída. O tal político não será responsável pelo desaparecimento da irmã, mas acabam por se apaixonar apesar do relacionamento baseado em mentiras. Paralelamente, o amigo de Monika, que é uma espécie de cientista informático na clandestinidade atiça os inimigos errados e Monika constrói o seu projecto de arte que envolve explosivos – razão suficiente para ser, indevidamente, envolvida em atentados.

Visualmente agradável, a história de premissa quase vulgar, destaca-se pela forma como explora, tangencialmente, outros temas. Por um lado encontramos o desenvolvimento de uma Inteligência Artificial, recorrendo a métodos que pretendem mimetizar a aquisição de conhecimento de um humano. Por outro, encontramos obsessões políticas que se radicalizam rapidamente.

A investigação e as performances artísticas levam Monika a diferentes ambientes onde se mascara e parece adquirir uma nova personalidade. Com a máscara adquire-se uma nova atitude em espaços diferentes, que conferem diferentes nuances visuais. No seu estado natural Monika apresenta-se mais aluada e sensual pela simplicidade no penteado e no vestir (simples, mas subtilmente revelador). Já na festa os desenhos corporais e a pouca roupa, justa, conferem um aura mais cortante e uma consciência sedutora.

O desenvolvimento de uma inteligência artificial é um dos elementos de maior destaque no enredo, apesar de ser justificado por um facto cliché – o amigo de Monika é um cientista escondido que procura desenvolver novas invenções. Depois de um interface com um cérebro verdadeiro constrói-se um micro-sistema de eléctrodos para que o córtex motor consiga captar movimentos. O resultado é um andróide capaz de acção e julgamento – ainda que esta vertente não seja explorada em toda a sua potencialidade.

Monika é uma banda desenhada visualmente agradável que usa diferentes estratégias visuais para destacar alguns elementos (como cenários em que se destaca uma única cor). O foco do desenho e a sua coloração varia bastante ao longo da narrativa, reflectindo o estado de espírito a que corresponde. Ora se destaca a sensualidade da protagonista, ora a forma como não é mais do que um elemento na paisagem. Em termos narrativos é uma história interessante, com elementos futuristas mas que não chega ao patamar do excepcional.

Monika foi publicado pela Levoir em parceria com o jornal Público.

Novidade: Como uma Luva de Veludo Forjada em Ferro

O nono volume da colecção Novela Gráfica deste ano (publicada pela Levoir em parceria com o jornal Público) é Como uma Luva de Veludo Forjada em Ferro. Eis mais informações deste volume fornecidas pela editora:

Como uma Luva de Veludo Forjada em Ferro, tem argumento e desenhos de Daniel Clowes. Volume 9 da colecção Novela Gráfica que a Levoir e o Público editam a 29 de Agosto, foi publicado originalmente em 10 capítulos (entre 1989 e 1993) na revista Eightball, antes de ser publicado como novela gráfica.

Daniel Clowes nasceu em Chicago, estudou arte no Pratt Institute no Brooklyn, em Nova York, é vencedor de inúmeros prémios, incluindo mais de uma dúzia de Harveys, os prémios profissionais dos comics, e seis Eisners, o galardão máximo da BD americana. É também vencedor de um prémio literário PEN. Estreou-se como caricaturista com uma história na revista Love & Rockets (de Jaime e Gilbert Hernandez). Actualmente é um dos nomes mais significativos dos comics alternativos norte-americanos. A atmosfera noir das suas histórias tem influenciado uma geração de cartunistas e artistas gráficos. Conhecido no nosso país pelas suas obras mais realistas, como Mundo Fantasma, os leitores portugueses irão descobrir aqui um dos seus mais estranhos e surreais livros.

Tendo já sido descrita como “uma assustadora jornada de loucura”. Esta novela é, na verdade, uma história policial cheia de reviravoltas narrativas, muitos toques grotescos e momentos de puro horror. Ao assistir a um estranho filme, com o título Como uma Luva de Veludo Forjada em Ferro, no final do filme o jovem Clay Loudermilk reconhece na protagonista, a actriz Barbara Allen, a figura da sua ex-esposa desaparecida alguns anos antes.

Decidido a encontrá-la, consulta um guru que tem todas as respostas e atende as pessoas na casa de banho do cinema porno, que lhe diz que o filme pertence à produtora Interesting Productions do Dr. Wilde situada numa cidade próxima, Gooseneck Hollow.

Decidido a encontrá-la, Clay ruma à cidade onde o filme foi produzido. Pelo caminho encontra gente estranha, entre freaks, extra-terrrestres ou uma seita feminista violenta liderada por um homem, entre outras.

Como uma Luva de Veludo Forjada em Ferro não é uma obra fácil e provavelmente não agradará a todos, mas é uma experiência que deve ser provada nem que seja para poderem apreciar a forma como o autor conseguiu expor artisticamente a perturbação humana.

Vigilance – Robert Jackson Bennett

Enquanto espero pelos próximos livros de fantasia do autor (todos formidáveis até ao momento) resolvei pegar numa temática algo diferente – uma história de ficção científica que decorre num futuro bastante próximo e que parte do pressuposto que o actual medo instigou à legalização de tiroteios organizados e alvo de programa televisivo.

The heart of the matter was that from the beginning, America had always been a nation of fear. Fear of the monarchy. Fear of the elites. Fear of losing your property, to the government or invasion. A fear that, though you had worked damn hard, some dumb thug or smug city prick would either find a way to steal it or use the law to steal it.

Usando o medo no qual os Estados Unidos da América se fundaram, vários locais públicos são levados a indicar a quem os frequenta que, a qualquer momento, pode ocorrer um tiroteio. Legal. Organizado por um programa televisivo. E que dá grandes prémios aos atiradores seleccionados que consigam sobreviver, ou a quem é apanhado na confusão e consegue matar os atiradores. A ideia é de que a população se deve manter sempre vigilante, e transportar consigo, sempre, uma arma.

Quem lucra com isto? Por um lado, quem produz armas. Por outro, o programa televisivo que, com grandes audiências, vende publicidade a preços elevados. Os tiroteios passam a dar-se em condições mais controladas, sendo seleccionados elementos que denotem características de loucura que os podem levar a tal acto. Os espaços em que decorrem são barrados e qualquer pessoa que lá se encontre é impedida de escapar.

É uma história dura. Apesar de não pertencer, à partida, ao género do terror, torna-se terror pela forma como nos mostra a manipulação da audiência, e a instigação do medo à população do que pode acontecer a qualquer momento. Através do canal televisivo todos seguem a chacina, alimentando esperanças de que, se lá estivessem, rapidamente despachariam o atirador.

Ainda que os tiroteios sejam reais, bem como as mortes, muito do que ocorre é manipulado pelo programa televisivo. A hora do tiroteio é determinada pela audiência que se encontra ligada ao televisor. A aparência dos apresentadores do programa é aperfeiçoada para corresponder ao ideal para uma determinada população. As armas dos atiradores são escolhidas pelos próprios mediante um arsenal do programa. Mas não só. No decorrer do próprio programa as feições das vítimas são alteradas para parecerem menos ou mais estrangeiros, os atiradores são aliciados para determinados locais, e é usada uma inteligência artificial que dá pequenos toques que garantem que quem está a ver o programa é incapaz de parar de o ver.

Vigilance fala de uma forma de escape de violência, legalizando-a e alterando-a para proveito próprio. Os tiroteios passam a ser algo usado para proveito próprio, com toda uma indústria que os alimenta e produz, utilizando a linha ténue entre o fascínio pela violência e a instigação do medo. Intercalando os cenários mais impensáveis de violência alienada, o autor tece algumas considerações interessantes sobre a sociedade que seria capaz de produzir tal aberração, mostrando como o medo é usado para temer não só o outro (que vem para o nosso país para nos roubar) mas para temer, até, o vizinho do lado. Reina a desconfiança nesta sociedade onde até as diferenças geracionais, e o sentimento de culpa pela poluição e alterações climáticas, podem ser usadas para sentir fascínio pelos atiradores mais jovens, viris e capazes de empunhar uma arma:

“And that was what had happened – each time the youngster generations had said “this is hurting us” the elders had cried, “you dumb, ungrateful kids! You think that’s hurting you? We’ll just do it twice as much, then!”

Acima de toda a violência, reina um sentido de alienação. As vítimas dos tiroteios decerto não poderiam ser o espectador do programa – que decerto estará sempre atento e preparado, de arma em punho para defender a sua família de uma possível ocorrência.

Máquinas Como Eu – Ian McEwan

Depois de expostas algumas considerações sobre o género da ficção científica eis que posso falar, então, um pouco sobre o livro. Máquinas como Eu decorre numa Londres alternativa dos anos 80. Em que difere esta realidade? Bem, Turing não morreu, desenvolvendo novas invenções que anteciparão o avanço tecnológico dos computadores e da inteligência artificial. A Inglaterra perdeu a Guerra das Malvinas (ou Guerra do Atlântico Sul) – um conflito armado contra a Argentina nas Ilhas Malvinas, Geórgia do Sul e Sandwich do Sul (entre os dias 2 de Abril e 14 de Junho de 1982). O conflito tinha por base a soberania sobre os arquipélagos austrais. No Reino Unido da nossa realidade, a vitória no nosso confronto terá sido decisivo para Margaret Thatcher obter a vitória nas eleições de 1983.

Na realidade de Máquinas como eu, as invenções de Turing permitiram um maior desenvolvimento da Inteligência Artificial e no início dos anos 80 desenvolvem-se os primeiros andróides – seres artificiais de aspecto humano capazes de raciocínio e pensamento, de captar informação do que os rodeia, de agir sobre esta informação e de construir os seus próprios modelos da realidade.

Charlie, a personagem principal, é um daqueles jovens que tem algum dinheiro deixado pelos pais e que passa os dias a investir na bolsa. Fascinado pelas últimas inovações tecnológicas, apressa-se a comprar um dos novos andróides que possuem 1001 adaptações para se parecerem com humanos e causarem a empatia equivalente. Apaixonado pela vizinha com quem sai regularmente, Charlie decide-se a partilhar, com ela, a definição do carácter do andróide – não faltam, claro, os paralelismos com o criar um filho, numa versão mais simplista.

O relacionamento a três é estranho. A máquina vê-se a si própria como um indivíduo, com a capacidade de amar e de agir de forma autónoma, enquanto que os humanos o vêem como uma curiosidade – capaz, inteligente, mas demasiado naive e alienado dos relacionamentos humanos, ainda que se diga, também ele, apaixonado.

Independentemente do andróide, algo que se destaca na narrativa é o relacionamento amoroso entre os dois humanos. Um relacionamento que se apresenta pouco honesto e até conflituoso, que envolve duas pessoas que, em vários episódios, não sabem manter o respeito mútuo e que parecem possui a maturidade de dois adolescentes. Sim, existe uma cena de sexo com o andróide. Mas sendo este percepcionado como uma máquina, não é exactamente neste ponto que defino a existência de falta de respeito. Charlie, a personagem principal, procura atingir os seus fins à base de enganos e mentiras e as conversas nem sempre são racionais.

Este ponto é essencialmente importante porque estes dois seres humanos, demasiado emotivos e pouco dados à capacidade de se verem na pele do outro num relacionamento a dois, vão abrigar um andróide – um ser altamente racional e lógico que não percebe os conflitos éticos quando as leis se confrontam com os sentimentos. Sim, o andróide diz estar apaixonado. Mas até nessa suposta paixão age de forma directa e racional. Quase sempre.

Assim se confronta a máquina com a humanidade. Talvez por esse motivo o autor tenha criado duas pessoas tão emotivas, como forma de as confrontar com a máquina – pessoas com passados, com acções irracionais baseadas em emoções e, sobretudo, que precisam de tomar decisões e que colocam outros aspectos no prato da balança. Os sentimentos e as emoções têm forte peso, bem como as promessas feitas aos falecidos.

E em que patamar deve ser colocado um andróide? Parece um ser humano, parece agir como um. Mas terá o mesmo valor nas considerações éticas e sociais? Sexo com um andróide deve ser considerado ao mesmo nível que sexo com outro humano? Será apenas uma máquina que satisfaz o humano? Terminar um andróide é o mesmo que matar um ser humano? Qual o valor que têm os sentimentos artificiais de um andróide, quando comparados com os sentimentos fabricados biologicamente de um humano? A comparação com um andróide leva-nos a questionar a própria essência do que é ser humano e do que é um ser vivo – em que patamar está um andróide.

Para além do confronto homem-máquina, aqui exposto em ambiente doméstico, em pano de fundo desenvolve-se o futuro do trabalho com a robotização. Ainda que o andróide de Charlie seja destinado à convivência humana, desenvolvem-se outros que têm como objectivo substituir os humanos nas suas tarefas mais rotineiras, começando com a recolha do lixo. E quem deve lucrar com a robotização das nossas tarefas? A humanidade num todo, agora livre para perseguir ocupações mais imaginativas ou as organizações que assim acumulam maior riqueza, levando-se o resto da humanidade à precariedade?

Máquinas como Eu debruça-se sobre tudo isto enquanto desenvolve a narrativa em torno de um trio amoroso criado pelos dois humanos e um andróide. As páginas escorregam em frases fáceis de percepcionar, que se vão focando, ora nas personagens, ora na sua própria percepação da realidade. As acções dos humanos nem sempre são lógicas e compreensíveis fazendo com que a minha empatia pelas personagens fosse diminuída – mas compreendendo que este modo de agir pode ter como principal objectivo o contraste com o andróide.

Trata-se de uma narrativa ligeira, passada numa realidade alternativa com divergências que poderiam ser sido mais exploradas no ponto de vista político. O romance segue um homem comum num mundo diferente, numa premissa que pouco traz de novo ao que já foi feito na ficção científica, tanto do ponto de vista psicológico, como tecnológico, ainda que seja uma leitura leve que se possa aconselhar a quem pretende uma leitura pouco densa em referências científicas.

Afinal o que é Ficção Científica – algumas considerações

Pretendia rever o livro Máquinas como Eu de Ian McEwan. Mas a negação do rótulo de ficção científica para este livro pelo próprio autor, levou-me noutro sentido. Pelo menos por enquanto. Quando vários autores, sucessivamente, escrevem livros futuristas ou em realidades alternativas e rejeitam, veementemente a categoria de ficção científica, levanta-se a questão – afinal o que é a ficção científica? Até onde, quem não conhece suficientemente o género, sabes do que está a falar quando se refere à categoria? E, mais importante, afinal, o livro é, ou não, ficção científica?

Ao contrário do que pensa a maioria, o género não é constituído apenas por narrativas com naves no espaço, sendo que naves no espaço pertencem quase sempre ao sub-género Space Opera. Ainda que, inicialmente, o género da ficção científica fosse atribuído apenas a histórias que se baseiam em novas tecnologias e que partem de conceitos científicos (conhecida como Hard Sci-Fi), a verdade é que hoje o selo abrange distopias e utopias, histórias num futuro imaginado ou, até, histórias que decorrem numa realidade alternativa, mesmo que os seus autores não tentem explicar, cientificamente, a existência ou as divergências destes mundos.

Sim, o rótulo de ficção científica tem sido rejeitada por alguns autores. Questiono-me se estaremos perante uma questão, tão portuguesa nalguns casos, que associa falta de seriedade às deambulações do género. Ou à recordação de histórias mais pulp que, ainda que de leitura divertida, não são de qualidade narrativa excelente. Seja qual for o motivo, existem alguns exemplos de língua portuguesa que rejeitam o género, como O Último Europeu de Miguel Real ou Lenguluka de Onofre dos Santos.

No primeiro caso o autor refere que se trata de um tratado filosófico. E não percebo como tal pode fazer com que o livro não seja ficção científica. Decorre num futuro longínquo. Possui tecnologia avançada e constrói uma civilização com consequências dessa tecnologia, mostrando as suas implicações e objectivos primordiais. A tecnologia não existe apenas porque sim, mas com o objectivo de libertar a humanidade dos constrangimentos orgânicos.

Mas deambulo. Vamos, então pegar nos significados existentes nas enciclopédias.

 “A ficção científica (por vezes referida como Sci-Fi ou simplesmente SF) é um género da ficção especulativa que tem sido chamada de “literatura de ideias”. Tipicamente envolve imaginação e conceitos futurísticos como ciência e tecnologia avançadas, viagens no tempo, universos paralelos, mundos ficcionais, exploração no espaço e vida extraterrestre. Frequentemente explora as possíveis consequências de inovações científicas.

A ficção científica, cujas raízes podem ser encontradas nos tempos mais antigos, tem relação com a fantasia, o horror, a ficção de super-heróis, e inclui muitos subgéneros. No entanto, a sua definição exacta tem sido longamente disputada por autores, críticos e académicos.”

Traduzido da Wikipedia

E o que são, afinal, mundos ficcionais?

“Um universo ficcional, ou um mundo ficcional, é um cenário consistente com eventos e frequentemente outros elementos, que diferem do mundo real. Também pode ser conhecido como um reino (ou mundo) imaginado, construído ou ficcional. Os universos ficcionais podem aparecer em novelas, banda desenhada, cinema, programas televisivos, jogos de computador ou outros trabalhos criativos.

Um universo ficcional pode ser quase indistinguível do mundo real, excepto pela presença de personagens inventadas e eventos que caracterizam o trabalho de ficção. No outro extremo, pode ter pouco ou nenhuma semelhança ao mundo real, com princípios inventados de tempo e espaço.

O termo é usado comummente em universos ficcionais que diferem marcadamente do mundo real, tal como os que introduzem cidades ficcionais inteiras, países ou, até, planetas, ou os que contradizem factos conhecidos sobre o mundo ou a sua história, ou aqueles que contém conceitos de fantasia ou ficção científica, como magia, viagens mais rápidas do que a luz, e, especialmente, aqueles em que o desenvolvimento deliberado do cenário é o foco principal da obra.”

Traduzido da Wikipedia

Para não me acusarem de usar definições que me dão jeito, eis mais delimitadora do género (diria castradora e de vistas curtas, mas enfim), sendo que se referem, na realidade a sub-géneros da ficção científica.

 “Livros, filmes, ou desenhos sobre um futuro imaginado, especialmente sobre espaço ou outros planetas”

“Um tipo de escrita sobre desenvolvimentos imaginados em ciência e os seus efeitos na vida do futuro. “

Traduzido do diccionário Cambridge

Estas últimas são, no meu entendimento, definições simplistas. Mas eis mais algumas:

“Ficção científica, muitas vezes denominada sci-fi é um género da literatura ficcional cujo conteúdo é imaginativo, mas baseado na ciência. Baseia-se fortemente em factos científicos, teorias e princípios como suporte para os seus cenários, personagens e narrativas, sendo isto que faz diferir (o género) da fantasia.”

Traduzido de Termos Literários

Segue-se, no mesmo local, uma adição interessante de Ficção científica Suave (soft science fiction):

“A ficção científica suave é caracterizada por um foco nas ciências sociais, como Antropologia, Sociologia, Psicologia, Política – em outras palavras, ciências que envolvem o comportamento humano. Assim, histórias de ficção científica suave endereçam sobretudo as possíveis consequências científicas do comportamento humano. Por exemplo, o filme animado Wall-E da Disney é uma história de ficção científica apocalíptica sobre o fim da vida na Terra por resultado da negligência do homem pela natureza.

Na verdade, a maioria das obras usa uma combinação de ficção científica dura e suave. A suave permite que a audiência se conecte a um nível emocional, e a dura adiciona evidências científicas reais para que possam imaginar o acontecimento da acção. Portanto, a combinação das duas resulta numa melhor técnica para contar histórias porque deixa que a audiência se ligue à obra em dois níveis. A ficção científica também tem um número infinito de sub-géneros, incluindo, mas não apenas, viagens no tempo, apocalíptico, utopias / distopias, história alternativa, Space Opera e Militar. “

Julgo que este ponto explica a inclusão, no género, de narrativas com menos elementos de engenharia ou de física, e que se debruçam mais nas componentes humanas de um possível futuro, ou confronto com a tecnologia. Como Máquinas Como Eu. Um livro que decorre numa realidade alternativa em que os humanos conseguiram construir androides com uma elevada inteligência artificial, capazes de aprender e apreender do que os rodeia, de conversar e pensar filosoficamente sobre o que são. Nesta possibilidade, como seria o convívio de um ser humano com estes androides? Assim se desenvolve Máquinas como eu, mostrando a inclusão de um androide num núcleo familiar pouco definido.

O Rasto de García Lorca – Carlos Hernández e El Torres

García Lorca foi fuzilado. Entre as facções políticas da Guerra Civil Espanhola, Lorca (sem grandes traços políticos de qualquer sentido) acaba por ser catalogado na secção errada. Mas, afinal, quem era García Lorca? Se, outros livros, tentam encontrar o autor fazendo uma biografia, nesta banda desenhada, procura-se o espaço deixado pela sua morte – tanto na cidade, como nos amigos.

Figura afável, bem disposta e dotado de várias capacidades artísticas, Lorca é recordado como uma pessoa de fácil trato que brilha em qualquer meio artístico. Recolhe-se, assim, a percepção de breves conhecidos e de grandes amigos para criar a imagem de um homem que faleceu demasiado cedo.

O primeiro retrato é a memória de uma criança que viu um grande amigo desaparecer. Com o seu desaparecimento a família foge, pela noite, tentando sobreviver à passagem entre diferentes facções militares. O nome do escritor acaba como escondido por todos os que o conheceram e admiravam. Escondido por medo e por saudade, escondido por causa da Guerra Civil e pelos efeitos que teve na população espanhola.

De teor bastante diferente do outro livro do autor publicado em Portugal (O Fantasma de Gaudí), O Rasto de García Lorca baseia-se numa figura real e nas circunstâncias que rodearam o seu desaparecimento, bem como no espaço que deixou, no vazio entre amigos e conhecidos.

Fantasmas da Mente – Paul Tremblay

Livros de terror que envolvem exorcismos não costumam ser a minha leitura habitual. Ainda assim, este foi muito bem recomendado, e tem recebido excelentes críticas internacionais, pelo que me senti curiosa. O que encontrei é uma história sobre uma adolescente possuída, contada, quase sempre, pela perspectiva da irmã mais nova.

A família Barrett está em processo de degradação económica. O pai, desempregado e desocupado desespera, enquanto a mãe constitui o único sustento da família. Os problemas que começam a surgir são, à primeira vista, os típicos de um agregado em tais condições. A frustração dá lugar a brigas entre o casal e as filhas tentam lidar com a situação isolando-se ou criando os seus próprios mundos.

Merry, a filha mais nova, começa a aperceber-se que a irmã está estranha quando, numa normal sessão em que inventam contos, a história que é proferida é de horror – mas real, citando um acontecimento histórico em que várias pessoas terão ficado presas num mar de melaço e falecido tragicamente. Seguem-se as ameaças e os períodos de transe em que Marjorie, a mais velha, refere ouvir vozes antigas que lhe darão conhecimentos estranhos.

Desesperado, o pai procura, na religião, uma salvação. Por sua vez, a mãe prefere recorrer à ciência mas, não havendo melhoras visíveis com os medicamentos, cede ao acompanhamento por padres com vista a um exorcismo. Em cima de todo este processo, a família é levada a assinar um contrato televisivo para fazer parte de um reality show, prevendo-se que todos procedimentos sejam filmados e visualizados a nível nacional.

Com o programa televisivo expõe-se o problema familiar. Chegam os manifestantes e começa o ostracismo da família na comunidade. A escola torna-se cada vez mais difícil. Mas, ao menos, o dinheiro flui e podem finalmente comer outra coisa para além de massa. Entre operadores de câmara e manifestantes, a vida das jovens torna-se ainda mais isolada e estranha. Merry sente que a irmã mais velha se torna o foco da vida familiar e tenta fazer amigos entre os operadores do programa televisivo. Marjorie tem crises cada vez mais fortes, mais violentas e aterradores e ainda que diga a Merry que tudo não passa de fingimento, as suas justificações são pouco convincentes.

A história centra-se, sobretudo, na visão infantil dos acontecimentos, dada por Merry. Esta visão é alternada por pequenos episódios de uma Merry adulta e por entradas num blog em que se relata um parecer sobre o reality show. Mesmo com todos estes elementos ficamos sem perceber se é suposto acreditarmos numa possessão ou apenas numa crise psicológica – são-nos fornecidas pistas em ambos os sentidos e todos os elementos são dúbios.

O que percebemos, com certeza, é que o ambiente familiar se degrada a passos largos. A religião não fornece o apoio necessário ao pai que age de forma irregular. A mãe refugia-se na bebida, arrependida por ter cedido o espaço privado às câmaras e por ter cedido à prática do exorcismo. Paira uma sensação de impotência que quebra todos os envolvidos, mas, sobretudo, os progenitores – incapazes de tornar a filha saudável e de tomar as decisões correctas (se é que as existem).

Sem apresentar uma versão definitiva dos acontecimentos, Fantasmas da Mente é um page turner, uma história que nos impulsiona a querer saber o que acontece e que consegue surpreender, apesar das pistas que antecipam os episódios determinantes. Trata-se de uma premissa bastante simples, até vulgar, que cativa pela forma como é desenvolvida. No final, podemos fazer várias interpretações – mas qualquer uma delas é inquietante.

Fantasmas da mente foi publicado em Portugal pela TOPSELLER e venceu o prémio Bram Stoker de 2015. Curiosamente, na sessão de The Politics of Horror (Worldcon 2019) o livro foi referido por ser um bom exemplo de crítica social que subverte O Exorcista.

Resumo de leituras – Agosto de 2019 (1)

61 – Osso – Rui Zink – Tal como a Instalação do Medo, este livro do autor decorre num espaço fechado, baseando-se na totalidade na conversa entre duas pessoas, neste caso, um homem preso por tentativa de terrorismo e o seu interrogador. A conversa desenvolve-se, por vezes de forma circular resultando numa maior comunicação entre os dois do que o interrogador pretende. O final tem traços fantásticos, apesar de toda a restante narrativa não ter elementos fora do comum;

62 –O Rasto de García Lorca – Carlos Hernández e El Torres – Enquanto outras narrativas tentam reconstituir o autor através da biografia, esta narrativa centra-se no vazio que o artista deixou nos amigos e na sua terra de origem. Trata-se de uma narrativa em que o artista é, sobretudo, uma figura ausente e se caracteriza exactamente por essa ausência;

63 – Fantasmas da Mente – Paul Tremblay – Uma narrativa curiosa de horror que conta, pela perspectiva de uma menina, os transtornos psicológicos da irmã que se julga possessa. A própria narrativa não tenta impor uma interpretação sobrenatural, deixando  no ar pistas para todas as dúvidas possíveis;

64 – Punk Rock Jesus – Sean Murphy – Este volume da colecção comemorativa dos 25 anos da Vertigo apresenta o retorno de Jesus pelas mãos da ciência. Numa espécie de reality show é explorado este retorno, com a apresentação de uma jovem inseminada com aquilo que se julga ser o clone de Jesus. O responsável pelo programa determina a educação do menino e controla todos os que directa, ou indirectamente, participam – com consequências catastróficas.

Nenhuma máquina seria capaz disso – Eugene Lim – Granta Futuro

“No futuro, teremos que ser tão interessantes para a IA quanto nossos bichos de estimação são para nós.”

O texto, mais centrado em episódios pessoais da autora do que necessariamente no Futuro, conta como conheceu um conceituado académico que dissertava várias vezes sobre o assunto. Fazendo-lhe a pergunta mais banal e directa recebeu esta resposta. O texto prossegue levando-a a um episódio em que estará a cuidar de um animal de estimação e o sentido da frase finalmente se revela.

Trata-se de uma abordagem mais pessoal ao tema em que, basicamente, a autora revela que, sobre o assunto, raramente pensa, e que a principal ideia que tem sobre o assunto proveio de um especialista no tema.

Worldcon Dublin

Estarei aqui nos próximos dias, entre palestras, pedidos de autógrafos e muito mais. Por esse motivo (e por causa das férias) o blogue terá um período de pausa. Aproveito também para informar as palestras das quais farei parte:

The Politics of Horror – Domingo, dia 18 de Agosto, 12:00-12:30

Participantes: F. Brett Cox, Rosanne Rabinowitz, Charles Stross, eu.

Is horror political? Should it be? How do the metaphors of horror map onto social and political concerns? What creators are using horror to engage with the contemporary political climate right now?

Games for Science – Segunda, dia 19 de Agosto, 11:00 -12:50

Participantes: Tom Lehmann, Steve Jackson, Bob, eu.

STEM-inspired games have been growing and getting more popular in recent years, with Pandemic as one of the most well-known examples. Board and video games now cover biology, evolution, and terraforming Mars. We’ll look at the use of science in games and how it can encourage interest in science and engineering game designers and players discuss this trend.

 

 

 

City of Miracles – Robert Jackson Bennett

 

Bem vindos a uma das mais fabulosas trilogias de fantasia! A Cidade das Escadas transforma-se, neste livro, na Cidade dos Milagres! Entre divindades desaparecidas e restos de milagres, subsistem os filhos dos Deuses, esquecidos de quem são. Órfãos e abandonados que procuram, nas famílias humanas, uma nova história.

De volumes independentes, esta trilogia apresenta-nos um mundo em que duas civilizações distintas estiveram em guerra – uma baseada na magia e outra na tecnologia. Venceu a da tecnologia, mas com um preço elevado para o mundo em que se encontram.

A premissa é razoavelmente simples (sobretudo no primeiro volume) mas eficaz. Mas o que torna esta trilogia excepcional são as personagens e o enredo. Nenhuma personagem é totalmente boa ou má (sendo que as piores acções são justificadas) ainda que estejamos, claramente, a torcer pelo lado mais humano. Já o enredo fornece as necessárias reviravoltas que permitem um bom ritmo de episódios de acção.

As personagens

Neste volume a personagem principal é Sigrud. Ex-espião, com um treino militar extens, Sigrud é a personagem principal e é através dele que seguimos a maioria dos episódios. Apesar da passagem dos anos, mantém um aspecto relativamente jovem enquanto aguarda por melhores dias enquanto lenhador (tem a cabeça a prémio e a profissão permite-lhemanter-se escondido). Ao saber da morte de Shara – uma ex-colega de missões com a qual tinha um relacionamento especial – sai rapidamente do disfarce, determinado a eliminar todos os que estejam envolvidos.

Shara, para além de também ter recebido treino para espiões, já era, nos volumes anteriores, uma figura politicamente relevante. Aquando da morte era ministra. Tendo tido um papel importante na morte dos deuses, a par com Sigrud, teria agora um programa de proteção de crianças que é muito mais do que parece.

O Enredo

Os Deuses morreram. Mas não os seus filhos. Transformados em crianças, de memória apagada, são órfãos entre os humanos e procuram novas famílias com as quais possam crescer e criar memórias. Mas alguns, acabam por acordar desta ilusão e recordam-se de quem eram e dos poderes que têm. Tal como os deuses, cada criança tem um domínio próprio – mas bastante mais pequeno.

Entre estas crianças existe uma, Nokov, que teve uma vivência especialmente sofrível. Torturado, consegue fugir. A dor e o medo transformam-no numa espécie de adolescente revoltado que usa os seus poderes em crescimento para caçar as outras crianças divinas a fim de lhes captar os poderes. O seu reino é a noite e o seu plano é simples – fazer retornar o mundo à noite eterna para que não haja mais dor.

Nokov é a pessoa por detrás da morte de Shara e a criança divina que Sigrud irá tentar enfrentar. Nokov percebe que Sigrud é mais do que um comum moral, mas não tem o conhecimento necessário para o enfrentar em campo aberto.

A Cidade das Escadas

A cidade de Bulikov é o palco das principais batalhas. Depois de longas viagens no tempo e no espaço em que se cruzam montanhas de neve e se explodem algumas casas (apesar do treino de espião, Sigrud não é muito subtil) a grande luta decorre nesta cidade.

Bulikov já nos tinha sido apresentada no primeiro volume. Capital do Império controlado pelo divino e construída sobretudo por Deuses, mantém as longas escadarias depois dos edifícios terem desaparecido com a morte das divindades. Destacam-se, também, as muralhas que a rodeiam. É uma cidade marcada pelas memórias da Guerra que com ela levou civis e levou ao colapso deste Império. Triunfou a civilização que assentava na Tecnologia.

Neste volume, regressamos a esta cidade – agora recuperada e em expansão, uma cidade que não cabe nas suas muralhas e que ameaça expandir-se para além destas. Ainda assim, dado ter sido a capital dos deuses, mantém restos de milagres – passagens secretas e mistérios que poucos mortais ousam transgredir.

Resultado?

Estas quase 500 páginas de emoção e reviravoltas marcam o final de uma trilogia fabulosa – uma trilogia que permite leitura independente de cada um dos seus volumes. Pegando numa premissa interessante, um mundo que confronta duas civilizações (uma baseada na magia e outra na ciência) e em que a história é escrita pelos vencedores (claro), o autor desenvolve, de forma coerente, os fenómenos que ocorrem com o desaparecimento dos deuses, justificando, neste volume, alguns elementos que encontrámos nos volumes anteriores.

Trata-se de uma história com um final expectável, mas, por isso mesmo, satisfatório do ponto de vista narrativo, coeso com o que acompanhámos ao longo da trilogia. Existem heróis (falíveis) que nos fascinam e envolvem. Heróis que enlouquecem e se precipitam, revelando-se, sobretudo humanos. Heróis que se apaixonam e que, apesar de enfrentarem guerras e múltiplos inimigos, não assumem as suas paixões e receios.

Sim. Existem algumas falhas. Ou melhor, detalhes que poderiam ser limados de outra forma. Senti que, a meio, alguns episódios causam reviravoltas em excesso – algo que já tinha sentido com outros livros do autor. Mas este detalhe é facilmente ultrapassável quando chegamos, finalmente, ao auge da tensão narrativa – e ao contrário de alguns autores, este auge não se apressa, estendendo-se devidamente como necessário para fechar, de forma coesa todos os pontos.

Sim – este livro será facilmente uma das minhas sugestões de leitura deste ano.

Outros livros do autor

Oh que cousas grandes e raras haverá – Álvaro Domingues – Granta Futuro

Já tinha sido avisada que pegar numa antologia sobre futuro de autores que pouco ou nada sabem de ciência seria complicado. O aviso concretizou-se logo neste primeiro texto. Entre deambulações sobre a postura religiosa com “o futuro a Deus pertence” e um sermão de padre António Vieira o texto é uma sucessão de referências, umas mais coerentes do que outras.

Mas se ficasse por aqui, o texto até se lia bem, contendo uma série de exemplos de posturas passadas em relação ao futuro. O problema começa quando o autor se atreve por caminhos mais científicos, questionando teorias científicas com argumentos que pouco ou nada têm de tal:

“Na sequência do relatório veio a saturação até à náusea do discurso sobre o futuro do desenvolvimento sustentável, do equilíbrio ambiental, e da presunção, sabe-se lá fundada em quê, de juntar a tecnologa, a economia, a eficiência, a competitividade, a justiça social, o crescimento económico, a ganância do lucro e do dinheiro… (…)

O planeta é muito dado a instabilidades, é esse o seu segredo. O resto são fantasias. Alain Badiou disse que a ecologia era o novo ópio do povo, uma espécie de religião, uma verdolatria.

O argumento é leve. Indirecto. Mas deixa mau sabor e desconforto científico. Seguem-se novas referências a exposições e a cinema em que o autor realça o actual desencatamento pelo futuro e o desgosto que sente pelo algoritmo:

“O algoritmo é como o adivinho, os oráculos, o pensamento e a acção apoiados simplesmente na jazida intensa dos dados, dos padrões, das correspondências, uma espécie de adivinhação artificial, como a dita inteligência (…)”

Este é o primeiro texto do conjunto e demonstra como alguém com autoridade num ramo científico pode tentar, de forma excessiva, exercer essa mesma autoridade noutros ramos. O texto tem pontos de interesse, mas julgo que seria bastante mais interessante o autor usar o seu conhecimento de planeamento e urbanismo para tecer considerações sobre o futuro urbano.

Duke – Vol.1 – A Lama e o Sangue – Hermann & Yves H.

No Faroeste impera a lei da bala. E a febre do ouro. Este primeiro volume de Duke leva-nos a uma cidade mineira onde a personagem que dá nome à série é ajudante de xerife. Trata-se de um homem sério que tem um pequeno romance com uma mulher de um bordel local – uma mulher para quem a presença na cidade mineira já ultrapassou os limites aceitáveis e que pensa em melhores locais para viver.

Nesta cidade mineira, a história apresenta-nos um homem pobre, um mineiro que regressa a casa após o trabalho. Mas o seu descanso irá durar pouco, interrompido por vários pistoleiros que obedecem às ordens do dono da mina. Quando encontram, em casa deste mineiro, algumas pepitas de ouro escondidas, castigam-no matando a família.

Esta será a ocorrência que irá justificar os restantes acontecimentos da série. A morte destes inocentes irá provocar a revolta de um grupo de mineiros que se vira, finalmente, contra os pistoleiros e tenta a fuga. Sem sucesso. Após presenciar a morte cobarde dos mais fracos Duke irá tentar fazer justiça, mesmo contra as ordens do homem mais rico da cidade e sem a ajuda do Xerife.

Visualmente agradável, este primeiro volume de Duke mantém um bom ritmo através de vários episódios de acção que decorrem em cenários detalhados (algo que tem sido abandonado por alguns artistas como forma de expressar, no desenho, a velocidade da acção). Mas não esperem pessoas de aspecto agradável. O Faroeste não era um lugar idílico para se viver, e as personagens apresentam o desgaste real de tal vivência.

Tanto devido ao tema da série (Faroeste seguindo uma personagem justiceira), tanto pelo estilo (francobelga com publicação pela mesma editora), é impossível não comparar Duke a Bouncer. Mas Duke parece-me, por este primeiro volume, menos violento, um pouco mais pausado (apesar de estar carregado de acção) e mais contido no choque ao leitor. Duke apresenta uma personagem principal que parece, neste volume, mais humana que Bouncer, pelo menos na forma como lida com as restantes personagens. Bouncer centra-se numa personagem que parece incapaz de sair do mesmo ciclo de violência. Já Duke parece seguir em frente, para novos percursos.

Duke é uma série publicada em Portugal pela Arte de Autor.

Mataram a Cotovia – Harper Lee e Fred Fordham

Começo por referir que ainda não tinha lido o romance original. Apesar de estar na minha biblioteca por ler há algum tempo. Já me tinha sido referido como sendo um bom retrato das cidades interiores americanas das décadas de 30/ 40. O que não esperava era o contraste. A história é contada pela perspectiva de crianças e da forma como se apercebem das diferenças sociais na sua pequena cidade. Existe, claramente, uma hierarquia que é determinada não só pela quantidade de gerações em que essa família vive na cidade, mas pela riqueza e pela cor da pele.

A história começa como a apresentação das férias juvenis. Com o Verão vem o tempo desocupado e a dupla de irmãos, Jem e Scout, inclui, nas suas brincadeiras, o vizinho que parece ter uma imaginação sem fim  – tanto para criar ficções nas quais se divertem, como para criar episódios ficcionais na sua própria vida. Não é de estranhar que o trio se volte para a casa mais singular da cidade – uma casa que dizem estar assombrada, mas que afinal é habitada por alguém que nunca de lá sai. Como desconhecido, a figura que vive nesta casa passa a ser temida. Ultrapassar o portão é mostrar coragem e é claro que, nestas idades, os jovens se desafiam para ultrapassar os limites da propriedade.

As aulas recomeçam. Com elas ausenta-se o rapaz vizinho, mas apresenta-se uma nova professora. Quando, à hora de almoço, um dos rapazes aparece desprovido de almoço, Scout, a irmã mais nova, apressa-se a explicar que tal não é estranho, dada a proveniência familiar do jovem. Razão para Scout levar umas quantas reguadas. Assim começa, na escola, a caracterização das familias que habitam naquela localidade, em que cada uma tem um papel definido: as boas famílias, os agricultores pobres, aqueles que vivem à margem da lei (através de subsídios e em condições miseráveis), e os pretos (que não têm direito a ir à escola).

Esta caracterização vai sendo aprofundada de forma indirecta ao longo da história, mas atinge o auge quando o pai de Scout e Jem, advogado, defende um jovem de uma acusação de violação. Scout e Jem começam a ser gozados pelos colegas – o jovem que o pai está a defender é preto. Respondem, claro, agressivamente, sem perceberem, na prática, o que estão a defender, ou do que está a ser acusado o pai. Os ânimos exaltam-se e até homens bons se unem para tentar fazer ver ao advogado o erro de prosseguir com a defesa – irritados pela confrontação da palavra de um preto contra a palavra de um branco. As designações de raça existem e têm como objectivo impôr, ao leitor, a visão da época.

Utilizando o ponto de vista das crianças, a história consegue ser percepcionada sem a força de todas as barreiras sociais que realmente aqui estão em jogo. As crianças já entendem estas barreiras mas não lhes dão maior importância do que à justiça. O pai, advogado, é uma personagem correcta que não deixa de defender o que é correcto – nem quando a irmã faz questão de aparecer para tentar impor normas mais femininas à menina.

Vencedor de um Pulitzer, trata-se de um romance mais complexo do que parece. Complexo por toda a dimensão social que transporta. O caso de tribunal acaba por quebrar a inocência destas crianças que se deparam com a injustiça baseada na cor da pele, as inevitáveis diferenças económicas e com as diferentes expectativas para o crescimento de um rapaz e de uma rapariga. Tratam-se de elementos que quebram a visão da sociedade e do crescimento – a das personagens e a do leitor.

Mataram a Cotovia foi publicado em Portugal pela Relógio D’Água, tratando-se de uma edição pouco habitual para esta editora. Em termos de edição nota-se que a lombada não tem o tamanho apropriado para o número de folhas (um dos cadernos está colado fora desta).

Novidade: Cadafalso – Alcimar Frazão

Tal como Entre Cegos e Invisíveis de André Diniz, este livro foi lançado durante o Festival de Beja, mas só agora  chega à distribuição comercial. Eis a sinopse, bem como uma página de exemplo fornecida pela editora:

Nascimento, universo religioso, juventude, mundo do trabalho e morte são os temas presentes no corpo desta obra, e para abordá-los Alcimar Frazão transporta-se no tempo e no espaço, bebendo referências das artes visuais, da literatura e da filosofia existencialista. Nessa viagem, ora se movimenta por uma Florença do século 16, numa busca violenta pela imagem da perfeição; ora destila cinismo sobre a guerra civil e a sua má sorte na Barcelona de 1937; ora perde o compasso da percepção do tempo na urbanidade de São Paulo, no início dos anos 2000. Uma Porto Alegre contemporânea é o cenário do último conto, o único em que o personagem ao qual Frazão empresta a sua forma cede o protagonismo a outro: um homem de meia idade com uma visão muito particular sobre sua própria grandeza diante da fragilidade humana. Em Cadafalso, os personagens tentam a todo o custo sobreviver.

 

Resumo de leituras – Julho de 2019 (4)

57 e 58 – All-Start Superman Vol. 1 e 2 – Uma abordagem curiosa ao super homem, colocando-o como mortal no seguimento de um plano do vilão. Surgem réplicas e versões futuras, enquanto o herói se confronta com a sua própria mortalidade.

59 – A Febre de Urbicanda – Schuiten e Peeters – O volume tem nova publicação em Portugal, com uma história adicional no final. As Cidades Obscuras (nome da série de histórias que decorrem neste Universo) possui vários detalhes fantásticos, numa realidade caracterizada pelo retro-futurismo, onde se construiu uma parte da cidade com grandes e harmoniosos projectos. Enquanto outra parte, semi isolada, permanece num caos contido … até quando… !

60 – Mataram a cotovia – Harper Lee – Não tendo lido a obra original, trata-se de uma adaptação competente que consegue transmitir a história e a problemática social numa pequena localidade interior em que cada família tem o seu lugar social. Existe uma hierarquia clara entre cada uma das famílias.