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Na Sombra das Palavras, publicado pela Editorial Divergência é um pequeno volume de 5 contos fantásticos, que começa com uma história de Fábio Ventura, O Livreiro. Esta pequena história acompanha os turnos da noite de um jovem livreiro que se inquieta com a sensação de uma segunda presença na livraria. Apesar de ter gostado bastante deste conto fantástico, achei que poderia ser melhorado cortando trechos desnecessários: no início existem detalhes que se alongam demasiado, e por outro, no final, um segundo twist é excessivo.

Segue-se o conto de João Ventura, A Lista de Deus. Ainda que tenha gostado mais da premissa d’ O Livreiro, este é, do conjunto, o conto mais coeso e interessante. A história centra-se em dois antigos colegas, que, reencontrando-se, reúnem esforços num projecto comum: descobrir o Génesis Original, onde estariam as actividades de Deus após os sete dias da criação. Uma história com a reviravolta prefeita.

O Panóptico é o conto de David Camarinha, um conto de início propositadamente claustrofóbico que começa por descrever os sonhos de um homem encarcerado e que nada mais conhece senão a sua cela. Até que a porta se abre… Uma história interessante mas algo confusa, que, também poderia ter sido re-organizada: a acção precisava de um fio condutor mais forte para se poder sentir o efeito do final.

O quarto conto, O Labirinto de Papel de Ângelo Teodoro é o segundo melhor conto do conjunto, começando com o quotidiano de um contabilista, um dia-a-dia banal que se transforma com a chegada de um novo colega. O amigo, também contabilista, cedo se expressa incomodado pelo olhar fixo do novo elemento, que nada faz o dia inteiro. Um conto que, não sendo excelente em história, está bem composto e se torna engraçado.

Finalmente, Tabula Rasa, de Mário Seabra, será o único conto do conjunto que se poderá enquadrar no género de ficção científica. Na realidade descrita neste conto os seres humanos podem escolher esquecer o passado e iniciar uma nova vida, sem memoria alguma. Também este é um conto coeso, que descreve uma realidade interessante, ainda que, a meu ver, pudesse ter sido melhor aproveitada.

Em suma, este pequeno volume da Editorial Divergência reúne algumas boas histórias de autores portugueses, num formato que poderia ter aspecto mais profissional, tanto em termos de formatação como de edição dos próprios textos. Mesmo assim, para primeiro trabalho está muito jeitoso e espero os próximos lançamentos.