Lighspeed Magazine – Maio 2015

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Se a Lighspeed já era uma das minhas revistas de ficção especulativa favoritas por trazer boas histórias de ficção científica, fantástico e horror, esta preferência tem-se vincado ainda mais com os volumes mais recentes, organizados por John Joseph Adams, conhecido pelas excelentes antologias que constrói.

Esta edição começa, no entanto, com uma história irritante – Time Bomb Time de C.C. Finlay. Ainda que o conceito não seja original, a execução é original, mas estende-se por demasiado tempo: a possibilidade de voltar atrás no tempo e de refazer pequenos episódios. A história centra-se na primeira tentativa, sendo que o cientista que explora o novo engenho tenta conquistar a simpatia de uma colega, tendo várias versões da mesma conversa sobre a experiência que pretende fazer (mas que já está secretamente a realizar). É uma história inteligente mas que repete a premissa demasiadas vezes, sendo que, algumas versões da conversa pouco divergem e, às tantas, ficamos aliviados por finalmente assistirmos à conversa final.

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Imagem de Galen Dara, realizada especificamente para o conto Time Bomb Time na Lightspeed Magazine online, onde podem ler o conto (basta clicar na imagem)

O segundo conto, Goodnight Earth de Annie Bellet relembrou-me a história de Windup Girl, de Paolo Bacigalupi, quer pelo cenário (subida das águas pelo aquecimento global), quer pela origem. Este conto terá sido publicado no tríptico de contos apocalípticos, mais especificamente no volume The End Has Come, e apresenta dois contrabandistas que aceitam transportar um casal e seus três sobrinhos. Um dos contrabandistas estranha a postura das crianças e acaba por confirmar as suspeitas – tal como ele, as crianças são seres humanos alterados por nanobots, pequenas e eficientes armas de guerra. Ainda que soe incompleta (espero que exista a continuação da história no terceiro volume do tríptico) e possua poucas personagens e um cenário bastante restrito (um barco) consegue envolver o leitor.

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Em The Myth of Rain de Seanan McGuire é também explorado o tema apocalíptico. Com o aquecimento global aumentam as zonas desertas e os seres humanos (os ricos, claro) possuem agora um único local para onde se podem dirigir e tentar viver mais algum tempo em bom clima. Um grupo de biólogos tenta salvar os últimos espécimes da floresta resistente antes que a destruam para a construção de prédios – mas o trabalho que desenvolvem é quase impossível perante os prazos apertados. Fornecendo os detalhes suficientes para a compreensão da história, mas sem se alongar em demasia, consegue cativar o leitor e fornecer uma perspectiva dolorosa do impacto do aquecimento global. A história foi publicada, também, na recente antologia Loosed Upon the World.

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A próxima história, de 1993, é Ghost of the Fall de Sean Williams, o melhor conto apocalíptico do conjunto onde, a subida das águas em conjunto com uma guerra brutal, deixou um pequeno de seres humanos sobreviventes no topo dos maiores prédios. Uma geração depois, as águas são tóxicas e a comunidade persiste graças à chuva. Isolada, desconfiada de qualquer contacto possível com outras comunidades exteriores, está claramente em extinção. O grupo é pequeno, as mulheres são poucas, os nascimentos ainda inferiores, e as torres terão uma vida limitada. Ainda assim a comunidade tenta persistir, reactivando alguns elementos de tecnologia (como painéis solares). Excelente na apresentação da realidade apocalíptica e em centrá-la numa personagem que nunca conheceu o antes da guerra, desenvolve bem as poucas personagens com as quais tem de lidar e dá-nos um cenário pouco auspicioso de melhores dias.

A secção de fantasia começa com Sun’s East, Moon’s West de Merrie Haskell, um bom conto de fadas que cruza influências de contos de várias origens – desde a rapariga que transforma palha em oiro, a um deus-urso capaz de curar aves feridas, a um príncipe encantado preso por uma maldição tecida por uma ogre furiosa. O seguimento entre alguns episódios é, por vezes, forçado mas o príncipe amaldiçoado não é nenhum galã de cinema, antes um homem que, mesmo após quebrado o feitiço continua prepotente e egoísta, e a rapariga que tece oiro prefere matar dragões. São estas imperfeições nas personagens que distinguem o conto.

Mouth, de Helena Bell é mais um conto de horror que propriamente de fantasia. Começa quando uma menina resolve calar o irmão, bebé chorão, retirando-lhe a boca como que por magia, usando apenas as mãos. Sem perceber o que aconteceu os pais recorrem aos melhores médicos para realizar a reconstrução facial enquanto a verdadeira boca seca num guarda-jóias da menina. Esta capacidade de retirar, de forma indolor, pedaços de outras pessoas nunca a abandona. Com passagens muito arrepiantes mas sem um final conclusivo, eis um bom conto de terror fantástico.

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Breaking the spell de R.C. Loenen-Ruiz tem várias histórias entrelaçadas, com o intuito de explicar uma maldição de forma pouco convencional. Enquanto que, numa cave, uma menina descobre os pequenos mundos que o pai mantém sob redomas, num outro mundo uma menina questiona-se sobre um castelo nas nuvens onde dormirá uma princesa, aguardando o príncipe encantado. Ainda que funcione isoladamente, gostaria de ter lido uma versão mais longa da história onde seriam mais explicados os pequenos mundos na cave.

A secção de fantasia encerra com The Blood of a Dragon de Matthew Hughes, uma história que decorre no Universo fantástico de uma saga fantástica do autor, Tale of Henghis Hapthorn. Neste conto apresenta-se sucintamente a geração do mecanismo que controla esta realidade, um mecanismo criado por um poderoso mago que se alimenta da força de vontade das pessoas. Mesmo após a morte do mago o mecanismo persiste por possuir parte da sua essência. Este conto centra-se na destruição desse mecanismo. Coeso e desafiante, é um conto que consegue, no pouco espaço que tem, explicar o necessário do mundo onde ocorre para que o leitor consiga acompanhá-lo. Se há anos que estou interessada em ler esta saga fantástica, este conto veio ainda mais aguçar a curiosidade.

Segue-se a novela desta edição, The Mill de Paul di Filippo, uma história que foi publicada pela primeira vez em 1991 em Amazing Stories. Gostei tanto desta novela que acabei por lhe dedicar uma entrada separada no blogue. Com algumas semelhanças de premissa com The Carpet Makers de Andreas Eschbach, mas sem a sua estrutura fragmentada, apresenta-nos um mundo explorado por um Império intergaláctico cuja economia está estruturada em torno da confecção de tecidos. É de realçar a construção de personagens, que nos vão apresentando e convencendo das várias perspectivas, ainda que de forma inconsciente. O final possui um único defeito – não nos deixar vislumbrar mais do que se encontra por detrás do Império.

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Tal como noutras edições, segue-se uma componente que evito – a dos excertos, neste caso de The Water Knife de Paolo Bacigalupi e Magonia de Maria Dahvana Headley, e a das entrevistas. A componente das críticas possui sugestões interessantes (ainda que tenha gostado mais das apresentadas na Apex Magazine). Revision de Andrea Philipps encontra-se disponível apenas em formato ebook / POD parece conter uma ideia engraçada, mas que talvez se esgote em algo maior do que um conto, descrevendo a possibilidade de editar a realidade quando se edita uma espécie de enciclopédia online.

Amber in the Ashes de Sabaa Tahir parece ser uma leitura interessante para os próximos tempos. A crítica conseguiu despertar-me a atenção ao usar um isco demasiado fácil – uma das personagens principais faria com que Cersei Lannister parecesse uma mãe extremosa. A partir daqui são vários os factores que me interessaram, desde os elementos de mitologia árabe (como génios) ou a comparação com um livro excelente, City of Stairs.

Para fechar a edição encontra-se a galeria de Li Shuxing, o responsável pela capa, com várias imagens fascinantes pela sua complexidade.

3 pensamentos sobre “Lighspeed Magazine – Maio 2015

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