Dois anos, oito meses e vinte e oito noites – Salman Rushdie

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Depois da enorme polémica com o livro Os Versículos Satânicos fugi dos livros do autor. Não por causa dos motivos que o fizeram ser um dos livros mais falados na altura, mas porque livros que criam demasiada expectativa fazem-me comichão. Ou os leio logo, ou fico com algum receio de lhes pegar. Entretanto, a excitação já tem tantos anos que me decidi a experimentar o mais recente livro de Salman Rushdie.. E gostei.

Conhecem os génios? Aquelas criaturas fantásticas que saem de lamparinas para responder aos desejos de um ser humano? Bem, esta é a história de uma génio, Dunia, que se terá unido a Averróis sem revelar a sua natureza. Se os génios não costumam ser férteis, nem se unir a seres humanos, Dunia constitui uma excepção. Para além de se apaixonar por Averróis engravida de várias ninhadas de crianças – cada gravidez resulta numa dezena de crianças, mais criança, menos criança.

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Entre a razão extrema de Averróis e a sobrenaturalidade de Dunia, criam-se várias dezenas de filhos que se hão-de espalhar por todo o mundo. Centenas de anos depois de se terem fechado as ligações entre os dois mundos e Dunia ter voltado a ocupar no seu mundo o lugar que lhe compete, o de princesa herdeira, os descendentes de ambos pertencem às mais diversas culturas e religiões, herdando mais do que ausência de lóbulos nas orelhas da sua tetra-tetra-tetra-(…)-avó.

Um dia, os caminham entre os dois mundos voltam a abrir-se, e com eles a magia retorna ao nosso mundo, com uma tempestade abismal. As experiências científicas deixam de dar resultados coerentes, e até os mais racionais começam a testemunhar acontecimentos incríveis: pessoas que flutuam, braços que lançam raios ou narizes que passeiam sozinhos. A razão deixou de ser a lógica condutora da nossa realidade.

Um funcionário russo perdeu o nariz e depois viu-o a passear sozinho por São Petersburgo

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A história centra-se nalguns dos descendentes de Dunia e Averróis, dando especial ênfase a um jardineiro que, tendo perdido a companheira de uma vida, se dedica agora à sua profissão, numa existência simples e quase isolada. Um dia, os pés deixam de tocar o chão. Faça o que fizer, fica sempre acima de qualquer superfície – lama, lençois ou cadeiras. Dia após dia, a distância vai aumentando, e, além de já não a conseguir disfarçar, começa a tornar-se suspeito para a vizinhança, já farta de acontecimentos estranhos.

Super-heróis, capacidades linguísticas sem fim, levitações, desastres amorosos – as características sobrenaturais dos descendentes de Dunia são várias. Mas os maiores acontecimentos têm origem numa guerra entre génios, uma guerra louca que não respeita regras ou estratégias.  Temos, por exemplo, um génio de ficção científica da era dourada que cria um reino tendo por base um dos seus livros favoritos.

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Carregado de detalhes fantásticos e reminiscências de histórias conhecidas, com ecos de contos, lendas e histórias fantásticas, é um livro que cruza o destino de várias personagens para contar uma história maior do que um mundo. Claro que tem os seus pontos fracos. A personagem Dunia vai sendo caracterizada várias vezes ao longo do livro de forma nem sempre consistente – mas é um génio e o autor utiliza a natureza da personagem para se descartar da lógica comum.

Interessante pelos pormenores e pelas características surreais, possui algumas diferenças entre os episódios iniciais e finais, começando com episódios sonhadores e detalhados e terminando com acção mais rápida que despacha o final e confere às personagens finais interessantes mas todos felizes. Mundo em colapso por desastres sucessivos e induzidos pelos génios, com um piscar de olho à ficção científica e aos heróis de banda desenhada, termina com um episódio futurista e redentor.

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