The Loney – Andrew Michael Hurley

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Se quando pensam na palavra horror pensam em sangue esguinchado, miolos espalhados ou ambientes góticos e pesadelos onde a loucura envolve todos os nossos pensamentos, precisam de repensar o género. E nada melhor do que The Loney para o fazerem. É que o terror aqui apresentado é lento, não envolve propriamente monstros, apenas alusões, subtis a algo sobrenatural – notas que podem ser percebidas como vulgares, contexto num ambiente de extrema religiosidade.

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Edição limitada da Tartarus Press

A história centra-se em dois irmãos, apresentando o ponto de vista do mais novo (o narrador) que é responsável por cuidar de Hanny, o mais velho, que possui um acentuado atraso mental e é incapaz de falar. Entre os dois estabelece-se uma forte ligação, sendo o irmão o única capaz o compreender adequadamente.

Inconformada com a deficiência de Hanny, a mãe investe toda a sua energia num estilo de vida piedoso com uma obsessão por rituais religiosos que devem ser seguidos de forma perfeita no momento certo – só assim se conseguiria atingir o estado de pureza necessário para um milagre. É assim que o filho mais novo acaba por se tornar ajudante do padre, como prova de devoção e forma de redenção.

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Quando o padre sofre uma queda fatal o acontecimento é visto não só como uma desgraça, mas um aborrecimento pela mãe, por perderem alguém que já a conhece e compactua com as suas expectativas religiosas. Ainda por cima estão a preparar uma viagem religiosa que tem como intuito a limpeza da alma – ocasião perfeita para um milagre.

Manipulando sorrateiramente a conversa, a mãe consegue que a viagem tenha o destino por si pretendido – Loney, uma zona rural, quase selvagem, que resiste teimosamente ao avanço da civilização e onde persistem as superstições associados aos lugares traiçoeiros, assombrados por antigas lendas de bruxas e desgraças.

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A história decorre sobretudo em três tempos, partindo de breve referência ao presente para alternar entre os acontecimentos da viagem e os que a antecederam. Devagar, vai-se acumulando uma tensão dramática com base em pequenos detalhes que são percepcionados de forma quase natural.

Se a relutância que os locais têm em os ajudar é vista como típica de um local quase isolado da civilização e os indícios antigos de bruxaria como próprios de uma época distante, encontrar um cadáver no bosque desperta alguma inquietação (até ser descartado como uma possível partida de Carnaval ao desaparecer na visita seguinte). Mas é ao narrador, criança, que vão aparecendo indícios de que algo mais se passa naquela terra.

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Com reminiscências de Of Mice and Men na forma como os dois irmãos se relacionam (e as alusões aos ratos) a narração vai construindo uma história de várias facetas onde nada do que acontece é propriamente uma surpresa. Percebendo-se o que se segue, mas sem saber como, constrói-se um ambiente de expectativa que gera o terror mais psicológico e interior, neste caso exacerbado pelo fervor religioso que impede que se percepcionem os verdadeiros acontecimentos.

Primando pela subtileza do horror, The Loney é um puzzle de construção lenta que nos faz sentir uma enorme empatia pelas personagens centrais e se torna uma leitura viciante.

3 pensamentos sobre “The Loney – Andrew Michael Hurley

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