Bibliotecas cheias de fantasmas – Jacques Bonnet

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Bibliotecas cheias de fantasmas é, de facto, um livro de amor aos livros, conforme referido na capa, um livro de exaltação da leitura, das obras literárias, do prazer de construir uma colecção ou de admirar uma biblioteca.

Começando por apresentar um episódio pessoal em que o autor, num jantar, conhece um escritor que, tal como ele, possui uma enorme biblioteca, Jacques Bonnet alonga-se sobre esta paixão, utilizando referências a Borges e a Bachelard (respectivamente com “O Paraíso é uma biblioteca” e “não será o paraíso uma imensa biblioteca”), e passa a livros que estão cheios de bibliotecas – O Nome da Rosa de Umberto Eco, Auto de Fé de Elias Canetti ou La Casa de Papel de Carlos Maria Dominguez:

O narrador, ele mesmo ameaçado pela proliferação («os livros avançam pela casa, silenciosos, inocentes. Não consigo detê-los»).

Distinguindo entre bibliófilos e apreciadores de livros (colocando-se a ele próprio na segunda categoria) Jacque Bonnet disserta ainda sobre a compulsão que parece existir, compulsão essa que chega a ameaçar o espaço do proprietário – até porque os livros não se armazenam, requerem prateleiras e estantes, espaço para os colocar.

Acontece que a curiosidade não tem fronteiras, ela é ilimitada. Alimenta-se dela mesma, nunca se satisfaz com o que encontra, vai sempre mais adiante, e só se esgota com o nosso último suspiro (Há aquela história, lida não sei onde, sobre um condenado no período do terror revolucionário que ia lendo um livro na carruagem que o conduziu ao cadafalso, e que marcou a página onde estava antes de subir para a guilhotina).

“Você leu estes livros todos?” é a pergunta que qualquer proprietário de uma biblioteca está farto de ouvir (é verdade, é a pergunta que mais oiço a quem entra em minha casa). A esta segue-se a questão da organização – o saber onde está cada exemplar. Aqui posso dizer que nem sempre me é fácil, principalmente desde a última mudança. Ordem alfabética, por colecção, autor, título? Jacques Bonnet disserta sobre todas estas possibilidades. Aqui em casa é simples. O espaço escasseia e a forma que tenho de o optimizar é por tamanho, havendo prateleiras mais baixas para paperbacks e mais altas para banda desenhada. Fosse o espaço infinito… Já o autor parece ter distribuído os livros de acordo com a área geográfica, questionando-se sobre a arrumação da América Latina perto de Espanha.

Já os leu todos? Não, claro que não. Ou talvez sim. Na verdade, não sei. É complicado. Há livros que li e esqueci (muitos), e alguns que me limitei a espreitar e de que me lembor.

Até ser aberto um livro por ler é um mundo por explorar, albergando nele próprio todas as possibilidades. Em torno do resumo e da capa agrupamos ideias, noções, pensamentos, expectativas. Há leituras que duram um dia, outras um mês. Os métodos de leitura são vários e vão diferindo de obra para obra. Há algumas carregadas de interpretações e trocadilhos. Há outras que nos fazem recordar outros livros, outras vivências. A cada livro, o seu tom, a sua disposição.

Fiquei surpreendido, ao retomar após alguns anos Casa d’altri, por verificar que esta narrativa de Silvio D’Arzo não ia além das 65 páginas, quando na verdade ela tinha ganhado com o tempo, na minha recordação, mais umas cem.

Mas antes de ler, há que adquirir (ou levantar numa biblioteca, ou pedir um volume emprestado de um amigo). Os livros que escolhemos trazer resultam de várias possibilidades – livros relacionados com outros, livros que nos suscitaram ideias pela capa ou pela sinopse…. Bem, depois de ler, decerto tenho vários para adquirir. Curiosamente, deve ascender a meio catálogo da Cavalo de Ferro.

Entre várias outras coisas, um dos textos mais interessantes deste livro é sobre as personagens reais e as personagens fictícias, sendo as reais as que se encontram no livro e as fictícias os autores. Perspectiva interessante, mas que compreendo – enquanto que, nalguns livros, podemos saber quase tudo sobre uma personagem, sobre os autores fazem-se reconstruções e interpretações que raramente correspondem na totalidade.

Um episódio de The Twilight Zone (A Quinta Dimensão), célebre série televisiva americana de ficção científica produzida nos anos 60, conta a história de um bancário que não tem tempo para se dedicar à sua actividade preferida: a leitura. Em casa, a mulher faz-lhe uma cena logo que ele pega num livro. No banco, ler no guiché daria mau aspecto. Um dia em que se refugiara com o seu livro no cofre-forte, dá-se uma imensa explosão – sen dúvida nuclear – que destrói a pequena cidade. Ele é o único sobrevivente. Após horas de desespero, reencontra o gosto pela vida quando se apercebe de que a biblioteca municipal ficou intacta.

Não há muitos livros que terminem pensando em repetir mas este é, sem dúvida, um deles. Carregado de paixão pelos livros, refere diversas obras que, pela forma como as apresenta, irei querer ler. Com referências literárias e cinematográficas, apresenta vários trechos com os quais me identifico.

Apesar de citar sobejamente o catálogo da Cavalo de Ferro, o livro foi publicado em Portugal pela Quetzal. Aproveito para publicitar que, na Almedina, o livro se encontra a 5€.

5 pensamentos sobre “Bibliotecas cheias de fantasmas – Jacques Bonnet

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