O Diário do Meu Pai – Jiro Taniguchi

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Dizia alguém que sempre que se vai a uma médium (ou bruxa, ou alguém de semelhante ocupação) uma das frases rotineiras (e sempre certeira) é apelidar a infância de infeliz ou traumática. É que, por mais pacífica, feliz e harmoniosa que tenha sido, é impossível não existirem episódios de conflito interno ou relacional, mais que não seja porque fazem parte da educação e do crescimento.

Exactamente por ser uma época de crescimento e intensa adaptação, estes episódios conseguem ser bastante marcantes e são recordados por uma memória frágil. Frágil não no sentido de fraca, mas no sentido de poder ter sofrido reinterpretação ou incorrecto enquadramento, sobretudo nas situações em que se desconheciam todos os factos (muitas vezes por tentativa de protecção dos adultos).

Posto isto, por mais estreita que seja a relação entre pais e filhos, é quase impossível ter uma inteira percepção de quem é o progenitor para além do seu papel de adulto responsável. Por um lado porque as nossas memórias de infância são muitas vezes marcadas pela tal percepção unilateral dos factos, por outro porque o convívio diário impede que percepcionemos o progenitor como alguém que já foi jovem e sonhador, alguém para além do papel que desempenha connosco.

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Yoichi Yamashita é um jovem cuja vida foi definida pelos acontecimentos da infância – quer pela interpretação, quer pela reconstrução fragmentada que daí resultou. O grande evento é o abandono do lar pela mãe, sem que lhe tenha sido dada uma explicação mais detalhada e enquadrada do afastamento.

Por estar sempre a trabalhar, o pai é uma figura distante sempre ocupado, e o que a criança recorda é a alegria da figura materna, sem conseguir percepcionar o gradual afastamento dos progenitores e o egoísmo da mãe que irá desencadear o evento traumático. Demasiado novo para perceber as circunstâncias, culpa o pai pelo abandono e começa a afastar-se da família, mudando-se para Tóquio, anos mais tarde, à primeira oportunidade.

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Quando o pai morre, retorna a Tottori para o ritual de velar o corpo. Aqui os participantes bebem alegremente (para que o fantasma do morto se desprenda) e contam vários episódios em honra deste homem. Gradualmente Yoichi apercebe-se que o homem silencioso que tomava por tímido era um homem bondoso e trabalhador que interpretou erradamente a vida toda.

O Diário do meu pai não é uma explosão arrebatadora de revelações. É uma história pausada, que apresenta a história daquela família utilizando os episódios recordados para os intercalar com as memórias e as interpretações de criança e com a leitura de quem conheceu outras perspectivas e os restantes factos.

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Combinando todas estas vertentes torna-se uma história arrebatadora, simultaneamente triste e redentora que enaltece o papel de progenitor, adulto responsável que, por assumir o peso das decisões, corre o risco de ser mal compreendido levando ao afastamento dos filhos.

Em Portugal O Diário do Meu Pai foi publicado pela Levoir em parceria com o jornal Público, na colecção Novela Gráfica. De realçar que está previsto outro livro do autor na colecção de 2016 (mais informações).

2 pensamentos sobre “O Diário do Meu Pai – Jiro Taniguchi

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