Ensaio sobre a cegueira – José Saramago

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Qualquer obra de Saramago se enquadra no conjunto de obras que evito ler pela demasiada expectativa. E neste caso, por  já ter visto o filme. Mais uma vez constato que esta minha aversão irracional tem adiado a leitura de boas obras. Esta, não ascendendo ao grupo de leituras favoritas foi uma excelente leitura.

O que esperava? Uma leitura densa, confusa e difícil. Sim, reparei que as frases se sucedem com poucos parágrafos, não quebrando como é usual com determinada pontuação. Tirando esse detalhe achei uma leitura fácil que até flui razoavelmente bem, sem recorrer a palavras pouco habituais sem que tal seja necessário (quase nunca).

ensaio sobre a cegueira

Tendo já visto o filme, a história em si não foi novidade. A cegueira branca começa quando um homem, no meio do trânsito, ao volante do seu automóvel, se vê impossibilitado de prosseguir. Logo, logo se gera o caos, mais por conta do tráfego do que propriamente do homem que deixou subitamente de ver.

Depois de ajudado por um ladrão, que acaba por lhe ficar com o carro, dirige-se com a esposa ao oftalmologista não se percebendo qualquer razão para a cegueira – que ainda por cima é branca. Assim se propaga rapidamente esta doença, cegando numa primeira fase todos aqueles com os quais teve contacto – o ladrão, o oftalmologista, os restantes pacientes na sala de espera e a recepcionista.

Gerado o pânico, o governo resolve fechar os que já cegaram num hospício abandonado. Felizmente a esposa do oftalmologista é a única que não cega mas, fingindo-se também acometida pelo mesmo mal, consegue ser internada e assim ajudar o grupo em rápido aumento.

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Neste cenário tipicamente apocalíptico, de rápido declíniocivilizacional, colocam-se algumas questões morais, filosóficas e éticas que são exploradas, mas, felizmente, não em demasiada, em sucessivos episódios de degradação humana. Sem visão, os seres humanos deambulam pelas ruas da cidade, sem saber onde moram nem para onde vão, sem se conseguirem reconhecer ou exercer as funções mais básicas, desde a limpeza à alimentação.

A falta de cooperação, o egoísmo e a violência levam a que impere uma pobreza que é sobretudo de espírito. Estes episódios de violência crescente são percepcionados pelo único ponto de vista possível (a esposa do oftalmologista) que descreve cenas simultaneamente cómicas e infelizes – a cegueira é mais mental do que visual.

Com algumas (raras) falhas de lógica, o Ensaio sobre a Cegueira é um livro que permite duas leituras – a mais prática onde se coloca uma hipótese que é quase levada ao extremo (e se todos cegassem), e uma mais filosófica que diz respeito à condição humana e ao significado da cegueira apresentada no livro.

Esta edição é o primeiro volume da nova Colecção RTP – é que tenho alguma aversão à edição da Porto Editora.

3 pensamentos sobre “Ensaio sobre a cegueira – José Saramago

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