Assim foi: Recordar os Esquecidos (sessão de 25 de Julho)

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Esta sessão foi marcada pela presença de dois autores bastante conversadores – tão conversadores que dava a sensação de que poderiam alongar-se noite dentro sem deixar de falar dos livros e escritores que os trouxeram a esta sessão. Estou a falar, claro, dos convidados, Fernando Pinto do Amaral e David Soares. Ainda que seja costume a sala estar composta, nesta sessão estava cheia, quase sem lugares suficientes para todos os que queriam assistir. Aqui fica uma listagem das obras referidas, bem como alguns (poucos) apontamentos que fui fazendo ao longo da sessão.

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A conversa começou com Fernando Pinto do Amaral a apresentar Abel Botelho com a obra Barão de Lavos. Simpático e fluído no discurso, Pinto do Amaral terá escolhido esta referência mais pelo autor do que pela obra. Sem edições recentes, será uma das poucas obras da época a fazer alusão à homossexualidade mas como exemplo de degradação da sociedade. Na família do Barão de Lavos, personagem principal, persiste um clima mórbido, de comportamentos desviados e patológicos, resultantes da extensa consanguinidade. Tendo casado com uma burguesa, vai tendo pequenos encontros com um jovem, que traz para o círculo social. Este será um dos cinco volumes de um conjunto que o autor terá denominado de Patologia Social, sendo os restantes O Livro de Alda, Amanhã, Fatal Dilema e Próspero Fortuna.

Esta obra encontra-se disponível gratuitamente em formato digital através da Biblioteca Nacional de Portugal.

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A primeira referência de David Soares foi a A velhice do padre eterno de Guerra Junqueiro. Poeta de esquerda, desvincula-se da primeira república e defende, até ao final, a ideia do regicídio. Este, A Velhice do padre eterno, será uma resposta a uma bula de 1885 que tinha como objectivo manter os estatutos dos estados papais reforçando a posição contra os ideais então revolucionários como a liberdade de expressão e o racionalismo. Ao apresentar mais alguns factos da vida de Guerra Junqueiro David Soares referiu outras das suas obras, como Horas de Luta e Vibrações Líricas.

Esta obra, A velhice do padre eterno, também se encontra disponível gratuitamente em formato digital, tanto na Biblioteca Nacional de Portugal, como no projecto Gutenberg.

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Voltando a Fernando Pinto do Amaral, a próxima referência é O Quarteto de Alexandria de Lawrence Durrell, um conjunto de quatro obras, cada uma com o nome de uma personagem. Com grande densidade psicológica das personagens, apresenta, nos três primeiros volumes, três perspectivas diferentes dos mesmos acontecimentos – mas sem linearidade. Tal como nos nossos pensamentos, apresenta os acontecimentos sem uma sequência cronológica (e nesta fase Fernando Pinto do Amaral refere o efeito de um caleidoscópio – curioso – recentemente ouvi a mesma comparação no lançamento de A Família de Valério Romão).

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Segue-se O Caos e a Noite, de Henry de Montherlant, apresentado por David Soares. O autor terá tido um berço tradicional, conservador como Guerra Junqueiro, mas de ideais à direita. Demasiado satírico, afirma, aquando da terceira república que o país estaria acabado, e passou a dizer mal da república nos jornais. A sua visão elitista é expressa quando a Alemanha conquista a França, afirmando que nada menos seria de esperar de um país enfraquecido pelos ideais que abraçou – posição que o conota de simpatizante com o regime nazi.

Em O Caos e A Noite a personagem principal é Celestino. Um homem rico, de boas famílias, que se juntou aos anarquistas na guerra civil espanhola. Vive na noite, paranoico – característica exacerbada quando lhe comunicam a morte da irmã e se vê obrigado a viajar a Madrid onde começa logo a ver terrores, pensando nos franquistas que estarão por toda a cidade.

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David Soares passou então a A Mulher Pobre de Léon Bloy. Romancista católico, não se enquadra na categoria de romance como alegoria religiosa. A história decorre em torno de uma mulher pobre que serve de modelo para desenho a nu para um pintor. Apresentando-a no círculo de artistas, ficam surpresos pela nobreza de espírito que apresenta, fascinando pelas qualidades apesar de pobre de inculta.

A história em si terá um mistura de luz e treva, de podridão e redenção. Em torno de personagens corrompidas encontram-se outras, mais raras que são fonte de bondade, ainda que não possam ser santos – condição a que aspiraria o próprio autor que tentou levar vida de pobreza (referindo-se Histórias desagradáveis, outro livro do mesmo autor).

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De seguida, Fernando Pinto do Amaral trouxe-nos dois irmãos, os autores Joaquim Paço D’Arcos e Henrique Paço D’Arcos. De família aristocrática, Joaquim Paço d’Arcos não se afasta dessa linha conservadora, mantendo-se à direita. Sem conotação política, retrata a vida da classe média / media alta, como em Crónica da Vida Lisboeta, expressando dilemas morais e existenciais, com muita hipocrisia social e ironia, mas sem pretensiosismo.

E já que se fala em Joaquim Paço D’Arcos, referiu-se também Maria Judite de Carvalho, contista que também apresenta personagens muito apagadas, afeitas ao quotidiano cinzento, sem o discurso habitual de uma condição que almeja a algo mais ou que alimenta a esperança de.

Já o irmão, Anrique Paço D’Arcos terá sido uma personagem mais apagada, com menor visibilidade social, apresentando na sua obra uma certa mística da tristeza e da melancolia (Poesias Completas).

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A próxima referência de David Soares é Diálogos em Roma de Francisco D’Ollanda, livro que causou espanto por parte da assistência, pelas ilustrações. O autor, artista lisboeta, terá sido enviado num périplo mediterrânico pelo rei para estudar as obras clássicas – ainda que se suspeite de um objectivo mais obscuro, estudar os desenvolvimentos bélicos. Durante estas viagens terá sido convidado a conversar com Miguel Ângelo, sendo estes Diálogos em Roma uma transcrição dessas conversas, sem prosa artística, quase jornalística.

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O último autor escolhido para a sessão foi Danilo Kis, por David Soares, com A Enciclopédia dos Mortos (que desconhecia ter sido publicado em Portugal) e Hourglass. O segundo, pesado e soturno, centra-se numa personagem que vai ser enviada para um campo, espelhando várias recordações e memórias, e permitindo ao leitor construir o percurso da personagem. No primeiro, A Enciclopédia dos Mortos, apresentam-se várias histórias partindo de um livro onde se encontram todas as pessoas que morreram desde 1798.

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