O Livro – Zoran Zivkovic

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Eis um dos mais extraordinários livros de Zoran Zivkovic, um dos meus autores favoritos que não só venceu um World Fantasy Award como muitos outros prémios literários. Se em vários dos seus livros segue uma estrutura em mosaico ou um enredo de detective com elementos surreais, aqui a premissa é totalmente diferente e original – e se os livros fossem serem conscientes e sencientes, capazes de nos relatar os seus sentimentos e pensamentos?

A premissa, apesar de ser simples, desenvolve-se de uma forma brilhante para desconstruir todo o processo de criação de um livro, bem como o negócio que os envolve – desde o motivo pelo qual algumas pessoas compram livros, passando pela forma como os tratam, parodiando a atribuição de prémios e títulos pomposos, descrevendo, em episódios cómicos, a aceitação de um manuscrito até à sua disponibilização na livraria. Todas as profissões que rodeiam os livros são examinadas e expostas, não de uma forma aborrecida e acusatória, mas em analogias carregadas de um humor sagaz, por vezes subtil, que me fizeram partilhar inúmeras citações a conhecidos.

Somos, agora, o repositório de tudo o que o seu circo de cem mil milhões de palhaços – que é mais ou menos o número que por aqui passou desde que desceram das árvores – conseguiu alinhavar com grande custo, tanto em trabalho como em dor.

O livro começa por falar do objecto livro como se tratasse de uma mulher (até porque na língua original do autor, livro é uma palavra feminina), de tal forma que às tantas se desvanecesse a fronteira entre o livro como objecto e uma mulher objectificada:

Eles sabiam muito bem que ficaríamos expostos, completamente nus ao toque das suas mãos; mais, que iriam inserir os seus dedos dentro de nós, remexer nas nossas entranhas. Mas acham que algum deles pensava, ao menos, em lavar as mãos antes de o fazer? (…)

Um dedo, às vezes dois; por vezes, até lambem três dos seus dedos de uma vez com tal propósito. Como se fosse algo que não pudesse ser feito sem lamber. Mas falta aos cavalheiros a paciência para tentar mais algumas vezes com os dedos secos. É mais fácil com eles molhados. Estão-se nas tintas para os danos permanentes que a sua saliva provocará aos delicados cantos das nossas páginas, ou ao cheiro do mau hálito exalado sobre nós enquanto estão a lamber. Temos, na verdade, sorte por não possuírem línguas tão compridas como as de uma cobra; se assim fosse, virariam sem dúvida, as nossas páginas directamente com elas

Mas nem é a leitura o pior tormento do livro! Há os que escrevem, qual tatuagem, os que dobram cantos da página como quem parte um dedo, sem cura possível, há quem rasgue molhes de folhas impunemente:

A dor que o pobre livro sofre não é menor do que a que teria sido infligida por um rasgão rude, mas pelo menos a ferida é rápida, e as páginas amputadas não terminam no caixote do lixo.

Mas antes de chegar ao leitor, já o livro sofreu maus tratos, seja nas bibliotecas onde, qual casas de prostituição, são requisitados por tuta e meia, seja à mão de alfarrabistas onde não podem controlar o seu destino – o maior desejo é que sejam comprados por um daqueles clientes que pretende livros a metro para preencher algum espaço vago da sua estante:

Aquilo que preocupa estes clientes – depois do preço – é o estilo e a cor. Da encadernação, claro. A pele tem muita procura, embora a tela não lhe fique muito atrás; a polida tonalidade castanho-avelã dos cavalos tem muito sucesso, dado que complementa quase todos os tipos de madeira. E se o título estiver gravado em relevo na capa, a folha de ouro (ou numa imitação da mesma), é como se lhe tivessem enfiado um dente de ouro na boca sem cobrarem nada!

Zoran Zivkovic não fala só dos leitores, mas também do nascimento de um livro, um evento que, ao contrário do que acontece aos seres humanos, é um processo que envolve dezenas de pessoas à luz do dia. Desde o agente literário (um género de casamenteiro que pouco conhece da obra que intermedia mas que sabe apresentá-lo ao editor) aos prémios (que às tantas são tantos quantos os livros e geridos pelas próprias editoras interessadas), sem esquecer a produção da capa (vaga o suficiente para ser a capa de qualquer livro) ou o editor (que nem sequer percebe para que servem aquelas páginas carregadas de padrões) O Livro apresenta o processo de produção em massa como uma paródia sem fim em que o resultado que chega aos mãos do leitor pouco ou nada tem a ver com o que foi escrito.

O resumo do enredo que figurará na sobrecapa representa um problema, pois a pessoa que o compõe precisa de ter, pelo menos, uma vaga ideia acerca do teor do livro. Este resumo não deve, na verdade, descrever um livro completamente diferente, embora se saiba que tal já aconteceu e passou despercebido. Um editor hábil, contudo, redigirá o resumo em termos tão genéricos que ninguém se aperceberá de que não goza, na verdade, de uma familiaridade próxima com o conteúdo

Entre os títulos colados à mais recente moda, a capa com alguma jovem reveladora (mas não demasiado) e os prémios feitos por medida, a máquina de publicidade chega ao ponto de produzir propaganda idiota:

Poucas pessoas prestam atenção às questões mais apuradas da lógica e não restam dúvidas de que o anúncio faz virar cabeças «O primeiro livro do famosíssimo autor de inúmeros best-sellers

Devagar, assim como quem não quer a coisa, Zoran Zivkovic vai depositando verdades sobre a existência de um livro, entre tiradas exageradas de estereotipos bem desenhados, constituindo uma das leituras simultaneamente mais sérias e cómicas dos últimos tempos. Um livro, sem dúvida, excepcional.

O Livro foi o mais recente livro publicado pela Cavalo de Ferro de Zoran Zivkovic que conta já com seis livros lançados em Portugal por esta editora (três diferentes edições de Biblioteca, Sete notas musicais, O Último Livro, O Escritor fantasma, O Grande Manuscrito). 

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4 pensamentos sobre “O Livro – Zoran Zivkovic

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