O melhor do segundo trimestre de 2016

À semelhança do trimestre passado, dado que mantive quase o mesmo ritmo de leitura neste segundo (com 83 livros lidos, dos quais 44 banda desenhada), fiz uma pequena selecção das melhores leituras, por ordem cronológica:

gigante

12 – O Gigante Enterrado – Kazuo IshiguroDepois de toda a controvérsia em torno da inclusão no género fantástico, gostei, inesperadamente, do que li. A história centra-se num casal de velhotes que não se recorda de quase nada da sua vida passada. Até poderia ser normal em idosos, mas o que não é normal é que o mesmo mal ataque toda (ou quase toda) a população daquela zona. Partindo em viagem em busca de um filho esquecido, o casal vai viver episódios de grande acção onde é a forte ligação que os une que os salva constantemente. E são estes detalhes, de grande dedicação entre ambos onde expressam a sua fragilidade e confiança, que tornam a história uma das melhores leituras dos últimos tempos;

i hate fairyland_2

13 – I Hate Fairyland- Skottie Young Quem está farto de reinos de fadas encantados, fofinhos e docinhos? A concretização do sonho de viver uma aventura num destes cenários até pode parecer engraçado nos primeiros dias para uma criança, mas vinte sete anos depois de andar a tentar acertar o propósito de rimas e adivinhas qualquer criança se tornaria num psicopata cínico, meio louco e quase desesperado. É o caso de Gertrude. Num cenário infantil de cores garridas e carregado de doces e fofuras, Gertrude continua à procura do caminho para casa, numa aventura linear mas cheia de elementos anti-cliché em referência às mais variadas histórias do género fantástico;

fragmentos

14 – Fragmentos da enciclopédia délfica – Miguelanxo Prado – Um dos primeiros volumes de Miguelanxo Prado que tive a oportunidade de ler revelou-se uma boa surpresa carregada de episódios satíricos de ficção científica, com críticas óbvias à sociedade humana ainda que utilizem alienígenas e outros seres terrestres tornados inteligentes para criar projecções.

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15 – Bats of the Republic – Zachary Thomas Dodson Este é daqueles livros que dificilmente pode ser adaptado para o formato digital, utilizando a composição do próprio texto para dar maior dimensão à história. A narrativa conta a aventura de dois homens, um no passado e outro no futuro, que se relacionará de diversas formas. Se por um lado vamos acompanhando as personagens através de cartas e relatos complementados por desenhos de animais, esquemas, fotografias e documentos, por outro, o tom mistura o nervoso das situações pessoais com a confissão de uma carta íntima, quase um diário. O resultado é um puzzle gigante carregado de empatia.

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16 – Ardalén – Miguelanxo Prado – Uma das mais recentes obras de Miguelanxo Prado surpreende pelo diferente formato em relação à maioria dos seus álbuns anteriores, normalmente compostos por séries de episódios que se relacionam entre si, nem que seja em temática. Aqui conta-se uma história que utiliza as particularidades da memória tendo, como personagem principal, um velhote que carrega na sua cabeça diversas histórias – qual será a sua?

o negócio dos livros

17 – O Negócio dos livros – André Schiffrin – Para além da perspectiva pessoal como editor, O Negócio dos livros tem interesse sobretudo pela oposição de dois modelos de negócio bastante distintos nas editoras. Se por um lado as editoras mais tradicionais (e realmente interessadas em lançar boas obras) se mantém pelas vendas a médio longo prazo, apostando em livros que se possam tornar futuras obras de referência, tanto pelo aspecto cultural como pelo aspecto académico, as editoras maiores e mais recentes, transformam o conceito em venda de modas, apostando em best-sellers e renovando títulos a um ritmo alucinante. O primeiro continua a ser um modelo de negócio mais tradicional e comedido, o segundo é uma máquina de fazer dinheiro e sustentar regalias milionárias.

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18 – 12 – A Doce – François Schuiten – A história começa como uma simples (mas eficiente) relação homem máquina, mostrando um maquinista que dedicou a sua vida à máquina alimentada a carvão. Quando a indústria se inova, o maquinista tenta resistir. As tentativas valer-lhe-ão um lugar na cadeia mas, ainda assim, encontrando-se novamente em liberdade, apenas pensa em reencontrar a máquina com que se ocupou toda a sua vida, num mundo de sinais apocalípticos onde as águas sobem perigosamente. Se no início se estabelece a sensação de uma história agradável, clássica mas simples, com as diferenças da realidade descrita evolui-se para a exploração do desconhecido, a partida em demanda, a busca por um propósito que os tempos parecem querer apagar e esquecer.

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19 – The Loney – Andrew Michael Hurley – Sem cenários de sangue espalhado por cadáveres e sem assassinos em sério, The Loney consegue tornar-se um dos melhores livros de horror apenas pela criação de um ambiente peculiar e pela sugestão de algo (nunca verdadeiramente dito). Inconformada com a deficiência de um dos filhos, a mãe investe toda a sua energia num estilo de vida piedoso com uma obsessão por rituais religiosos que devem ser seguidos de forma perfeita no momento certo – só assim se conseguiria atingir o estado de pureza necessário para um milagre. É assim que o filho mais novo acaba por se tornar ajudante do padre, como prova de devoção e forma de redenção. Com reminiscências de Of Mice and Men na forma como os dois irmãos se relacionam (e as alusões aos ratos) a narração vai construindo uma história de várias facetas onde nada do que acontece é propriamente uma surpresa. Percebendo-se o que se segue, mas sem saber como, constrói-se um ambiente de expectativa que gera o terror mais psicológico e interior, neste caso exacerbado pelo fervor religioso que impede que se percepcionem os verdadeiros acontecimentos.

o livro_ zoran

20 – O Livro – Zoran Zivkovic – O mais recente livro publicado em Portugal de Zoran Zivkovic desmancha não só o livro enquanto objecto estático, mas todas as profissões que participam na sua concepção. E se os livros fossem serem conscientes e sencientes, capazes de nos relatar os seus sentimentos e pensamentos? Esta é a premissa inicial que descreve a forma como se sentem explorados e violados, premissa que evolui facilmente para o nascimento de um livro e para o acaso que reúne um molho de páginas sob um capa alienada de sinopse vaga. A premissa, apesar de ser simples, desenvolve-se de uma forma brilhante para desconstruir todo o processo de criação de um livro.

os vampiros

21 – Os Vampiros – Filipe Melo e Juan CaviaDepois de aventuras sobrenaturais com Dog Mendonça e Pizzaboy, a dupla explora um tema bastante mais pesado – a Guerra Colonial. Esta Guerra decorreu sobretudo na selva densa e desconhecida e transformou-se rapidamente numa batalha psicológica. Sem poderem visualizar o que se esconde por detrás de cada arbusto, árvore ou monte de folhas os soldados sentem-se vulneráveis, constantemente surpreendidos por eventos pontuais que são psicologicamente devastadores e que criam desequilíbrios mentais.

Casos do direito galáctico e outros textos esquecidos

22 – Casos de direito galáctico e outros textos – Mário Henrique-Leiria – Gostando de outros livros de Mário Henrique-Leiria (como a dupla Contos do gin tonic e Novos contos do gin) achei que o conjunto de textos que dá o título ao livro está envolto numa tal genialidade absurda que o coloca léguas dos restantes. Basta considerar a ideia, uma série de textos que discutem casos legais de conflito entre espécies alienígenas. A lógica humana não se aplica (até porque entre viagens do tempo, auspícios de futuro e outras dimensões, há que encontrar nova lógica) mas ainda assim é possível discernir uma carregada sátira social.

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