A Noite que fora de Natal / Carta do Pai Natal / Os Mortos

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Se, nos dois volumes anteriores, os livros amarelos continham textos antagonistas ou contrastantes, este livro amarelo que afinal é vermelho tem o Natal como temática e como tal apresenta-nos três textos dentro deste contexto. Sem o usual enquadramento dos autores ou dos textos, reúne três clássicos de três autores intemporais: Jorge de Sena, Mark Twain e James Joyce.

A Noite que fora de Natal, de Jorge de Sena (também publicado em Antigas e Novas Andanças do Demónio) é, à semelhança de outros textos do autor, uma história que pode ter várias leituras e que mistura um certo lado subversivo, característico, enquanto confronta a beleza da mortalidade com crenças pagãs associadas ao nascimento de um Deus, com a consequente propagação do Cristianismo entre os romanos. Conto peculiar que consegue desapropriar um assassinato do seu horror e conceder-lhe uma perspectiva estética dentro do ritualismo pagão, misturado com uma certa loucura impregnada de pânico (elemento decerto não inocente ao partir da referência ao Deus Pã). Sobre a edição isolada deste conto, pelos Estúdios Cor em 1961, aconselho a leitura desta entrada no blogue de Pedro Marques.

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Mantendo a temática do Natal, Carta do Pai Natal de Mark Twain é uma adorável carta que o autor terá escrito para a filha de três anos. Adorável porque, não sendo condescendente, dá a devida importância à possível forma de comunicar da criança em detrimento da usada pelo adulto, explicando-lhe a razão pela qual não conseguiu perceber todos os seus desejos. Mantendo a ilusão da figura do Pai Natal expõe as necessidades de outras crianças, mais pobres, acreditando que a criança decerto verá  o motivo pelo qual alguns dos brinquedos que pediu não foram entregues.

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Partindo de uma oposição entre o passado e o presente, a vida e a morte, Os Mortos de James Joyce (que pode ser encontrado no livro Dublinenses) centra-se numa ceia em festa vista por um homem com manias de superioridade que vê todos os acontecimentos que o rodeiam à luz dos seus estudos, de uma forma distante, pouco envolvida, quase fria, mesmo quando dança com algumas jovens, mais alegres. Crítico da demasiada ligação para com acontecimentos passados que vê como desnecessária, acaba confrontado com o passado da esposa, quando esta se recorda de uma antiga e curta paixão, em que a curta existência do seu apaixonado é uma descrição invejável de intensidade, principalmente para quem existe de forma tão pouco palpável.

Este livro amarelo que se vestiu de vermelho para o Natal faz parte da colecção Livros Amarelos publicados pela Editora Guerra e Paz.

Um pensamento sobre “A Noite que fora de Natal / Carta do Pai Natal / Os Mortos

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