O Diabinho da Mão Furada – António José da Silva (O Judeu)

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De origem judaica, a vida de António José da Silva é marcada pela perseguição do Santo Ofício, nascendo no Brasil depois dos pais emigrarem com o objectivo de fugirem da Inquisição portuguesa. Acabam por encontrar, no outro lado do Oceano, práticas semelhantes contra os Judeus, que os trazem de volta a Portugal.

Cá, António José da Silva é acusado de práticas judaicas por diversas vezes, acabando por falecer com 34 anos quando é considerado culpado num dos julgamentos. Entre estes eventos que lhe terão retirado algumas faculdades físicas escreveu algumas obras, quase todas satíricas, ridicularizando a corrupção da sociedade nos mais diferentes patamares.

O Diabinho da mão furada é um exemplo deste espírito crítico, onde um soldado, pernoitando num casebre abandonado, encontra um diabo que faz questão de o ajudar. Precavido, o soldado não tem como se livrar de tal companhia, mas vai resistindo às tentações que o diabo apronta a cada paragem.

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Pelo caminho assiste, em sonhos, aos castigos aplicados no Inferno a mentirosos e traidores, onde não escapam os pobres, os senhores ou os reis. A cada é aplicado um tormento diferente de acordo com as faltas que cometeu, ou da situação privilegiada de que se aproveitou para proveito próprio.

Para além de sonhos depara-se com pequenas maravilhas, cenários fantásticos com qualidades ou pecados humanizados, como personagens em papéis estranhos, metáforas que lhe são explicadas pelo diabo, conhecedor das fraquezas da humanidade.

Mas não fosse a sua companhia o diabo, e, para além das maravilhas, surgem-lhe no caminho diversas tentações, riquezas sem par ou belas mulheres, às quais tenta resistir, avisado pelos sonhos que tanto tormento lhe mostraram.

Com todos estes aspectos a obra tem, sem dúvida, momentos interessantes, mas possui uma tal amargura perante os defeitos da humanidade que se perde, por vezes, o efeito irónico. Este efeito é, ainda, amortizado pela personagem, um simples soldado a quem todas as metáforas têm de ser explicadas.

São interessantes os momentos em que os pecados são transformados em figuras humanas, adoradas ou ajudadas por pessoas, em cenários representativos da queda humana, mas a necessidade de listagem consegue tomar grande importância, deixando para trás a linha narrativa.

 

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