Memórias do Eterno Presente – Schuiten & Peeters

A história decorre num futuro pós-apocalíptico e distópico onde um rapaz descobre um livro. Farto dos mesmos ensinamentos não fundamentados e não explicados, o rapaz entusiasma-se com o livro que terá um conteúdo proibido – explicará o que existia antes do reinado actual, mostrando uma civilização que excedeu os limites da tecnologia e da ciência e, na sua arrogância, efectua experiências catastróficas.

Por todo o lado vemos pedaços da tecnologia existentes antes da catástrofes, grandes roldanas, transportes e mecanismos que não são mais usados de forma automática, mas empurrados à custa de trabalho braçal. A razão para o abandono da tecnologia é escondido dos comuns cidadãos e as perguntas são desencorajadas.

Quando chega o final do livro, o rapaz não tem mais medo. Faltam páginas e a curiosidade ultrapassa tudo o que lhe ensinaram. Deambula então em busca de respostas, algo que lhe explique a situação actual.

Com detalhes arquitectónicos deliciosos, construções minuciosas e sonhadoras, monumentos avassaladores e imaginativos, Memórias do Eterno Presente está impregnado de uma nostalgia contagiosa simultaneamente exacerbada e controlada pela censura vigente e pela culpa esmagadora.

Sente-se o peso da responsabilidade de tentar ultrapassar determinados limites tecnológicos, a paga por se tentar assumir o papel de Deus e construir aquilo que não deve ser construído por humanos – um sentimento comum a alguns clássicos, em que o medo da magia foi substituído pelo medo da ciência. Algo que podemos ver, por exemplo, em Frankenstein.

Aqui existe, no entanto, um pequeno renascer, uma esperança em prosseguir para além da estagnação imposta. O rapaz procura algo mais do que os escassos horizontes que o rodeiam numa atitude inesperadamente pouco submissa, uma atitude que é recebida com surpresa por aqueles que o rodeiam.

Ainda que a premissa não seja totalmente original, Memórias do Eterno Presidente apresenta uma abordagem própria que, em conjunto com as ilustrações, tornam este volume num conto delicioso, envolvente e interessante.

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2 pensamentos sobre “Memórias do Eterno Presente – Schuiten & Peeters

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