Herland – Charlotte Perkins Gilman

A ideia de uma sociedade constituída exclusivamente por mulheres não é nova – tem vários séculos, para não dizer milénios e o mito grego poderá ter ganho força (ou inspiração) num grupo de nómadas iranianos onde se poderiam encontrar mulheres guerreiras.

De forma bastante diferente, mas revolucionária, Herland foi escrito há mais de um século e ninguém o diria se o lê-se sem saber a data de publicação. Não só pela prosa, que é escorregadia, mas sobretudo pelas ideias originais e avançada para a época, onde o contraste de uma sociedade exclusivamente feminina permite vislumbrar pessoas e não géneros, sem condescendências ou agressividades.

Herland começa por nos apresentar um grupo de três exploradores (homens, claro) que parte em busca de um rumor onde se expressa a existência de uma civilização composta apenas por mulheres. A expectativa é baixa. Sem homens decerto que não terão ordem nem ciência. Esperam uma sociedade caótica, desorganizada e fútil, onde as mulheres se sentam a fazer casacos de malha ou a cochichar.

O que encontram não podia ser mais discrepante. Pensando, inicialmente, que existirão homens (escondidos) que justifiquem a civilização que encontram, são capturados por várias senhoras que, educadamente, os mantém em quartos compostos. O dia a dia é passado a aprender a língua desta civilização, mostrando estes homens o quão superior pensam ser.

Apesar da origem comum, os três homens apresentam perspectivas bastante diferentes. O narrador é mais acessível e rapidamente percebe que a civilização que encontrou corrigiu todos os defeitos da sua – sem religião (ou pelo menos num conceito bastante diferente) e sem conflitos, é uma sociedade próspera com capacidade de evolução, em que se concede a liberdade de prosseguir as inclinações de cada indivíduo, deixando o papel da educação aos mais sábios e experientes com uma dissociação lógica entre o papel de progenitora e mãe.

É desta forma que aprende a ser parceiro da mulher que o ensina e a aceitá-la como ser inteligente, capaz e igual, algo que não ocorre com outro dos membros do grupo que conhece apenas a lógica do forçar o género feminino ao interpretar o não como sim obscuro, minimizando o querer individual e mostrando-se como incapaz de percepcionar uma mulher como um indivíduo por si.

Tão interessante quanto a sociedade descrita é a evolução do narrador quando confrontado com as diferenças, inicialmente relutante e céptico em relação à perfeição daquela cultura, mas que, com a constante exploração e confronto de ideias, percebe as diferenças, a igualdade entre os membros daquela irmandade, impossível no mundo de competição e corrupção em que cresce.

Interessante não só pela perspectiva de género mas pela perspectiva de construção social em que, sendo possível a igualdade, é também possível o desenvolvimento individual e a concretização das capacidades de cada um, Herland torna-se uma leitura excepcional por conseguir apresentar todas estas ideias de uma forma estável, coesa e lógica.

2 pensamentos sobre “Herland – Charlotte Perkins Gilman

  1. Desta autora, só tenho o Yellow Wallpaper e outras short stories (que li há uns anos e tenho uma review publicada algures no meu blog) e desde então que tenho muita curiosidade em ler este, até por ser uma obra de ficção mais longa. Estas edições da Vintage são lindíssimas também!

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s