The Tangled Lands – Paolo Bacigalupi e Tobias S. Buckell

Este volume tem a particularidade de reunir quatro histórias de dois autores (duas histórias de cada autor) que decorrem numa mesma realidade. As histórias são coerentes entre si, apresentando perspectivas diferentes que se complementam. O resultado é interessante, mostrando um mundo onde uma premissa simples permite demonstrar o pior lado da espécie humana.

Na realidade aqui descrita o preço a pagar pela utilização da magia é demasiado elevado – cada vez que se faz um feitiço alimenta-se uma perigosa erva daninha, uma erva capaz de crescer em todo o lado e que envenena os seres humanos, deixando-os num sono interminável. Esta praga asfixia as cidades que, com o seu uso recorrente da magia, vão caindo, uma a uma. Surgem os refugiados e os bárbaros que têm como objectivo eliminar os que praticam a magia.

Se, nalguns lados, se tenta opor o crescimento da erva com mais feitiços, aqui a história começa por nos apresentar um alquimista, um homem que tenta recorrer às reacções químicas para matar a erva. Investindo todo o seu dinheiro nesta tentativa e passando da riqueza à pobreza, o homem descobre finalmente uma form.. Mas ao contrário do que pensa, o novo mecanismo não será usado para o fim com que o construíu, mas para ajudar a impor uma dura ditadura em que todos os cidadãos que realizam magia apresenta aura azul e acabam nas mãos do carrasco. Quem controla a cidade arranja, assim, uma forma de ser o único autorizado a usar a magia.

A segunda história centra-se no carrasco. Ou melhor, na filha do carrasco que é obrigada pelo pai a ir em seu lugar no seguimento de uma longa doença. A primeira vez que desempenha estas funções não corre pelo melhor, não só por não conseguir dar um golpe limpo, mas porque quando regressa encontra a casa encontra-se pilhada, o marido morto e os filhos raptados por bárbaros. Desesperada persegue-os e com o seu machado consegue surpreender um dos que ficou para trás, mas acaba por se envenenar com a erva maldita e sucumbir. Recolhida por uma caravana de mercadores, a executadora cria, com a sua coragem em enfrentar um dos bárbaros uma lenda que irá originar uma revolução contra os bárbaros.

Na terceira história deste conjunto encontramos um rapaz refugiado de uma cidade caída, um rapaz que deixou de ser um nobre rico e passou a exercer, com a irmã, a pior profissão da cidade: apanhar as sementes da praga que tudo consome, correndo o risco de desaparecerem num sono profundo. Quem se descuida é a irmã que se deixa picar vezes suficientes. O rapaz bem tenta proteger o seu corpo, mas não havendo remédio para a maleita, a irmã passou a ser mais um corpo inútil, um corpo que pode ser usado por outros para fins obscuros.

Na quarta e última história conhecemos uma família de ferreiros que se vê na miséria. Tendo aceite fazer uma armadura para o filho de um nobre, não possuem dinheiro suficiente para terminá-la. Tendo o nobre dado um pequeno adiantamento persegue-os e pressiona-os, com o intuito de lhes extorquir uma boa armadura por bom preço.

As histórias deste conjunto coeso são, sobretudo, de pouca esperança. A realidade onde decorrem está em colapso, com os seres humanos a deixarem cair cidade após cidade. As consequências de tal progressão da praga fazem-se sentir em todas as facetas da sociedade e resultam num aproveitamento pelos mais fortes e ricos, que utilizam a situação limite para concretizarem as suas ambições.

De realçar que, nestes livros, encontramos heroínas fortes – mas nem por isso esperem impossíveis. A filha do carrasco torna-se uma lutadora mas, dada a sua pouca prática no manejo de armas não é invencível nem consegue destruir exércitos inteiros, apesar da fama que a precede. Já a filha do ferreiro é uma mulher forte e capaz de fazer frente a soldados, mas nem ela é capaz de impedir aqueles que detêm maior poder.

A realidade aqui expressa é dura mas verosímel e apesar de termos alguns actos heróicos, numa sociedade de estrutura medieval o poder cabe sobretudo a homens que olham apenas pelos seus próprios interesses, manipulando e maltratando aqueles que podem. Existem algumas episódios em que o herói consegue aquilo que pretende, mas nunca tudo – se, por um lado, tem sucesso na sua empreitada, por outro, não irá sair incólume do episódio que não pediu que ocorresse.

O conjunto é bastante agradável e coeso (apesar de escrito por dois autores diferentes) e as histórias destacam-se por, apesar de pertencerem ao género de fantasia, serem balanceadas, com circunstâncias duras apesar da utilização da magia.

2 pensamentos sobre “The Tangled Lands – Paolo Bacigalupi e Tobias S. Buckell

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