A instalação do medo – Rui Zink

Quando caracterizo, como negativo, o facto de uma história ser episódica e pouco mais apresentar (algo que tenho feito principalmente em contos) esqueço-me que, quando bem contado, um episódio pode expressar todo o mundo onde decorre. Neste caso A instalação do medo decorre numa realidade distópica de características autoritárias onde as condições se degradaram fruto de uma economia impossível, economia essa de princípios com elevado paralelismo à nossa. O resultado é um retrato cínico e perspicaz que aproveita a estranheza do ambiente para espelhar uma realidade com demasiados elementos possíveis.

O episódio relatado em A instalação do medo começa com uma senhora a abrir a porta a uma equipa de instalação. Mas antes, esconde a criança na casa de banho. Percebemos que é prioritário que ninguém encontre a criança e a menção da necessidade dos elementos da equipa usarem a casa de banho aguça os sentidos da mãe protectora. Felizmente, o elemento aflito aproveita uma ida à carrinha para se aliviar, e após a instalação técnica começam as demonstrações, representadas por ambos os elementos:

Convenhamos, quantas serpentes subindo sanita acima podem existir numa mesma cidade? as estatísticas podem ser um bom aliado do medo, mas demasiadas vezes funcionam como inibidor. Provavelmente, como se costuma dizer, “só acontecerá aos outros”. Durante alguns dias, sim, podemos ter receio em sentar-nos na sanita, e espreitemos debaixo da cama a ver se não tem intrusos, mas depois começamos inevitalmente a relaxar e…

Em conjunto a dupla explora os mais diversos medos, sejam provenientes de violência animal ou humana, passando pelos cenários de desastre económico:

Quando ficam nervosos, os mercados partem coisas.
Aí , quando virmos que toca a nós, minha senhora…
Será cada um por si. (…)
Temos de vender as reservas de ouro.
Vender os anéis.
Vender os dedos, se necessário.

Se não pelos mercados, pelas acções oscilantes:

O Sousa tem razão, minha senhora. O segredo está na linguagem.
Na linguagem complicada.
Palavras inglesas, ásperas e aguçadas.
Como chaves inglesas
Enigmas inglesas.
O código é a chave.

Exposição a exposição, a senhora mostra-se temerosa, mas o verdadeiro medo, de que a dupla de instaladores não se apercebe, está na possível descoberta da criança, há demasiado tempo escondida na casa de banho. As situações ensaiadas são diversas, extrapolações de possibilidades que aproveitam epidemias tenebrosas, a desconfiança para com etnias diferentes ou a armadilha de um assassino em série – o desastre ocasional confronta-se com a maldade intencional numa sucessão de cenários diversos.

Vencedor do prémio Utopiales de 2017, ultrapassando outros  nomeados como Luna de Ian McDonald, Railsea de China Miéville ou My real children de Jo Walton, A instalação do medo é uma história curta e distópica de final inteligente e cortante que pouco ou nada foi divulgada aquando do lançamento em Portugal e sobre a qual não me recordo de ter lido críticas anteriores ao prémio. A edição portuguesa é pela Teodolito.

2 pensamentos sobre “A instalação do medo – Rui Zink

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