Mindex – Fernando Dordio, Pedro Cruz e Mário Freitas

Há alguns anos uma conhecida marca de televisores alertava os consumidores para não terem conversas privadas em frente dos aparelhos. Isto porque, sendo televisores que obedecem a comandos de voz, estariam ser recolhidas as palavras ditas pelas pessoas – e nem sempre estas palavras seriam apenas instruções para o televisor, mas conversas privadas.

Recordo-me deste episódio ter suscitado mais arrepios do que a captação de dados pessoais do Facebook – até porque aquilo que partilhamos nos parece uma escolha consciente (ainda que nem sempre a pessoa se aperceba de todas as implicações). Mas se o nosso televisor nos espia a intimidade, de alguma forma sentimos uma maior quebra de confiança.

Mas, e se a tecnologia não estivesse só na privacidade das nossas casas, mas na privacidade das nossas mentes? E se as nossas memórias fossem passíveis de gravação para que as pudessemos visualizar no futuro? Quem não gostaria de recordar determinado momento no passado? É com base nesta premissa que a DigIT, uma empresa de tecnologia lança o seu produto inovador! Este produto não é apenas capaz de gravar as memórias, como de as indexar para mais fácil pesquisa no futuro! Tentador?

Mas a tecnologia tem um preço. Neste caso, um preço que o consumidor não é capaz de antecipar! E se as nossas memórias também puderem ser visualizadas por terceiros? Alteradas? Ou apagadas? Será a nossa personalidade resultado das nossas vivências e dos nossos laços familiares? E qual o resultado nos nossos relacionamentos?

Mindex é uma distopia que nos apresenta uma realidade em que esta tecnologia existe, nas mãos de uma grande companhia com interesses obscuros. Se, numa primeira fase, se estava a falar apenas de gravação de memórias, a alteração de memórias possibilita a manipulação de populações em larga escala.

Do ponto de vista narrativo, Mindex não aborda o tema de forma directa, mas colocando várias personagens neste mundo e mostrando-nos a perspectiva de cada uma. O resultado é um mundo com dimensão que permite ao leitor criar a sua própria visão do conflito.

Mindex não é “apenas” uma distopia, mas um apelo à consciência, à resistência às grandes corporações que ameaçam vir a tornar-se a próxima forma de governo, seja de forma visível, seja nas sombras, manipulando tudo e todos.

Mindex foi lançado pela Kingpin Books.

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