Melhores Leituras de 2020 – Banda Desenhada

Mais de 200 leituras depois (consultáveis no Goodreads) eis a minha listagem das melhores bandas desenhadas de 2020.

Obras portuguesas

É impossível não começar pelo novo livro de Filipe Melo e Juan Cavia. Balada para Sophie distingue-se pela qualidade na edição, pela narrativa e pelo desenho. O resultado é uma obra que pode ser encontrada entre as melhores leituras do ano, quer sejam nacionais ou internacionais.

Balada para Sophie é uma história que nos apresenta uma inevitabilidade trágica, um destino partilhado de dois homens, ainda que a interacção directa entre os dois seja diminuta ou quase inexistente. Existem alguns (poucos) elementos fantásticos que podem enquadrar a história em realismo mágico. O resultado é uma obra que usa alguns clichés mas de forma correcta e que deixa uma sensação de plenitude no final da leitura.

De desenhador português, Miguel Jorge, Shanghai Dream leva-nos a Berlim, ao ano de 1938, mais propriamente a acompanhar o êxodo dos judeus para a China com a crescente perseguição sob o regime Nazi. Sair do país não será fácil, mas o casal lá consegue dois bilhetes a bordo de um barco. Até lá adiam sonhos e enfrentam contratempos, incapazes de trabalhar na indústria cinematográfica e de fazer valer as suas capacidades. Mas a saída do país não será concretizada da forma planeada. Shanghai Dream é uma boa leitura, mas destaca-se sobretudo pela componente visual: expressivos e detalhados.

O Penteador foi uma das grandes surpresas do ano. Não é de um autor conhecido, nem tem uma edição em capa dura. Trata-se de uma banda desenhada a preto e branco que contém uma das histórias mais bem dispostas que fiz este ano. A narrativa cruza alguns detalhes caricatos das terriolas portuguesas com ficção, centrando-se numa localidade inexistente. O Penteador apresenta-se como uma sucessão de episódios bem dispostos e divertidos, com personagens peculiares e simpáticas, deixando um sorriso no rosto após a sua leitura ou aquando da sua recordação.

Menções honrosas

Vida de adulta é um bem disposto relato contado num tom auto-biográfico. A autora apresenta os problemas quotidianos da sua geração e algumas situações banais que se tornam cómicos pela forma como a autora os apresenta. Por sua vez, O Bestiário de Isa é o mais recente lançamento de Joana Afonso, um pequeno livro introdutório que nos apresenta uma nova personagem. Apesar de ser bastante curto é interessante em termos narrativos, tendo como principal defeito a excessiva densidade das cores (que se pode dever à impressão). Curiosa para ver o resultado final.

Random é o resultado de uma campanha de financiamento PPL. A história apresenta-nos um homem farto de tudo e de todos, que resolve passar a responder a qualquer mínima falta de respeito ou consideração. Carregado de violência é um bom trabalho em termos narrativos e visuais. Já Mindex destaca-se sobretudo pela componente narrativa, apresentando-se como uma distopia arrepiante. A premissa é relativamente simples e já a vi explorada noutras histórias, apresentando um dispositivo capaz de guardar as nossas memórias. Mas nesta história as memórias também podem ser alteradas, manipuladas e eliminadas. O resultado é uma história de raízes cyberpunk, movimentada e futurista.

Entre as leituras deste ano encontra-se, também, a Apocryphus SCI-FI. Se a maioria dos números anteriores se destacavam pela qualidade visual e pela edição, neste caso destaca-se, também, pela qualidade narrativa, tendo a participação de vários autores conhecidos de ficção cientifica. Por último, Alice de Luís Louro é uma reedição de luxo de uma obra do autor que retrata Lisboa de formas distintas: a Lisboa nocturna carregada de vícios e esmagadora de sonhos, e a Lisboa utópica e fantástica que emerge dos sonhos de uma prostituta.

Obras de autores estrangeiros

Melhor Ficção Histórica

Os três primeiros volumes da série La Balada del Norte foram das melhores leituras que fiz em 2020. A série prevê compor-se em quatro volumes, sendo que o autor está a escrever o quarto durante o confinamento. La Balada del Norte leva-nos às Astúrias, mais propriamente à companhia mineira e aos conflitos a ela associados durante a II República. Alfonso Zapico centra-se em personagens opostas para contar os conflitos e explicar os acontecimentos numa perspectiva mais envolvente. Trata-se de uma leitura épica que apresenta uma época historicamente pesada, mas que ao contrapor com uma vertente mais próxima das personagens consegue adquirir outra dimensão.

Soldados de Salamina é uma adaptação, para banda desenhada, do romance de Javier Cercas. A história é apresentada do ponto de vista de um jornalista que reconstrói um episódio em que um falangista consegue escapar a um pelotão de fuzilamento. Como e a que custo são elementos que são abordados pelo jornalista, mas a componente mais interessante é o recontar dessa mesma história sob uma perspectiva mais humana e menos factual.

Menção Honrosa

É raro encontrar um livro de ficção que se centre na época da ditadura Salazarista, mas As Paredes têm ouvidos é um retrato das atrocidades em ditadura que aborda de forma eficaz várias personagens durante essa época, demonstrando como a PIDE facilmente voltava amigos contra amigos.

Horror

Gideon Falls, a série de horror de Jeff Lemire publicada em Portugal pela G Floy foi considerada uma das melhoras de 2019 (sendo que em 2019 apenas tinha lido o primeiro volume). Este ano prossegui a série e constata-se que é uma boa série de horror, carregada de elementos lovecraftianos, bem como elementos de ficção científica. É uma história arrepiante que conseguiu surpreender e fazer crescer o mistério inicial.

O autor de Harrow County e O Homem Vazio tem uma nova série de horror, Bone Parish. Conceito interessante e desenvolvimento aterrorizante – Bone Parish apresenta-nos uma família mafiosa que comercializa uma nova droga feita a partir dos restos de cadáveres humanos. Alucinações realistas e assombros fantasmagóricos são apenas alguns dos efeitos secundários da nova droga. A narrativa ganha novo impulso quando outras grupos mafiosos entram em competição pelo mesmo território e pelo produto.

Ficção Científica

Visualmente peculiar, Sonata é uma história de banda desenhada que cruza vários conflitos para tecer a sua narrativa. A história tem altos e baixos e julgo que beneficiaria de mais páginas para se estender. Neste narrativa duas culturas humanóides (e de perspectivas opostas) ocupam um mesmo planeta. Se uma das culturas estabelece laços com os nativos de aspecto primitivo, a outra cultura trata-os como animais, julgando-se superior. Os conflitos, quer com os nativos, quer entre as duas culturas humanóides parecem inevitáveis.

Apesar dos clichés usados na narrativa, o autor consegue colar algumas relações de causa efeito, tecendo uma mitologia peculiar e interessante, enquanto desenvolve uma história mais terra a terra em torno das personagens de todas as culturas envolvidas. Recorre-se à mística, mas apresentando-a como poderes de uma espécie superior. O visual apresenta vários planos fabulosos, tirando partido de uma paisagem alienígena.

Depois de fechar Descender, Jeff Lemire aproveitou o mesmo Universo e as mesmas personagens para criar uma nova série, alguns anos depois. Se, em Descender, o Império entra em confronto com as Máquinas, numa batalha épica e desvastadora, em Ascender vamos conhecer o resultado desse confronto. As civilizações humanas entraram em declínio, e um novo poder, maléfico, assente na magia, surgiu, conquistando vários planetas e transformando-os em ditaduras frias onde o medo é a principal arma usada. O conceito está interessante, restando perceber como Jeff Lemire o vai evoluir.

Western

O Homem que Matou Lucky Luke é uma fantástica homenagem a Lucky Luke, mostrando uma aventura com referências às tradicionais histórias do cowboy. Nesta história, Lucky Luke nunca consegue fumar – ora porque se acaba o tabaco, ora porque o último cigarro é varrido pelo vento. A par com isto, apresenta-se uma narrativa com o seu habitual espírito desenrascado, com uma boa qualidade visual.

Este Tex de quase 200 páginas apresenta uma boa complexidade narrativa, desenvolvendo personagens e explorando a história da Argentina. Esta aventura explora conflitos reais, colocando nestes as suas personagens ficcionais. O desenho é bom, detalhado quando necessário, mas também acompanhando trechos mais movimentados, demonstrando confrontos e batalhas. É uma boa aventura que pode ser lida sem se conhecerem outras aventuras de Tex.

Fantasia

Esta é daquelas leituras que adiei devido à sua avultada fama – o que encontrei? Algo extraordinário. Habibi apresenta uma épica história intrincada populada com simbolismos e contos. O desenho é fabuloso, com páginas belissimamente desenhadas que vão apresentando diferentes padrões e composições. Habibi encontra-se, tanto em termos visuais como narrativos, entre os melhores livros que li nos últimos anos.

I Hate Fairyland, composta por 4 volumes, foi uma das minhas séries fantásticas favoritas. Ainda assim, achei que em dois dos volumes o autor se estendeu excessivamente na exploração das mesmas reviravoltas e dos mesmos conceitos. Em Middlewest o autor tece uma história fantástica em que usa correctamente os vários clichés do género, criando e desenvolvendo boas personagens enquanto explora uma premissa simples mas interessante.

O Castelo dos Animais, publicado pela Arte de Autor numa fabulosa edição, foi, também, uma das melhores leituras de 2020. O primeiro volume apresenta-nos uma premissa que recorda Animal Farm de George Orwell com uma sociedade composta por diversos animais que controlam a sua própria quinta. Mas aqui quem governa é o touro, auxiliado pelos cães que estabelecem um clima de terror. A história é contada na perspectiva de uma gata que tenta ganhar o sustento suficiente para alimentar os seus filhotes. O segundo volume já está previsto para 2021.

Menções honrosas

O Pacto da Letargia apresenta um tom diferente de Miguelanxo Prado, numa história de teor fantástico mais positiva e mais desenvolvida do que noutros dos seus livros. A história cruza elementos mitológicos com a acção do homem na natureza, numa história de fortes elementos fantásticos.

Por sua vez, Sete para a Eternidade centra-se num mundo fantástico governado por um tirano de fortes poderes. A história apresenta uma família que não se deixou dominar pelo tirano e deambula de terra em terra, procurando criar o seu próprio espaço. Mas este caminho é difícil e algumas complicações de saúde impedem que a família continue independente.

Karmen, livro publicado na mais recente colecção Novela Gráfica, consegue surpreender pelo visual e pela narrativa. A premissa não é propriamente original, centrando-se numa jovem que se suicida. O anjo que a vem buscar concede-lhe alguns momentos para explorar o mundo e as pessoas a quem estava ligada, demonstrando-se outras perspectivas sobre os mesmos acontecimentos.

Histórias de Detectives

Blacksad é outra daquelas leituras que fui adiando, sem saber o que iria encontrar. Trata-se de uma homenagem às histórias de detectives, apresentando, como personagem principal, um detective privado, claro. O que Blacksad tem de peculiar é apresentar figuras de animais humanizadas como personagens, utilizando os enredos típicos destas histórias para tocar em assuntos políticos e sociais, como o racismo.

Stumptown é daqueles livros cuja publicação parece ter passado despercebida. É, também, uma história de detectives, mas tem, como personagem principal, uma mulher. A narrativa apresenta as principais características do género mas destaca-se pela personagem, uma mulher que se arrasta pela vida, entre as dívidas de jogo e as responsabilidades pessoais.

Outras narrativas

Esta foi uma das grandes surpresas de 2020. Por algum motivo não esperava uma leitura tão envolvente. Este primeiro volume apresenta várias histórias em torno de vários irmãos de origem italiana, mas vivendo no novo continente. Cada episódio alonga-se por poucas páginas, apresentando um conflito, uma solução transitória e uma reviravolta final. As histórias apresentam todos os clichés dos emigrantes italianos, levando a interacções caricatas e situações inusitadas.

Tal como o primeiro volume, o segundo de Verões Felizes recorda a infância, a algazarra em família durante as férias, a convivência e os planos falhados, mas solucionados. É uma excelente leitura, que traz memórias agradáveis. Paracuellos é uma série auto-biográfica em que o autor recorda a sua própria infância nos colégios internos do estado. Entre a pobreza e as doenças, várias crianças são deixadas nestes colégios onde se sucedem castigos corporais. Para fechar, Sabrina surpreende pela abordagem num desaparecimento, seguindo o namorado da rapariga desaparecida e o amigo, e mostrando como a sua realidade é assaltada por notícias falsas e teorias da conspiração.

Melhores leituras de anos anteriores

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