Melhores Leituras do Semestre (2020)

Este primeiro semestre de 2020 foi estranho em todos os sentidos. De forma geral estou a ler mais do que no ano anterior (já atingi os 100 livros), mas por outro, estou com menor concentração para ler livros grandes e pesados. Vou lendo, mas estou a dar bastante preferência à banda desenhada. Neste sentido, estas melhores leituras são divididas entre ficção e banda desenhada, sendo que apenas na banda desenhada existirão melhores leituras por género. Não existe propriamente uma ordem dentro de cada secção. Podem consultar a lista de leituras já realizadas este ano no Goodreads.

Melhor Ficção

Os Tempos do Ódio – Rosa Montero

A trilogia de Bruna Husky de Rosa Montero (autora espanhola) é das melhores coisas que li de ficção científica nos últimos tempos. Inspirada no mundo de Blade Runner, a autora centra-se num futuro distante, na zona da Península Ibérica. Neste futuro, existem humanos produzidos sinteticamente que têm várias alterações genéticas que os tornam aptos para algumas tarefas – mas que têm, também, uma vida mais curta.

Ao contrário dos humanos de origem natural, não possuem infância, mas as memórias de um suposto crescimento são implantadas de forma a apresentarem comportamentos empáticos e alguma aprendizagem social. Bruna Husky é uma rep (humano criado artificialmente) de combate que tem memórias muito peculiares que a fazem ser diferente dos restantes. Assim, terminado o seu tempo de trabalho obrigatório, ao invés de integrar as forças policiais, é detective privada e investiga crimes, especialmente quando relacionados com reps.

A escrita é boa, intercalando momentos mais movimentados com outros mais introspectivos e apresenta-se de forma a apresentar críticas sociais, com perspectiva sobre racismo, ecologia e sociedade.

(podem ler uma crítica mais completa AQUI)

Exhalation – Ted Chiang

Exhalation trata-se de uma antologia brutal de Ted Chiang, o mesmo autor que escreveu a história por detrás do filme Arrival. Aqui encontramos histórias fantásticas e de ficção científica, mas mesmo as fantásticas têm uma criação de mundo bastante lógica. As premissas são simples e exploradas de forma elegante – e se o criacionismo pudesse ser comprovado pelos fósseis? E se o ser humano fosse capaz de gravar as memórias de todos os seus momentos, para rever mais tarde? E se outros animais fossem tão inteligentes quanto o homem, mas fossemos incapazes de o perceber?

(podem ler um comentário completo AQUI)

The Test – Sylvain Neuvel

Esta história curta centra-se num homem, Idir, que está prestes a realizar um teste para adquirir a cidadania britânica. Idir é um homem perfeito. Cavalheiro, simpático, prestável e gentil. Ainda por cima, dentista. A sua admissão leva-o a enfrentar um teste que será muito mais do que uma prova escrita, antes psicológica. As consequências serão traumáticas e mudarão Idir para sempre.

Em cerca de 100 páginas a autora consegue tecer uma forte crítica à recepção de migrantes (que deixam sociedades de violência e guerra) bem como aos critérios usados pelas sociedades que os acolhem. E durante a leitura é impossível não recordar o Brexit, as motivações xenófobas e o preconceito que rodeia a migração.

(podem ler uma crítica mais detalhada AQUI)

Antologia Queer de Ficção Especulativa

A Antologia Ficção Especulativa Queer apresenta contos de todos os géneros da ficção especulativa, apesar de existir uma predominância na ficção científica. Esta antologia distingue-se por reunir contos que apresentar personagens queer, sendo que o foco da história se encontra na narrativa e não na exploração da sexualidade de cada personagem. Não me interpretem mal – existem cenas de sexo e de romance, como existiriam em qualquer outra história com personagens não queer, mas existe uma narrativa interessada em contar, acima de tudo, uma sucessão de acontecimentos.

(Podem ler um comentário mais completo AQUI)

Melhor Banda desenhada Portuguesa

O Penteador Paulo J. Mendes

Bem disposto, engraçado e original. Esta foi uma das grandes surpresas do ano de um autor que me era desconhecido. Em O Penteador, um jovem chega a uma povoação (imaginária) e procura trabalho. Prontamente arranja um como penteador de manequins, sendo que, na prática, deverá cuidar de uma loja.

O dono, ausente, relaxa numa outra zona, alimentando o boato de uma doença para fugir das suas responsabilidades. Simpatizando com o rapaz, leva-o constantemente por maus caminhos, entre boas comidas e boas bebidas.

(Podem ler um comentário mais detalhado AQUI)

Mindex – Fernando Dordio, Pedro Cruz e Mário Freitas

No estilo minimalista de Pedro Cruz, Mindex apresenta uma sociedade futura em que um dispositivo no cérebro humano é usado para gravar e rever as memórias. Mas… e se outras pessoas tivessem acesso a essas memórias? E as pudessem manipular? Quais serão as consequências nos relacionamentos e na existência dessas pessoas?

Partindo desta premissa, Mindex é uma distopia com um estilo narrativo que recorda o cyberpunk, colocando as grandes corporações como os maus da fita – manipuladores, com o lucro no centro de todas as decisões e capazes de matar quem quer que se atravesse no seu caminho.

(Podem ler uma opinião mais completa AQUI)

Corvo – Inconsciência Tranquila – Luís Louro

Luís Louro volta com um novo volume do herói bem português, O Corvo. Quer o estilo gráfico, quer a narrativa evoluíram bastante desde o primeiro volume fazendo com que este Inconsciência Tranquila seja muito mais esmagador. Ao contrário do branco que dominava nas primeiras páginas de O Corvo, aqui domina o preto, havendo grande destaque nas cores.

Nesta história surge um arqui-inimigo, alguém que pretende enfrentar O Corvo recorrendo a poderes de fogo. Mas claro que pouco corre conforme planeado e o resultado é uma história hilariante.

(Podem ler um comentário mais completo AQUI).

Melhor Banda Desenhada Fantástica

O Pacto da Letargia – Miguelanxo Prado

Este volume apresenta-se num registo fantástico, pouco usual nas histórias do autor que tive oportunidade de ler. Reconhece-se a ironia, as situações inusitadas e rocambolescas, bem como uma forte caracterização de personagens. Em O Pacto da Letargia feiticeiros acordam de um sono com vários séculos e pretendem decidir o futuro da humanidade. Uma facção ainda tem fé que os humanos atinjam o equilíbrio com a terra, a outra acha que é mais rápido destruir os humanos.

(Podem ler um comentário mais completo AQUI)

Sete para a Eternidade – Rick Remender, Jerome Opeña, James Harren e Matt Hollingsworth

Ainda não tive oportunidade de tecer uma crítica a este volume, mas é fabuloso. Num tom muito mais negro do que seria de esperar numa banda desenhada fantástica, decorre num Universo em que uma criatura tem o dom de perceber o que cada um mais deseja. Com este conhecimento tece pactos que o ligam a várias pessoas. Assim garante o seu poder e desenvolve um Império. Apesar de todas as promessas, uma família persiste, acabando por ser escorraçada.

Visualmente esmagador, apresenta uma demanda que segue caminhos imprevistos – não esperem um mundo fofinho e bonitinho, antes uma realidade corrompida pela ganância e a traição, onde os locais mais bonitos se degradam.

Tony Chu Vs Farmhand

Dois melhores num. A série Tony Chu, publicada em Portugal pela G Floy, terminou em grande – num pico de demência deliciosamente nojenta, tal como a série nos habituou. Posto isto, parece que os autores resolveram continuar projectos separados. Johny Layman está a lançar um spin-off the Tony Chu com um novo desenhador (que deverei começar a ler quando for lançada no formato de volume). Rob Guillory lançou uma nova série a solo, Farmhand.

E o que é Farmhand? Imaginem que as árvores conseguiam produzir partes de seres humanos! Sem rejeições, sem efeitos secundários! Mas apenas um homem tem a capacidade de desenvolver estas partes! E bem.. sem efeitos secundários conhecidos. Claro que eles existem e essa será uma grande parte da narrativa que se desenvolve.

(opinião mais detalhada do último volume da série Tony Chu e opinião mais detalhada de Farmhand)

Middlewest – Skottie Young e Jorge Corona

I Hate Fairyland era uma série fantástica em que Skottie Young utilizava todos os clichés do género fantástico para produzir uma personagem devastadora numa premissa fabulosa – e dramaticamente cómica. Depois de gozar com todos os clichés, o autor usa-os para produzir, com sucesso, uma nova narrativa fantástica onde segue um rapaz na descoberta do que o corrói.

Em termos narrativos ainda tem alguns pontos por limar, mas está a ser uma das mais sólidas séries dos últimos tempos. Visualmente é excelente!

(Opinião mais completa de Middlewest)

Banda desenhada de horror

Gideons Falls – Jeff Lemire, Andrea Sorrentino e Dave Stewart

Jeff Lemire adapta as suas capacidades narrativas ao género do horror, criando uma série soturna e pesada. Encontramos a sua conhecida caracterização de personagens (com pequenos flashbacks e segredos que nos permitem conhecer as falhas e simpatizar) e a mesma capacidade de alternar linhas narrativas e manter-nos com vontade de ler o que se sucede.

A narrativa de Jeff Lemire é acompanhada por um estilo visual também soturno, nem sempre visualmente agradável (o horror não é agradável), mas completamente concordante com a história, dando-lhe peso e expressando de forma quase perfeita os acontecimentos que acompanha.

(Opinião mais completa do segundo volume)

Bone Parish – Cullen Bunn, Jonas Scharf e Alex Guimarães

Em Bone Parish a premissa é simples – uma nova droga, produzida a partir de cadáveres, é o novo produto de um negócio familiar. O sucesso da droga é de tal ordem que dois grupos mafiosos pretendem adquiri-lo. Para tal iniciam aproximações bastante diferentes, um dos grupos opta pela negociação, outra pela violência.

A narrativa oscila entre o drama familiar (em que a família se afasta durante esta crise, ao invés de se unirem), a produção da nova droga e os seus efeitos secundários. Em temos visuais alterna entre explosões de cor e um ambiente nocturno com traços de decadência.

(Opinião mais completa do primeiro volume)

Banda desenhada de ficção científica

Ascender – Jeff Lemire e Dustin Nguyen

Ascender é a série de continuação a Descender, decorrendo alguns anos depois. Se a guerra entre humanos e máquinas provoca desconfiança na tecnologia, o final dessa guerra parece ter empurrado a humanidade para a obscuridade. Um novo poder ergue-se, proibindo a tecnologia em diversos mundos. Apesar de ser uma série autónoma, apresenta personagens já conhecidas de Descender.

Beauty – Jeremy Haun, Jason A. Hurley e John Rauch

E se uma infecção sexualmente transmissível transforma-se os seres humanos tornando-os belos? Em maior detalhe, com metabolismo acelerado (e magros) e de pele luminosa e perfeita? Bem, em Beauty esta doença existe e gera muita controvérsia. Alguns desenham apanhá-la a todo o custo, enquanto outros a usam como escape para as suas frustrações.

A história começa por nos apresentar um impensável efeito secundário da doença, com um ser humano a entrar em combustão espontânea. Dois detectives são chamados a intervir, tentando controlar o medo e perceber o fenómeno, mas, também, investigando os homicídios de vários infectados.

(Opinião mais completa ao primeiro volume)

Banda desenhada – Outros

Todo Paracuellos – Carlos Giménez

A edição pode não ser das melhores, mas trata-se de uma das melhores leituras dos últimos tempos. Nos anos 50 algumas crianças viram-se sem pais. Seja porque faleceram, seja porque estavam doentes, seja porque estavam a trabalhar ou com demasiadas bocas para alimentar. Estas crianças eram colocadas em colégios internos pagos pelo Estado e progressivamente, deixavam de ser crianças.

O autor usa a sua própria experiência nestas instituições para construir uma série de episódios onde se demonstra toda a brutalidade existente. Entre castigos corporais e psicológicos, entre rezas intermináveis e fome, as crianças são tratadas sem piedade e sobrevivem em condições desumanas.

(Podem ler uma opinião mais detalhada AQUI)

O Castelo dos Animais – Delep e Dorison

Eis uma das grandes leituras dos últimos meses! O Castelo dos Animais usa explicitamente a premissa do clássico de Orwell para tecer uma história mais “humana” e próxima das personagens. Nesta narrativa os animais são autónomos dos humanos e subsistem com o governo do Touro (auxiliado pelos cães). O poder do Touro mantém-se através da instigação do medo por um inimigo externo – os lobos! Mas será que existem lobos?

A narrativa centra-se numa gata que ficou sem parceiro e que tem de trabalhar no transporte de pedras para poder dar de comer às crias. Uma gansa ajuda-a e toma conta dos gatinhos na ausência da mãe. Mas quando alguns animais cheiram a verdade por detrás da narrativa dos lobos, a revolta é esmagada pelos dentes dos cães. A partir daqui, o sentimento revolta passa a crescer, escondido.

O Homem que matou o Lucky Luke – Matthieu Bonhomme

Esta homenagem a Lucky Luke foi publicada em Portugal recentemente. Ainda não tive oportunidade de a comentar, mas é uma leitura engraçada que usa a personagem e alguns elementos chaves para contar uma boa aventura. Adicionalmente, destaca-se a limitação apresentada ao autor de não poder colocar a personagem a fumar – desta forma, Lucky Luke passa o tempo todo a tentar fumar… mas ora não há tabaco, ora o pouco que consegue comprar se desvanece se que consiga fazer um cigarro.

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